Quando o Congresso norte-americano falhou na aprovação do seu orçamento federal, os efeitos dessa paralisia atravessaram o Atlântico e chegaram aos bolsos de trabalhadores portugueses na Base das Lajes, na ilha Terceira. Perante o silêncio dos ministros de Lisboa, foi o Governo Regional dos Açores que avançou com um adiantamento salarial, forçando depois a República a assumir os encargos da operação. O episódio revela uma tensão mais antiga: a de uma região estratégica que sente ser tratada como periferia por quem deveria reconhecer o seu valor atlântico.
Açores acusa República de abandonar trabalhadores da Base das Lajes
Portugal já não tem colónias. Os Açores são uma região autónoma
Porque é que isto importa? Estamos a falar de um atraso salarial causado por uma questão administrativa americana, certo?
Sim, mas o ponto é que Portugal tinha canais diplomáticos para resolver isto. Espanha e Alemanha já tinham adiantado os salários aos seus trabalhadores. Portugal não fez nada.
Espera. Sabemos quantos trabalhadores estamos a falar? A fonte não diz o número.
Não, não diz. É uma lacuna importante. Mas o que sabemos é que eram suficientes para que o Governo Regional dos Açores tivesse de intervir com o seu próprio dinheiro.
E o Governo da República, no final, concordou em pagar?
Concordou em cobrir os encargos bancários, mas apenas depois de pressão direta. Luís Montenegro comprometeu-se na reunião de Conselho de Ministros.
Mas isso foi uma decisão política ou uma obrigação legal? Porque se foi apenas política, pode mudar.
A fonte não deixa claro. O que sabemos é que Lima teve de insistir, e que o primeiro-ministro teve de intervir pessoalmente.
Há algo mais profundo aqui, não há?
Sim. Lima está a dizer que os Açores não estão a ser tratados como uma região autónoma legítima. Que Lisboa os trata como se fossem ainda uma colónia.
Mas ele próprio admite que o Governo Regional pode estar a sobrepor-se. Isso enfraquece o argumento dele.
Talvez. Ou talvez seja honestidade. Ele está a dizer: sim, estamos a fazer algo que tecnicamente não nos compete, mas alguém tinha de o fazer.
O Pulso
- Trabalhadores portugueses da Base das Lajes ficaram sem salário em outubro, vítimas de uma paralisação administrativa norte-americana que Lisboa ignorou durante semanas.
- O vice-presidente dos Açores, Artur Lima, acusou publicamente os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa de abandono total, num tom que misturava urgência social com indignação política.
- Face ao silêncio da República, o Governo Regional decidiu agir sozinho, recorrendo à banca para adiantar os salários — uma manobra que forçou Lisboa a entrar no jogo.
- O primeiro-ministro Montenegro comprometeu-se a cobrir os encargos bancários, mas apenas após pressão insistente dos Açores, o que Lima descreveu como uma vitória conquistada de baixo para cima.
- Por detrás da crise salarial emerge uma disputa mais profunda sobre autonomia e respeito: Lima declarou que Portugal já não tem colónias e que os Açores merecem ser tratados como parceiros, não como periferias.
Quando o Congresso norte-americano falhou na aprovação do seu orçamento federal, os efeitos dessa paralisia atravessaram o Atlântico e chegaram aos bolsos de trabalhadores portugueses na Base das Lajes, na ilha Terceira. Perante o silêncio dos ministros de Lisboa, foi o Governo Regional dos Açores que avançou com um adiantamento salarial, forçando depois a República a assumir os encargos da operação. O episódio revela uma tensão mais antiga: a de uma região estratégica que sente ser tratada como periferia por quem deveria reconhecer o seu valor atlântico.
Na sala de conferências de Angra do Heroísmo, o vice-presidente do Governo Regional dos Açores, Artur Lima, não conteve a frustração. Os trabalhadores portugueses da Base das Lajes tinham ficado sem receber o salário da última quinzena de outubro, e a quinzena anterior chegara já com um corte de quatro dias. A causa estava em Washington: o Congresso norte-americano não aprovara o orçamento federal, e a paralisação administrativa cascateou até aos vencimentos de quem trabalha para a USFORAZORES.
O problema tornara-se público a 13 de outubro, quando os próprios trabalhadores o denunciaram. Lima enviou uma carta ao ministro dos Negócios Estrangeiros dois dias depois, pedindo que fossem ativados todos os canais diplomáticos. A resposta nunca chegou. Sindicatos e partidos exigiam que Lisboa fizesse o que Espanha e Alemanha já tinham feito — adiantar os salários —, mas o silêncio dos ministros Rangel e Nuno Melo manteve-se. Lima acusou-os de abandono completo, sublinhando que os trabalhadores serviam numa base de importância internacional e estavam a ser deixados à sua sorte.
Face à inação de Lisboa, o Governo Regional decidiu agir sozinho. Através do Instituto da Segurança Social dos Açores, avançaria com o adiantamento dos salários recorrendo à banca, com uma condição: a República cobriria os encargos da operação. A pressão funcionou parcialmente — na reunião de Conselho de Ministros, o primeiro-ministro Luís Montenegro comprometeu-se a assegurar esses encargos. Lima descreveu o acordo como um entendimento ao mais alto nível, mas o tom deixava claro que deveria ter vindo de cima para baixo, não o contrário.
O episódio serviu de mote a uma declaração mais ampla. Lima afirmou que o Governo da República precisava de se habituar ao facto de Portugal já não ter colónias, que os Açores eram uma região autónoma que acrescentava valor a Portugal e à Europa. Quando questionado sobre se estaria a sobrepor-se a Lisboa, respondeu sem hesitar: era preciso evitar que os trabalhadores passassem por privações, e o Governo Regional nunca abandonaria o seu povo. A mensagem era inequívoca — se Lisboa não age, os Açores agem.
Na sala de conferências de Angra do Heroísmo, Artur Lima, vice-presidente do Governo Regional dos Açores, não conteve a frustração. Os trabalhadores portugueses que servem na Base das Lajes, na ilha Terceira, tinham ficado sem receber o salário da última quinzena em 27 de outubro. A quinzena anterior havia chegado com um corte de quatro dias. A culpa era de Washington: o Congresso norte-americano não tinha aprovado o orçamento federal, deixando a administração americana em paralisação parcial, e os efeitos cascatearam até aos salários de quem trabalha para a USFORAZORES.
O problema tinha começado a ganhar visibilidade em 13 de outubro, quando os próprios trabalhadores o denunciaram. Dois dias depois, Lima enviou uma carta ao ministro dos Negócios Estrangeiros, apelando que o Governo da República ativasse todos os canais diplomáticos para garantir o cumprimento das obrigações contratuais. A resposta nunca chegou. Sindicatos, trabalhadores e partidos políticos começaram a exigir que Lisboa fizesse o que Espanha e Alemanha já tinham feito: adiantar os salários em atraso. Mas o silêncio de Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, e de Nuno Melo, ministro da Defesa, manteve-se.
Lima não poupou palavras. Acusou os dois ministros de abandono completo, de terem ignorado por inteiro o que se passava num território português. Descreveu os trabalhadores como cidadãos portugueses numa situação social difícil, deixados à sua sorte. Sublinhou que trabalhavam numa base importante para a manutenção da paz no mundo, como se quisesse recordar que não se tratava de um assunto menor. A frustração tinha também uma dimensão política: Melo é líder do CDS-PP, o mesmo partido que Lima dirige nos Açores.
Face à inação de Lisboa, o Governo Regional dos Açores decidiu agir sozinho. Através do Instituto da Segurança Social dos Açores, avançaria com o adiantamento dos salários em atraso, recorrendo à banca para financiar a operação. Havia, porém, uma condição: o Governo da República teria de cobrir os encargos da operação. Era uma forma de forçar a mão de quem tinha falhado.
A pressão funcionou, mas apenas parcialmente. Na reunião de Conselho de Ministros da semana anterior, com a presença dos presidentes dos governos regionais, o primeiro-ministro Luís Montenegro comprometeu-se a assegurar o pagamento dos encargos bancários. Lima descreveu isto como um entendimento ao mais alto nível, conseguido por insistência do Governo Regional e com contacto posterior ao ministro das Finanças. Mas o tom da sua fala deixava claro que isto deveria ter vindo de cima para baixo, não de baixo para cima.
Lima aproveitou para fazer uma declaração mais ampla sobre a relação entre Lisboa e os Açores. Disse que o Governo da República precisava de se habituar ao facto de Portugal já não ter colónias, que os Açores eram uma região autónoma que merecia respeito e consideração. Argumentou que os Açores davam dimensão atlântica a Portugal, que acrescentavam valor a Portugal e à Europa. Havia, nas suas palavras, uma reclamação mais profunda: a de que uma região estratégica, com uma base militar de importância internacional, estava a ser tratada como se não importasse.
Quando questionado sobre se o Governo Regional não estaria a sobrepor-se ao Governo da República, Lima respondeu que poderia haver essa acusação, mas que era preciso evitar que os trabalhadores passassem por privações por não receberem o seu ordenado a tempo. Reafirmou que o Governo Regional nunca abandonaria o seu povo. A mensagem era clara: se Lisboa não age, os Açores agem. E se isso significar ultrapassar limites, assim seja.
Citações Notáveis
Abandonaram trabalhadores portugueses, que trabalham numa base importante para a manutenção da paz no mundo— Artur Lima, vice-presidente do Governo Regional dos Açores
Este Governo Regional nunca irá abandonar o seu povo— Artur Lima