Durante oito anos consecutivos, 21 colégios privados portugueses atribuíram notas máximas a uma proporção de alunos que raramente se observa no ensino público — um padrão que a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência agora documenta com rigor. O relatório não nomeia as escolas, mas coloca em evidência uma tensão antiga entre avaliação interna e equidade sistémica: quando as classificações determinam o acesso ao ensino superior, a forma como são atribuídas torna-se uma questão de justiça coletiva.
21 colégios privados repetem notas muito altas há oito anos consecutivos
Vinte e um colégios repetem o mesmo padrão há oito anos consecutivos
Como é que a DGEEC conseguiu identificar este padrão? Não seria natural que algumas escolas tivessem alunos mais brilhantes?
A DGEEC analisou oito anos de dados e encontrou 21 escolas que, consistentemente, atribuem estas notas muito altas a mais de 30% dos alunos, ano após ano. Não é uma questão de ter alunos brilhantes — é a repetição sistemática que levanta bandeiras vermelhas.
Mas espera — o relatório não identifica as escolas. Como sabemos se isto é realmente inflação de notas ou se são apenas escolas com critérios de seleção muito rigorosos? Podiam estar a recrutar os melhores alunos.
Boa questão. Mas mesmo que recrutassem os melhores, a comparação com as escolas públicas é reveladora. Apenas três escolas públicas atingem este limiar, enquanto 38 privadas o fazem. Se fosse apenas uma questão de qualidade dos alunos, esperávamos ver mais equilíbrio.
E as disciplinas anuais — por que é que têm notas tão mais altas?
Porque não têm avaliação externa. As disciplinas anuais são avaliadas apenas internamente pela escola. As disciplinas semestrais têm exames nacionais que funcionam como um ponto de referência objetivo. Sem essa pressão externa, há mais espaço para variação.
Mas o relatório diz que 30% dos alunos destas 38 escolas tiveram 19 ou 20 em todas as disciplinas. Isso é extraordinariamente alto. Quantos alunos estamos a falar? O relatório não diz o número total de alunos nestas escolas.
Não, não diz. Sabemos que são 38 escolas que representam 35% do total de privadas com ensino secundário, mas não temos o número exato de alunos envolvidos.
E as escolas públicas que aparecem nesta lista — como é que conseguem ter estas notas tão altas?
Três escolas públicas atingiram o limiar. Uma delas teve uma subida abrupta de 10% para 19% num ano. Outra teve uma descida de 23% para 16%. Isto sugere que pode haver contextos específicos ou mudanças na população estudantil.
Ou mudanças nos critérios de avaliação. O relatório não explica o que causou estas flutuações. Podiam ser alterações nas metodologias de avaliação, não necessariamente inflação ou deflação de notas.
Verdade. O que o relatório faz é mapear o fenómeno, não explicar as causas. É um primeiro passo para investigação mais profunda.
O Pulso
- 38 escolas privadas atribuíram notas de 19 ou 20 a mais de um terço dos alunos em 2024/2025 — contra apenas três escolas públicas num universo de 483.
- 21 desses colégios repetem este padrão há oito anos seguidos, sem interrupção, sugerindo uma inflação sistemática e não circunstancial das classificações internas.
- As disciplinas anuais, sem avaliação externa, são o terreno mais fértil para estas notas: 14 disciplinas no privado versus cinco no público apresentam o 20 como nota mais frequente.
- As classificações internas pesam diretamente no acesso ao ensino superior e em bolsas de estudo, tornando esta disparidade uma questão de equidade com consequências reais para milhares de jovens.
- A DGEEC anonimizou os dados, não identificando publicamente os colégios envolvidos, mas comprometeu-se a continuar a monitorizar o fenómeno nos próximos anos letivos.
Durante oito anos consecutivos, 21 colégios privados portugueses atribuíram notas máximas a uma proporção de alunos que raramente se observa no ensino público — um padrão que a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência agora documenta com rigor. O relatório não nomeia as escolas, mas coloca em evidência uma tensão antiga entre avaliação interna e equidade sistémica: quando as classificações determinam o acesso ao ensino superior, a forma como são atribuídas torna-se uma questão de justiça coletiva.
Um relatório da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência revelou esta quinta-feira que 38 escolas privadas portuguesas atribuíram notas de 19 ou 20 valores a mais de 30% dos seus alunos no ano letivo 2024/2025 — o equivalente a 35% do total de colégios privados com ensino secundário. Dentro dessas escolas, três em cada dez alunos obtiveram notas máximas em absolutamente todas as disciplinas que frequentaram.
O dado mais perturbador não é o do último ano, mas o da persistência: 21 desses colégios mantêm este padrão de forma ininterrupta desde 2017/2018. Oito anos consecutivos, as mesmas instituições, o mesmo fenómeno. Não é uma exceção — é uma regularidade.
O contraste com o ensino público é difícil de ignorar. Entre 483 estabelecimentos públicos analisados, apenas três atingiram o mesmo limiar. A média das classificações internas finais foi de 15 valores no público e de 16,8 no privado. Nas disciplinas anuais — aquelas sem avaliação externa — a diferença aprofunda-se: 17,2 valores no público, acima de 18 no privado.
São precisamente as disciplinas anuais, sem escrutínio externo, que concentram as notas mais altas. No ensino privado, 14 disciplinas têm o 20 como classificação mais frequente; no público, são cinco. A disparidade é mais acentuada nos cursos de Ciências Socioeconómicas, com uma diferença de 1,7 valores nas médias internas entre os dois setores.
Os dados foram anonimizados: o relatório não identifica quais os 21 colégios nem as disciplinas específicas. Mas a questão que fica suspensa é de alcance público — as classificações internas determinam o acesso ao ensino superior e a atribuição de bolsas. Uma inflação sistemática, ainda que não provada em intenção, produz efeitos reais na equidade do sistema. A DGEEC anunciou que continuará a acompanhar o fenómeno.
Um relatório divulgado esta quinta-feira pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência revelou um padrão perturbador nas escolas privadas portuguesas: 38 estabelecimentos de ensino privado atribuíram notas de 19 ou 20 valores a mais de um terço dos seus alunos no ano letivo 2024/2025. Estes colégios representam 35% do total de escolas privadas com ensino secundário. Quando se olha apenas para os alunos destas 38 escolas, a proporção sobe ainda mais: 30% deles obtiveram 19 ou 20 valores em absolutamente todas as disciplinas que frequentaram naquele ano.
O que torna esta descoberta ainda mais preocupante é a sua persistência. A DGEEC analisou os últimos oito anos letivos para rastrear este fenómeno e identificou 21 escolas que, desde 2017/2018, aparecem sistematicamente neste indicador. Durante oito anos consecutivos, mais de 30% dos alunos destas mesmas escolas obtiveram 19 ou 20 valores em pelo menos uma disciplina. Não se trata de uma anomalia pontual ou de um ano excecional. É um padrão que se repete, ano após ano, na mesma instituições.
O contraste com o ensino público é marcante. Entre 483 estabelecimentos públicos analisados, apenas três conseguiram atingir o mesmo limiar de atribuir 19 ou 20 valores a pelo menos 30% dos alunos. Nas escolas públicas, a média das classificações internas finais foi de 15 valores. Nas disciplinas anuais, que não estão sujeitas a avaliação externa, essa média subiu para 17,2 valores. Já nas escolas privadas, a média global foi de 16,8 valores, ultrapassando os 18 valores nas disciplinas anuais.
Os dados anonimizados da DGEEC não identificam quais são os 21 colégios privados em questão, nem especificam a que disciplinas foram atribuídas estas classificações elevadas. Mas a análise revela que as disciplinas anuais — aquelas que não têm avaliação externa — são particularmente propensas a estas notas muito altas. No ensino público, identificaram-se cinco disciplinas com pelo menos 100 alunos inscritos em que a classificação mais frequente foi 20 valores, todas anuais. No ensino privado, esse número sobe para 14 disciplinas, das quais apenas uma, Geometria Descritiva A, não é anual.
Entre as escolas públicas que foram identificadas neste padrão, houve variações interessantes. Uma delas tinha 10% dos alunos com 19 ou 20 valores em todas as disciplinas em 2023/2024, subindo para 19% em 2024/2025. Outra tinha registado 23% dos alunos com estas notas máximas em 2019/2020, mas essa percentagem caiu para 16% no ano letivo mais recente. Estas flutuações sugerem que o fenómeno nas escolas públicas pode ser mais volátil ou contextual.
Os cursos de Ciências e Tecnologia continuam a apresentar os melhores desempenhos, seguidos pelos de Ciências Socioeconómicas, Línguas e Humanidades, e Artes Visuais. A disparidade entre escolas privadas e públicas é mais acentuada nos cursos de Ciências Socioeconómicas, onde a diferença nas médias das classificações internas finais atinge 1,7 valores, e menor em Línguas e Humanidades, com uma diferença de 0,8 valores.
Este relatório levanta questões fundamentais sobre a fiabilidade das classificações internas nas escolas privadas e o seu impacto na equidade do sistema educativo português. As classificações internas são utilizadas para acesso ao ensino superior e para bolsas de estudo, tornando esta inflação sistemática um assunto de relevância pública. A DGEEC continuará a acompanhar este fenómeno nos próximos anos letivos.
Citações Notáveis
A análise identifica 21 escolas que, desde 2017/2018, surgem sempre referenciadas neste indicador: mais de 30% dos alunos obtiveram 19 ou 20 valores a pelo menos uma disciplina.— Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência