Desde que as Nações Unidas começaram a registrar conflitos armados em 1946, nenhum ano acumulou tantas guerras simultâneas quanto 2023 — um marco que o instituto Prio atribui não apenas à invasão russa da Ucrânia e à guerra em Gaza, mas a uma transformação mais profunda na natureza da violência humana. O mundo não enfrenta apenas mais conflitos; enfrenta conflitos de geometria diferente, protagonizados por atores fragmentados que escapam às lógicas tradicionais de negociação e paz. É um momento que ecoa, em intensidade sistêmica, os anos mais tensos da Guerra Fria — desta vez sem a clareza omi
2023 registra mais conflitos armados globais desde 1946, aponta estudo
O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria
Por que 2023 foi tão diferente dos anos anteriores? Parece que houve dois grandes eventos — Ucrânia e Gaza — mas você sugere que há algo mais profundo acontecendo.
Exatamente. Ucrânia e Gaza foram os catalisadores visíveis, mas o problema real é estrutural. Estamos vendo uma multiplicação de atores armados dentro de um mesmo país. Não é mais um exército contra outro. É dezenas de grupos, muitos deles sem qualquer lealdade a um estado nacional.
E isso torna as coisas piores porque... é mais difícil negociar?
Muito mais difícil. Quando você tem um conflito entre dois países, há pelo menos dois lados claros. Agora, em um lugar como o Mali ou partes da Síria, você tem o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, milícias locais, grupos étnicos armados. Quem você negocia com? Quem tem autoridade para aceitar um acordo?
E as pessoas civis? Como elas vivem nessa situação?
Elas não vivem, realmente. Ficam presas. As organizações humanitárias não conseguem chegar porque têm que negociar com múltiplos grupos, muitos deles hostis. Então a ajuda não chega, as pessoas sofrem, e o mundo segue adiante.
Mas o estudo diz que as mortes em combate caíram em 2023. Isso não é bom?
É enganoso. Sim, caíram em um ano. Mas se você olha para os últimos três anos juntos, é o período mais letal em três décadas. A violência não desapareceu; apenas se moveu no tempo. E a tendência geral continua subindo.
Il Polso
- 2023 bateu um recorde de 77 anos: nunca tantos conflitos armados ocorreram ao mesmo tempo no planeta desde o início dos registros da ONU.
- A invasão russa da Ucrânia e a guerra em Gaza funcionaram como catalisadores visíveis, mas por baixo deles ferve uma proliferação silenciosa de grupos jihadistas e atores não estatais na Ásia, África e Oriente Médio.
- A multiplicação de facções armadas dentro de um mesmo país — algumas sem cadeia de comando clara — paralisa organizações humanitárias e ONGs, deixando populações civis isoladas e sem assistência.
- Embora as mortes em combate tenham recuado em 2023, o acumulado dos três anos anteriores representa o período mais letal em três décadas, revelando que a violência não diminuiu — apenas se redistribuiu no tempo.
Desde que as Nações Unidas começaram a registrar conflitos armados em 1946, nenhum ano acumulou tantas guerras simultâneas quanto 2023 — um marco que o instituto Prio atribui não apenas à invasão russa da Ucrânia e à guerra em Gaza, mas a uma transformação mais profunda na natureza da violência humana. O mundo não enfrenta apenas mais conflitos; enfrenta conflitos de geometria diferente, protagonizados por atores fragmentados que escapam às lógicas tradicionais de negociação e paz. É um momento que ecoa, em intensidade sistêmica, os anos mais tensos da Guerra Fria — desta vez sem a clareza ominosa de apenas dois polos.
Um estudo divulgado em 2024 pelo instituto de pesquisa Prio revelou que 2023 foi o ano com mais conflitos armados simultâneos desde que as Nações Unidas passaram a registrar esses dados, em 1946. O número não é apenas uma estatística: ele sinaliza uma mudança profunda na natureza da violência global, marcada cada vez menos por guerras entre nações e cada vez mais pela fragmentação dentro delas.
A pesquisadora Siri Aas Rustad, autora principal do estudo, identificou dois eventos imediatos como catalisadores do pico — a invasão russa da Ucrânia e a guerra entre Israel e o Hamas em Gaza. Mas alertou que o quadro é mais amplo: "O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria", afirmou, sugerindo uma tensão sistêmica que vai além de conflitos isolados.
O que torna 2023 especialmente complexo é a multiplicação de atores não estatais. Grupos como a Jama'at Nusrat al-Islam Wal-Muslimin — braço declarado da Al-Qaeda no Mali — e ramificações do Estado Islâmico espalhadas pela Ásia e África operam segundo lógicas que tornam negociações quase impossíveis. Dentro de um mesmo país, dezenas de facções competem por território sem estrutura de comando clara, o que paralisa o trabalho humanitário: entregar alimentos ou medicamentos exige negociar com múltiplos grupos, muitos deles hostis à presença internacional.
Um dado estatístico oferece alívio relativo: as mortes em combate caíram em 2023 em relação ao ano anterior. Mas quando se observa o triênio 2021–2023, o total acumulado de vidas perdidas é o mais alto em três décadas. A violência não recuou — apenas se distribuiu de forma diferente ao longo do tempo. O estudo do Prio não apresenta soluções, apenas um diagnóstico perturbador: o mundo está mais fragmentado e mais violento do que em qualquer momento desde o fim da Guerra Fria, sem sinais visíveis de reversão.
Um estudo divulgado em 2024 revelou que 2023 marcou um ponto de inflexão sombrio na história moderna: o ano registrou mais conflitos armados simultâneos em qualquer lugar do planeta desde que as Nações Unidas começaram a manter registros sistemáticos em 1946. A descoberta não é apenas um número em uma tabela. Ela reflete uma transformação profunda na natureza da violência global — menos guerras entre nações, mais fragmentação dentro delas.
O instituto de pesquisa Prio, responsável pela análise que cobriu sete décadas de dados, identificou dois catalisadores imediatos para este pico: a invasão russa da Ucrânia, que abriu uma ferida geopolítica no coração da Europa, e a guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, que reavivou um conflito que parecia congelado. Mas estes dois eventos, por mais significativos que sejam, não explicam sozinhos o quadro completo. Siri Aas Rustad, pesquisadora do Prio e autora principal do estudo, ofereceu uma perspectiva mais ampla: "O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria". A observação é perturbadora porque sugere que estamos vivendo em um momento de tensão sistêmica comparável apenas aos piores anos da bipolaridade nuclear.
O que torna 2023 particularmente complexo é a multiplicação de atores em conflito. Não se trata apenas de exércitos nacionais enfrentando-se em campos de batalha definidos. Dentro de um mesmo país, dezenas de grupos armados — alguns ligados a estados, muitos não — competem pelo controle territorial e político. A propagação do Estado Islâmico pela Ásia, África e Oriente Médio exemplifica esta fragmentação. Igualmente preocupante é a ascensão de grupos jihadistas descentralizados, como a Jama'at Nusrat al-Islam Wal-Muslimin, que se apresenta como o braço oficial da Al-Qaeda no Mali. Estes atores não estatais operam segundo lógicas diferentes das de um exército convencional, tornando negociações e resoluções de conflito exponencialmente mais difíceis.
Rustad apontou uma consequência que raramente aparece nos manchetes: esta complexidade crescente paralisa o trabalho humanitário. Quando um conflito envolve múltiplos grupos armados sem estrutura clara de comando, organizações humanitárias e ONGs enfrentam obstáculos imensos para chegar às populações civis que precisam de ajuda. A entrega de alimentos, medicamentos e assistência médica torna-se um exercício de negociação com dezenas de atores, muitos deles hostis à presença internacional. O resultado é que pessoas em zonas de conflito permanecem isoladas, suas vidas deteriorando-se enquanto o mundo observa.
Um detalhe estatístico oferece um alívio relativo, ainda que frágil: o número de mortes em combate efetivamente caiu em 2023 comparado ao ano anterior. Mas este dado isolado mascara uma realidade mais sombria. Quando se observa o período de três anos — 2021, 2022 e 2023 — o total acumulado de vidas perdidas em conflitos armados é o mais alto registrado em três décadas. Isto significa que mesmo com uma queda em um único ano, a tendência de longo prazo permanece ascendente. A violência não desapareceu; apenas se distribuiu de forma diferente ao longo do tempo.
O estudo do Prio não oferece soluções, apenas diagnóstico. Mas o diagnóstico é claro: o mundo está mais fragmentado, mais armado e mais violento do que em qualquer momento desde o fim da Guerra Fria. A questão que paira é se esta tendência continuará acelerando ou se encontrará algum ponto de saturação. Por enquanto, não há sinais de reversão.
Citazioni salienti
O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria— Siri Aas Rustad, pesquisadora do Prio
Os números sugerem que a situação de conflitos é muito mais complexa, com um número maior de atores beligerantes ativos dentro de um mesmo país— Siri Aas Rustad