A reforma tributária que não foi feita: o caminho errado do jeito certo

talvez tenhamos apenas feito a coisa errada do jeito certo
A reflexão final sobre uma reforma tributária que funciona tecnicamente mas não resolve o problema estrutural de distribuição de renda.
Mark

Por que você acha que a reforma foi feita de trás para frente?

Mimi

Porque começamos tentando consertar o sistema que temos, em vez de desenhar o sistema que queremos. É como tentar reformar uma casa velha sem antes decidir que casa você quer ter.

Luke

Mas a reforma foi aprovada. Ela tem objetivos concretos — simplificar impostos, reduzir distorções. Esses objetivos não são válidos?

Mimi

São válidos, mas incompletos. A reforma resolve alguns problemas de curto prazo sem resolver o problema estrutural: quem ganha pouco paga proporcionalmente mais.

Mark

E qual seria a solução estrutural?

Mimi

Definir um destino claro para quarenta anos. Decidir quanto da arrecadação deveria vir do consumo, quanto do trabalho, quanto da renda, quanto do patrimônio. Depois, fazer pequenas reformas que sempre apontam nessa direção.

Luke

Mas isso é uma visão política, não apenas técnica. Diferentes governos podem ter diferentes respostas sobre quanto tributar cada coisa. Como você estabelece uma bússola que sobrevive a mudanças políticas?

Mimi

Boa pergunta. Talvez não sobreviva intacta. Mas pelo menos haveria um norte. Agora não há. Cada reforma é um remendo.

Mark

Você mencionou que em Pinheiros arrecada-se quase o equivalente ao ITR de todo o país. Isso não mostra que a reforma deveria ter focado em patrimônio?

Mimi

Exatamente. Mas a reforma focou em consumo. Transferiu custos para comércio e serviços, setores que já pagam bastante.

Luke

Espera. A reforma foi aprovada. Você está dizendo que ela está errada, mas ela já é lei. O que muda agora?

Mimi

A discussão não terminou. Sempre é tempo de corrigir a rota. Pequenas reformas futuras poderiam apontar na direção certa, se houver vontade política.

  • O sistema tributário brasileiro cobra proporcionalmente mais de quem ganha menos — o imposto no saco de ração é o mesmo para o morador da periferia e para o dos Jardins.
  • Uma disparidade reveladora: quatro distritos de São Paulo arrecadam em IPTU quase o equivalente a todo o Imposto Territorial Rural do país, expondo como a riqueza acumulada escapa da tributação proporcional.
  • A reforma do consumo aprovada simplifica e reorganiza, mas cria nova injustiça ao conceder favores a setores específicos e transferir os custos ao comércio e aos serviços.
  • O erro central foi metodológico: partiu-se do sistema existente para remendá-lo, quando o correto seria desenhar o destino desejado e construir a transição a partir dele.
  • Sem uma bússola de longo prazo, reformas futuras podem corrigir distorções gradualmente — mas a reforma atual arrisca ter feito, com competência, a coisa errada.

Após décadas observando a economia brasileira de dentro das empresas, um empresário experiente lança uma crítica que vai além dos detalhes técnicos da reforma tributária recém-aprovada: o Brasil remendou um sistema falho em vez de imaginar, primeiro, o sistema que deseja ter. Em economias que reduzem desigualdade, a tributação funciona como contrapeso à concentração de riqueza — no Brasil, ela ainda penaliza quem menos tem, via consumo, e poupa quem mais acumula, via patrimônio. A ausência de uma visão de destino para quarenta anos transforma a reforma em um exercício de precisão sem propósito claro.

Com mais de quarenta anos na administração de empresas, o autor atravessou hiperinflação, congelamentos e mudanças de moeda. Cada transformação ensinou a mesma lição: para mudar de verdade, é preciso saber aonde se quer chegar antes de construir o caminho. A reforma tributária aprovada, porém, foi feita ao contrário.

O sistema tributário brasileiro carrega uma distorção crescentemente difícil de justificar: quem tem menos paga proporcionalmente mais, via consumo, enquanto quem acumula patrimônio paga proporcionalmente menos. No varejo, o imposto embutido no preço de um produto não distingue o cliente da periferia do cliente dos Jardins. Já o patrimônio, que deveria compensar essa assimetria, é tributado de forma profundamente desigual — os dados revelam que quatro distritos de São Paulo arrecadam em IPTU quase o equivalente a todo o Imposto Territorial Rural do Brasil. Essa concentração não é acidental; é o reflexo de um sistema que permite à riqueza acumular-se sem tributação proporcional.

A reforma do consumo aprovada tem méritos reais: reorganiza tributos e reduz algumas distorções. Mas carrega uma contradição interna ao conceder tratamentos favorecidos a setores específicos, transferindo parte da conta ao comércio e aos serviços — beneficiando alguns à custa de outros sem resolver o problema de fundo.

O erro maior foi metodológico. Partiu-se do sistema existente, uma colcha de retalhos construída ao longo de décadas, para remendá-lo. O caminho correto seria o inverso: desenhar primeiro o sistema desejado para daqui a quarenta anos — com menos tributação sobre consumo e mais sobre renda e patrimônio — e só então construir a transição. Não se trata de chegar lá amanhã, mas de definir o destino e ter uma bússola.

A reforma está aprovada, mas a discussão não terminou. Sempre é tempo de corrigir a rota, especialmente no início de uma viagem longa. Porque, se a reforma funcionar perfeitamente sem essa visão de destino, o Brasil pode ter feito apenas a coisa errada do jeito certo.

Há mais de quarenta anos na administração de empresas, atravessei ciclos econômicos que poucos brasileiros vivenciaram na íntegra: a hiperinflação, os congelamentos de preços, as mudanças de moeda, o Plano Real. Cada uma dessas transformações deixou uma lição clara: quando se quer mudar algo de verdade, é preciso primeiro saber aonde se quer chegar, e depois construir um caminho que seja possível percorrer. É assim que se funda um negócio. É assim que se escolhe um investimento. A reforma tributária que o Brasil acaba de aprovar, porém, foi feita ao contrário.

O sistema tributário de qualquer país financia o Estado, mas pode fazer muito mais do que isso. Em economias desenvolvidas, ele funciona também como um contrapeso à concentração de renda e patrimônio. No Brasil, o que temos é uma distorção que fica cada vez mais difícil de justificar: quem tem menos paga proporcionalmente mais, e quem tem mais paga proporcionalmente menos. A razão é simples e está em toda parte. Tributamos o consumo de forma pesada, e quem ganha pouco consome quase tudo aquilo que recebe. Quem ganha cem vezes mais não gasta cem vezes mais em comida, roupa ou combustível. Poupa. Investe. Acumula patrimônio. No varejo, onde vejo isso todos os dias, o imposto embutido no preço de um saco de ração não faz distinção: cobra do cliente que mora na periferia exatamente o mesmo que cobra de quem mora nos Jardins.

O patrimônio, que deveria compensar essa distorção, é tributado de forma profundamente desigual. Os dados da Receita Federal e da Prefeitura de São Paulo revelam uma disparidade que resume o problema. Em 2025, todo o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural arrecadado em todo o Brasil somou 4,1 bilhões de reais. Apenas os quatro distritos da Subprefeitura de Pinheiros, em São Paulo, arrecadaram 3,5 bilhões de reais em IPTU. Uma área de aproximadamente 32 quilômetros quadrados arrecada em imposto predial quase o equivalente ao que o país inteiro arrecada em imposto sobre terras rurais. Essa concentração não é acidental. É o reflexo de um sistema que permite que a riqueza se acumule sem ser tributada proporcionalmente.

Não se trata de aumentar a carga tributária total. A discussão é outra, muito mais fundamental: como distribuir melhor, entre consumo, trabalho, renda e patrimônio, aquilo que o Estado já arrecada. A reforma do consumo que foi aprovada tem objetivos importantes. Procura reorganizar esses tributos, simplificar impostos e reduzir algumas distorções. Mas carrega uma contradição interna: ao conceder tratamentos favorecidos a determinados setores, transfere parte da conta aos demais, como comércio e serviços. É uma solução que beneficia alguns à custa de outros, sem resolver o problema de fundo.

O erro maior, porém, foi metodológico. Partimos do sistema que já temos, uma verdadeira colcha de retalhos construída ao longo de décadas, e tentamos remendá-lo. Deveríamos ter feito o contrário: desenhar primeiro o sistema que queremos e, só então, construir a transição. Se desenhássemos o sistema tributário brasileiro do zero, hoje, seria este que temos? Duvido muito. A pergunta que deveria ter orientado toda a discussão era outra: que sistema queremos ter daqui a quarenta anos? Quanto deveria vir do consumo? Quanto do trabalho? Quanto da renda? Quanto do patrimônio? Minha resposta, baseada em décadas observando como as economias funcionam, é clara: menos do consumo, mais da renda e do patrimônio.

Não proponho chegar lá amanhã. Seria inviável e provavelmente desastroso. Proponho apenas que se defina o destino. A partir dele, teríamos uma bússola. Ao longo das próximas décadas, pequenas reformas poderiam reduzir impostos aqui, aumentar ali e corrigir distorções, sem elevar a carga total, respeitando as circunstâncias econômicas e políticas de cada momento, mas sempre apontando na mesma direção. Seria um caminho possível, construído com propósito.

A reforma está aprovada, mas a discussão não terminou. Sempre é tempo de corrigir a rota, especialmente no começo de uma viagem que durará quarenta anos. Porque, se a reforma tributária funcionar perfeitamente, talvez tenhamos apenas feito a coisa errada do jeito certo.

Se desenhássemos o sistema tributário brasileiro do zero, hoje, seria este que temos? Duvido.
— Empresário e colunista
A discussão é outra: como distribuir melhor entre consumo, trabalho, renda e patrimônio o que o Estado já arrecada.
— Empresário e colunista
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