Nos Açores, onde o tempo parece correr de forma diferente, uma conferência em Ponta Delgada levantou uma questão que vai além da política de saúde: será que este arquipélago, com a população mais envelhecida de Portugal e uma esperança de vida abaixo da média nacional, possui já os ingredientes que fazem de certos lugares no mundo redutos de longevidade e bem-estar? A consultora internacional Céline Vadam e o Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores argumentam que sim — que a natureza preservada, o tecido comunitário e a gastronomia local não são apenas patrimónios culturais, mas potenciai
Açores reúnem potencial para se tornar Blue Zone, defende especialista
Os Açores dispõem de tudo o que precisam, falta apenas a vontade de agir
Porque é que uma região precisa de se tornar numa Blue Zone? Não é apenas uma questão de viver mais anos?
Não é só isso. Uma Blue Zone não é apenas longevidade — é longevidade com qualidade. Menos doenças crónicas, menos sofrimento, mais anos de vida ativa e com propósito. Para os Açores, que enfrenta envelhecimento acelerado, isto muda tudo.
E o que torna os Açores diferentes de outras regiões que envelhecem?
Têm algo que muitas regiões perderam: comunidade viva, natureza preservada, gastronomia enraizada em produtos locais. Isto não é nostalgia — é o fundamento científico das Blue Zones.
Mas como se transforma isto em política pública?
Esse é o verdadeiro desafio. Não basta ter os ingredientes. É preciso organizá-los, protegê-los, amplificá-los. O INOVA está a sugerir que se replique o que funcionou noutros lugares.
E se não funcionar?
Então a região continua como está — envelhecendo mais depressa que o resto do país, com menos esperança de vida. Mas se funcionar, os Açores deixam de ser um problema demográfico e tornam-se um modelo.
Há pressa?
Há. Cada ano que passa, a população envelhece mais. O momento para agir é agora, enquanto ainda há estrutura comunitária para construir sobre ela.
Le Pouls
- Os Açores envelhecem mais depressa do que o resto de Portugal, com uma esperança de vida de 78 anos à nascença — um sinal de alerta que torna urgente repensar o modelo de saúde e bem-estar da região.
- Pela primeira vez, uma conferência formal propõe que o arquipélago não trate o envelhecimento como problema isolado, mas como ponto de partida para uma transformação inspirada nas cinco Blue Zones mundiais.
- A consultora Céline Vadam identificou nos Açores os mesmos pilares que sustentam Okinawa, a Sardenha e Icária: coesão social, movimento natural, propósito de vida e alimentação baseada em produtos locais.
- O INOVA avança com uma proposta concreta: replicar metodologias já testadas internacionalmente, transformando os recursos naturais e culturais do arquipélago em política sistémica de longevidade.
- A conferência encerrou não com respostas, mas com um convite direto a governos, instituições de saúde e líderes comunitários para converterem um desafio demográfico numa vantagem competitiva global.
Nos Açores, onde o tempo parece correr de forma diferente, uma conferência em Ponta Delgada levantou uma questão que vai além da política de saúde: será que este arquipélago, com a população mais envelhecida de Portugal e uma esperança de vida abaixo da média nacional, possui já os ingredientes que fazem de certos lugares no mundo redutos de longevidade e bem-estar? A consultora internacional Céline Vadam e o Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores argumentam que sim — que a natureza preservada, o tecido comunitário e a gastronomia local não são apenas patrimónios culturais, mas potenciais instrumentos de saúde pública. O desafio não é criar algo novo, mas reconhecer e cultivar o que já existe.
Numa sala de conferências em Ponta Delgada, a fundadora de uma consultoria internacional de bem-estar apresentou uma tese que mistura dados demográficos com uma visão quase utópica: os Açores têm o que é preciso para se tornarem uma Blue Zone — um daqueles raros lugares do planeta onde as pessoas vivem mais, com menos doenças e maior qualidade de vida.
As Blue Zones existem apenas em cinco pontos do globo — Okinawa, a Sardenha, Nicoya, Icária e Loma Linda — e o que as une não é o clima nem a riqueza, mas hábitos profundamente enraizados: movimento natural, propósito de vida, moderação alimentar e laços comunitários sólidos. Céline Vadam identificou estes mesmos elementos nos Açores durante a conferência organizada pelo Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores, e o argumento que apresentou é simples mas poderoso: a região tem natureza preservada, coesão social, agricultura biológica e uma gastronomia assente em produtos locais como o chá, o maracujá e a banana.
O que torna esta oportunidade urgente é precisamente o problema que a motiva. Os Açores têm a população mais envelhecida de Portugal, com uma esperança de vida à nascença de 78 anos, abaixo da média nacional. A região envelhece mais depressa do que o resto do país — um desafio demográfico real que, na perspetiva do INOVA, pode ser também uma oportunidade. Se as metodologias das Blue Zones funcionaram em contextos semelhantes, porque não funcionariam aqui?
Teresa Ferreira, presidente do INOVA, vê neste caminho uma aposta inovadora mas fundamentada: não se trata de inventar um modelo, mas de replicar protocolos já testados com sucesso noutras regiões. A conferência encerrou como um convite — dirigido a governos, instituições de saúde e líderes comunitários — para transformar os ingredientes que os Açores já possuem numa estratégia sistemática de longevidade. A questão que ficou no ar não é se os recursos existem, mas se existe vontade coletiva para os usar.
Numa sala de conferências em Ponta Delgada, Céline Vadam, fundadora de uma consultoria internacional de bem-estar, apresentou uma tese provocadora: os Açores têm tudo o que é preciso para se tornar numa Blue Zone — um daqueles raros lugares do planeta onde as pessoas vivem mais tempo, com menos doenças e melhor qualidade de vida.
As Blue Zones existem em apenas cinco locais no mundo. Okinawa, no Japão. A Sardenha, em Itália. A península de Nicoya, na Costa Rica. A ilha de Icária, na Grécia. E Loma Linda, na Califórnia. Singapura está em vias de se tornar a sexta. O que estas regiões têm em comum não é clima ou riqueza, mas um conjunto de hábitos e valores profundamente enraizados: as pessoas movem-se naturalmente, têm propósito, comem com moderação e mantêm laços comunitários fortes. Vadam identificou estes mesmos ingredientes nos Açores durante a conferência "Rumo às Blue Zones: Como a Transformação Digital Promove a Longevidade", organizada pelo Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores no auditório da Escola de Novas Tecnologias.
O argumento é simples mas poderoso. A região tem uma natureza preservada que rival qualquer Blue Zone estabelecida. Tem um espírito comunitário que ainda respira — o tipo de coesão social que desaparece nas cidades grandes. Tem agricultura biológica. Tem uma gastronomia construída sobre produtos locais de qualidade: chá, maracujá, banana. Tem um estilo de vida que, nas palavras de Vadam, é "despreocupado". Tem o que ela chama de "mentalidade adequada", aquela disposição para desacelerar, para estar presente, para valorizar a família e a comunidade acima de tudo.
Mas há um problema que torna esta oportunidade urgente. Os Açores têm a população mais envelhecida de Portugal. A esperança de vida à nascença é de 78 anos — abaixo da média nacional. Os dados mais recentes mostram uma região que envelhece mais depressa do que o resto do país, com menos anos de vida pela frente. É um desafio demográfico real, mas também uma oportunidade: se a metodologia das Blue Zones funciona em Okinawa e na Sardenha, porque não funcionaria aqui?
Teresa Ferreira, presidente do INOVA, vê isto como um caminho inovador. A instituição não está a inventar nada — está a apontar para um modelo que já provou funcionar internacionalmente. O desafio agora é replicar os protocolos e metodologias que outras regiões com problemas semelhantes já testaram com sucesso. Se os Açores conseguirem aplicar estes princípios de forma sistemática, se conseguirem potenciar os recursos locais que já possuem, então talvez a região possa aspirar a algo que parecia impossível há poucos anos: tornar-se a sexta Blue Zone do mundo.
A conferência que terminou em Ponta Delgada não foi apenas um exercício académico. Foi um convite às entidades responsáveis — governos, instituições de saúde, líderes comunitários — para começarem a conversa séria sobre como transformar um desafio demográfico numa vantagem competitiva. Os Açores têm os ingredientes. A questão agora é se têm a vontade de os usar.
Citations marquantes
Os Açores dispõem de uma natureza maravilhosa e um sentimento muito forte de comunidade, princípios fundamentais para atingir o espírito adequado para a longevidade— Céline Vadam, fundadora e CEO da WE(i) Think
O INOVA apontou um caminho inovador com base num projeto que já teve provas dadas de sucesso internacional, e se replicarmos esta metodologia à Região, talvez fiquemos elegíveis para conquistar os resultados provados noutras partes do mundo— Teresa Ferreira, presidente da direção do INOVA