2023 registra mais conflitos armados globais desde 1946, aponta estudo

Embora mortes em combate tenham caído em 2023, o total acumulado dos últimos três anos representa o período mais letal das últimas três décadas.
O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria
Pesquisadora do Prio resume o alcance histórico do pico de conflitos registrado em 2023.
Mark

Por que 2023 foi tão diferente dos anos anteriores? Parece que houve dois grandes eventos — Ucrânia e Gaza — mas você sugere que há algo mais profundo acontecendo.

Mimi

Exatamente. Ucrânia e Gaza foram os catalisadores visíveis, mas o problema real é estrutural. Estamos vendo uma multiplicação de atores armados dentro de um mesmo país. Não é mais um exército contra outro. É dezenas de grupos, muitos deles sem qualquer lealdade a um estado nacional.

Mark

E isso torna as coisas piores porque... é mais difícil negociar?

Mimi

Muito mais difícil. Quando você tem um conflito entre dois países, há pelo menos dois lados claros. Agora, em um lugar como o Mali ou partes da Síria, você tem o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, milícias locais, grupos étnicos armados. Quem você negocia com? Quem tem autoridade para aceitar um acordo?

Mark

E as pessoas civis? Como elas vivem nessa situação?

Mimi

Elas não vivem, realmente. Ficam presas. As organizações humanitárias não conseguem chegar porque têm que negociar com múltiplos grupos, muitos deles hostis. Então a ajuda não chega, as pessoas sofrem, e o mundo segue adiante.

Mark

Mas o estudo diz que as mortes em combate caíram em 2023. Isso não é bom?

Mimi

É enganoso. Sim, caíram em um ano. Mas se você olha para os últimos três anos juntos, é o período mais letal em três décadas. A violência não desapareceu; apenas se moveu no tempo. E a tendência geral continua subindo.

  • 2023 bateu um recorde de 77 anos: nunca tantos conflitos armados ocorreram ao mesmo tempo no planeta desde o início dos registros da ONU.
  • A invasão russa da Ucrânia e a guerra em Gaza funcionaram como catalisadores visíveis, mas por baixo deles ferve uma proliferação silenciosa de grupos jihadistas e atores não estatais na Ásia, África e Oriente Médio.
  • A multiplicação de facções armadas dentro de um mesmo país — algumas sem cadeia de comando clara — paralisa organizações humanitárias e ONGs, deixando populações civis isoladas e sem assistência.
  • Embora as mortes em combate tenham recuado em 2023, o acumulado dos três anos anteriores representa o período mais letal em três décadas, revelando que a violência não diminuiu — apenas se redistribuiu no tempo.

Desde que as Nações Unidas começaram a registrar conflitos armados em 1946, nenhum ano acumulou tantas guerras simultâneas quanto 2023 — um marco que o instituto Prio atribui não apenas à invasão russa da Ucrânia e à guerra em Gaza, mas a uma transformação mais profunda na natureza da violência humana. O mundo não enfrenta apenas mais conflitos; enfrenta conflitos de geometria diferente, protagonizados por atores fragmentados que escapam às lógicas tradicionais de negociação e paz. É um momento que ecoa, em intensidade sistêmica, os anos mais tensos da Guerra Fria — desta vez sem a clareza ominosa de apenas dois polos.

Um estudo divulgado em 2024 pelo instituto de pesquisa Prio revelou que 2023 foi o ano com mais conflitos armados simultâneos desde que as Nações Unidas passaram a registrar esses dados, em 1946. O número não é apenas uma estatística: ele sinaliza uma mudança profunda na natureza da violência global, marcada cada vez menos por guerras entre nações e cada vez mais pela fragmentação dentro delas.

A pesquisadora Siri Aas Rustad, autora principal do estudo, identificou dois eventos imediatos como catalisadores do pico — a invasão russa da Ucrânia e a guerra entre Israel e o Hamas em Gaza. Mas alertou que o quadro é mais amplo: "O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria", afirmou, sugerindo uma tensão sistêmica que vai além de conflitos isolados.

O que torna 2023 especialmente complexo é a multiplicação de atores não estatais. Grupos como a Jama'at Nusrat al-Islam Wal-Muslimin — braço declarado da Al-Qaeda no Mali — e ramificações do Estado Islâmico espalhadas pela Ásia e África operam segundo lógicas que tornam negociações quase impossíveis. Dentro de um mesmo país, dezenas de facções competem por território sem estrutura de comando clara, o que paralisa o trabalho humanitário: entregar alimentos ou medicamentos exige negociar com múltiplos grupos, muitos deles hostis à presença internacional.

Um dado estatístico oferece alívio relativo: as mortes em combate caíram em 2023 em relação ao ano anterior. Mas quando se observa o triênio 2021–2023, o total acumulado de vidas perdidas é o mais alto em três décadas. A violência não recuou — apenas se distribuiu de forma diferente ao longo do tempo. O estudo do Prio não apresenta soluções, apenas um diagnóstico perturbador: o mundo está mais fragmentado e mais violento do que em qualquer momento desde o fim da Guerra Fria, sem sinais visíveis de reversão.

Um estudo divulgado em 2024 revelou que 2023 marcou um ponto de inflexão sombrio na história moderna: o ano registrou mais conflitos armados simultâneos em qualquer lugar do planeta desde que as Nações Unidas começaram a manter registros sistemáticos em 1946. A descoberta não é apenas um número em uma tabela. Ela reflete uma transformação profunda na natureza da violência global — menos guerras entre nações, mais fragmentação dentro delas.

O instituto de pesquisa Prio, responsável pela análise que cobriu sete décadas de dados, identificou dois catalisadores imediatos para este pico: a invasão russa da Ucrânia, que abriu uma ferida geopolítica no coração da Europa, e a guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, que reavivou um conflito que parecia congelado. Mas estes dois eventos, por mais significativos que sejam, não explicam sozinhos o quadro completo. Siri Aas Rustad, pesquisadora do Prio e autora principal do estudo, ofereceu uma perspectiva mais ampla: "O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria". A observação é perturbadora porque sugere que estamos vivendo em um momento de tensão sistêmica comparável apenas aos piores anos da bipolaridade nuclear.

O que torna 2023 particularmente complexo é a multiplicação de atores em conflito. Não se trata apenas de exércitos nacionais enfrentando-se em campos de batalha definidos. Dentro de um mesmo país, dezenas de grupos armados — alguns ligados a estados, muitos não — competem pelo controle territorial e político. A propagação do Estado Islâmico pela Ásia, África e Oriente Médio exemplifica esta fragmentação. Igualmente preocupante é a ascensão de grupos jihadistas descentralizados, como a Jama'at Nusrat al-Islam Wal-Muslimin, que se apresenta como o braço oficial da Al-Qaeda no Mali. Estes atores não estatais operam segundo lógicas diferentes das de um exército convencional, tornando negociações e resoluções de conflito exponencialmente mais difíceis.

Rustad apontou uma consequência que raramente aparece nos manchetes: esta complexidade crescente paralisa o trabalho humanitário. Quando um conflito envolve múltiplos grupos armados sem estrutura clara de comando, organizações humanitárias e ONGs enfrentam obstáculos imensos para chegar às populações civis que precisam de ajuda. A entrega de alimentos, medicamentos e assistência médica torna-se um exercício de negociação com dezenas de atores, muitos deles hostis à presença internacional. O resultado é que pessoas em zonas de conflito permanecem isoladas, suas vidas deteriorando-se enquanto o mundo observa.

Um detalhe estatístico oferece um alívio relativo, ainda que frágil: o número de mortes em combate efetivamente caiu em 2023 comparado ao ano anterior. Mas este dado isolado mascara uma realidade mais sombria. Quando se observa o período de três anos — 2021, 2022 e 2023 — o total acumulado de vidas perdidas em conflitos armados é o mais alto registrado em três décadas. Isto significa que mesmo com uma queda em um único ano, a tendência de longo prazo permanece ascendente. A violência não desapareceu; apenas se distribuiu de forma diferente ao longo do tempo.

O estudo do Prio não oferece soluções, apenas diagnóstico. Mas o diagnóstico é claro: o mundo está mais fragmentado, mais armado e mais violento do que em qualquer momento desde o fim da Guerra Fria. A questão que paira é se esta tendência continuará acelerando ou se encontrará algum ponto de saturação. Por enquanto, não há sinais de reversão.

O nível de violência global não estava tão alto desde a Guerra Fria
— Siri Aas Rustad, pesquisadora do Prio
Os números sugerem que a situação de conflitos é muito mais complexa, com um número maior de atores beligerantes ativos dentro de um mesmo país
— Siri Aas Rustad
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