Nos Açores, quatrocentos funcionários públicos vivem desde janeiro uma experiência que o continente ainda não ousou tentar: trabalhar 32 horas semanais sem perder um cêntimo do salário. A iniciativa não é apenas sobre tempo — é sobre a capacidade do Estado de se reinventar como empregador, de atrair quem ainda hesita entre o setor público e o privado, e de provar que eficiência e bem-estar não são forças opostas. Num momento em que a Administração Pública enfrenta dificuldades de recrutamento e uma imagem de imobilismo, os Açores escolheram a experiência como resposta.
Açores testam semana de trabalho de 32 horas na Função Pública com 400 funcionários
Há que experimentar e veremos os resultados
Porque é que os Açores conseguem fazer isto quando o continente não consegue?
Porque decidiram. Estava no programa do Governo Regional, estava no Orçamento de 2025, e avançaram. No continente, ficou na gaveta.
Mas será que é realmente uma decisão política ou é apenas um projeto-piloto com 400 pessoas? Há diferença entre testar e implementar.
Claro que há. Por isso é que é um teste. Querem ver se funciona antes de decidir se alargam.
E o que é que "funciona" neste contexto? Produtividade? Satisfação?
Os dois. E também se conseguem simplificar processos, se conseguem atrair mais gente jovem para a Administração Pública.
Mas como é que medem produtividade numa administração pública? Não é como uma fábrica.
Exatamente. Por isso é que têm professores da Universidade de Reading a orientar isto. Precisam de metodologia rigorosa.
E se as pessoas trabalham menos horas, como é que os serviços não pioram?
Reorganizaram os processos. Fizeram reuniões preparatórias, alteraram as práticas internas.
Mas os detalhes dessa reorganização não estão públicos. Só sabemos que houve reuniões. Não sabemos o quê, exatamente, mudou.
Verdade. O relatório vem depois de junho. Por enquanto, o que temos é que a amostra se mantém sólida, com apenas uma ou duas desistências.
Isso é bom sinal?
É um sinal. Significa que as pessoas que entraram no projeto não estão a sair dele.
Le Pouls
- A semana de quatro dias chegou à Função Pública portuguesa — não como promessa, mas como realidade em curso desde janeiro nos Açores, com 400 trabalhadores voluntários a viver a mudança.
- A tensão central é clara: reduzir horas sem reduzir produtividade exige reorganização profunda dos processos internos, e ninguém garante ainda que o equilíbrio seja possível.
- Para não improvisar, o Governo Regional estabeleceu um protocolo com a Universidade de Reading e envolveu os sindicatos e dirigentes antes de arrancar — uma aposta na metodologia como escudo contra o ceticismo.
- A adesão surpreendeu pela solidez: quase nenhuma desistência desde o início, com a maioria dos participantes a optar pela semana de quatro dias completos de oito horas.
- O veredicto ainda não chegou — o relatório com os resultados só é esperado após junho —, mas o teste continua, e os Açores já jogaram uma carta que o continente ainda segura na mão.
Nos Açores, quatrocentos funcionários públicos vivem desde janeiro uma experiência que o continente ainda não ousou tentar: trabalhar 32 horas semanais sem perder um cêntimo do salário. A iniciativa não é apenas sobre tempo — é sobre a capacidade do Estado de se reinventar como empregador, de atrair quem ainda hesita entre o setor público e o privado, e de provar que eficiência e bem-estar não são forças opostas. Num momento em que a Administração Pública enfrenta dificuldades de recrutamento e uma imagem de imobilismo, os Açores escolheram a experiência como resposta.
Desde janeiro, quatrocentos funcionários públicos nos Açores trabalham 32 horas por semana. É um teste sem precedente na Administração Pública portuguesa — e a região decidiu fazê-lo enquanto o continente ainda debatia a ideia no papel.
A motivação é tripla, segundo Délio Borges, diretor regional responsável pelo projeto: perceber como a redução horária afeta produtividade e satisfação, identificar oportunidades de simplificação administrativa, e tornar o setor público mais atrativo para jovens talentos. Com salários definidos por lei e benefícios limitados, uma semana mais curta é uma carta diferente a jogar na disputa por recursos humanos.
Para estruturar a experiência, o Governo Regional estabeleceu um protocolo com a Universidade de Reading, com orientação dos investigadores Rita Fontinha e Pedro Gomes — os mesmos que coordenaram um projeto-piloto semelhante no setor privado português. Antes do arranque, houve reuniões com sindicatos e dirigentes. O objetivo era recrutar entre 300 e 400 voluntários. Conseguiram.
Os participantes tiveram duas opções de organização horária: quatro dias de oito horas, ou quatro dias completos mais meio dia. A maioria escolheu os quatro dias inteiros. Em nenhum caso houve corte salarial — a semana passou de 35 para 32 horas, mas o vencimento manteve-se intacto.
A reorganização dos processos internos foi condição essencial: não é possível decretar eficiência, reconhece Borges. Houve trabalho preparatório para fazer mais com menos tempo. Os resultados detalhados virão no relatório esperado após junho. Por agora, o sinal mais visível é a coesão da amostra — desde janeiro, apenas uma ou duas pessoas desistiram.
Aos céticos, Borges responde com uma pergunta: se uma empresa tem o dever de testar produtos novos, porque não deveria o Estado ter a mesma preocupação? O projeto continua. Os dados virão depois.
Desde janeiro, quatrocentos funcionários públicos nos Açores trabalham 32 horas por semana. É um teste. Ninguém sabe ainda se vai funcionar, mas a região decidiu tentar descobrir.
No continente, a ideia de reduzir a semana de trabalho na Função Pública nunca saiu do papel. Mas nos Açores, o Governo Regional transformou a intenção em ação. Délio Borges, diretor regional da Organização, Planeamento e Emprego Público, explica que o projeto estava previsto no programa governamental e que o Orçamento de 2025 criou a base legal para avançar. A motivação é tripla: compreender como a redução horária afeta a produtividade e a satisfação dos trabalhadores, identificar formas de simplificar processos administrativos, e tornar a Administração Pública mais atrativa para jovens talentos. O setor público açoriano enfrenta dificuldades em recrutar para algumas áreas e carreiras. Os salários são o que são, os benefícios estão definidos por lei. Uma semana de trabalho mais curta é uma carta diferente a jogar.
Para desenhar a experiência, o Governo Regional fez um estudo interno e estabeleceu um protocolo com a Universidade de Reading. Rita Fontinha e Pedro Gomes, professores que coordenaram um projeto-piloto semelhante no setor privado português, orientam agora o teste açoriano. Depois vieram as reuniões com os sindicatos, depois com os dirigentes da Administração Pública regional. O objetivo era recrutar entre 300 e 400 trabalhadores dispostos a participar voluntariamente. Conseguiram. Alguns departamentos não tinham condições internas para aderir — faltavam recursos humanos ou estavam sobrecarregados com projetos do Plano de Recuperação e Resiliência. Mas a amostra fechou com os números pretendidos.
Os 400 funcionários tiveram duas opções. A primeira: trabalhar 32 horas em quatro dias de oito horas cada. A segunda: trabalhar 32 horas em quatro dias e meio, com quatro horas no quinto dia. A modalidade de quatro dias completos foi a escolha dominante. Em ambos os casos, não há redução de salário. A semana passou de 35 para 32 horas, mas o vencimento mantém-se intacto.
Para que a redução de horas não se traduzisse em queda de produtividade, a Administração Pública reorganizou os processos de trabalho. Não é possível decretar eficiência de um dia para o outro, diz Borges. Houve reuniões preparatórias focadas em alterar as práticas internas, em fazer mais com menos tempo. Os detalhes dessa reorganização virão no relatório esperado após junho. Por enquanto, o que se sabe é que a amostra se mantém coesa. Desde janeiro, apenas uma ou duas pessoas desistiram. O teste continua.
Borges responde aos críticos com uma pergunta: se uma empresa tem o dever de experimentar um produto ou serviço novo, porque não deveria a Administração Pública ter essa preocupação? Há que experimentar e ver os resultados. O projeto-piloto está em marcha. Os dados virão depois.
Citations marquantes
Se uma empresa tem o dever de experimentar um produto ou um serviço novo, porque é que a Administração Pública não deveria ter essa preocupação?— Délio Borges, diretor regional da Organização, Planeamento e Emprego Público
Não é possível decretar o aumento da produtividade ou da eficiência de um dia para o outro. Tem de haver um trabalho de casa e uma reorganização dos serviços.— Délio Borges