Aos sessenta anos e com quatro décadas e meia de estrada, Zélia Duncan lança 'Agudo Grave' — um álbum que é também uma autobiografia sonora. O que começou como vergonha de uma voz fora do padrão tornou-se a assinatura de uma das artistas mais singulares da música brasileira. Há na trajetória dela uma lição silenciosa sobre o tempo: que aquilo que nos constrange na juventude pode, com paciência e coragem, tornar-se exatamente o que nos define.
Zélia Duncan celebra 45 anos de carreira e ressignifica sua voz grave
Acredito cada vez mais no coletivo, virei essa sessentona que acredita demais nisso
Como uma cantora consegue transformar aquilo que a envergonhava em sua marca mais reconhecível?
Não é transformação mágica. É tempo, é estar no palco noite após noite, é ouvir as pessoas cantando aquela voz de volta para você. Em algum momento, você percebe que aquilo que você pensava ser errado é exatamente o que as pessoas querem ouvir. E mais importante: é o que você é.
O álbum "Agudo Grave" parece ser mais do que um disco de aniversário.
É uma conversa consigo mesma sobre tudo que aprendeu. O grave é o que te segura quando você quer desistir. O agudo é o que te faz sonhar mesmo quando você já deveria estar descansando. Aos sessenta anos, você entende que precisa dos dois.
Por que a corrida? Por que uma cantora que já tem tudo precisa correr maratonas?
Porque o corpo precisa de verdade. A música é metáfora, é sentimento, é abstração. Correr é concreto. Você sente o cansaço, sente o chão, sente que está viva. Acho que uma alimenta a outra.
Drauzio Varella lhe deu um conselho antes daquela primeira maratona em Chicago. Isso mudou algo?
Mudou tudo. "Os primeiros trinta quilômetros faz o que você treinou. Depois usa a cabeça." Isso não é sobre corrida. É sobre como você vive. Você prepara, você treina, você faz o trabalho. Mas depois, quando as coisas ficam difíceis, você precisa de inteligência, de estratégia, de sabedoria.
Você diz que acredita demais no coletivo. Isso é raro em artistas que já conquistaram tanto.
Talvez seja porque levou tempo para entender que ninguém faz nada sozinho. Cada parceria, cada colaboração, cada pessoa que você deixa entrar no seu processo criativo — isso te torna maior, não menor. Aos sessenta, eu finalmente acreditei nisso de verdade.
The Pulse
- Uma menina que se envergonhava do próprio timbre grave cresceu e transformou esse 'defeito' na marca mais reconhecível de sua voz.
- Aos sessenta anos, Zélia Duncan lança um álbum-metáfora em que 'agudo' e 'grave' representam os dois eixos da existência humana — o sonho e o chão.
- Além da música, a corrida de maratona — iniciada por incentivo do médico Drauzio Varella em Chicago, em 2010 — revela uma artista que busca conexão com o corpo e com o presente.
- O conselho recebido antes de sua primeira maratona — 'nos primeiros trinta quilômetros, faça o que treinou; depois, use a cabeça' — tornou-se uma filosofia de vida.
- Ao completar 45 anos de carreira, Duncan reafirma sua crença no trabalho coletivo e nas parcerias criativas como alicerce de tudo que construiu.
Aos sessenta anos e com quatro décadas e meia de estrada, Zélia Duncan lança 'Agudo Grave' — um álbum que é também uma autobiografia sonora. O que começou como vergonha de uma voz fora do padrão tornou-se a assinatura de uma das artistas mais singulares da música brasileira. Há na trajetória dela uma lição silenciosa sobre o tempo: que aquilo que nos constrange na juventude pode, com paciência e coragem, tornar-se exatamente o que nos define.
Zélia Duncan chega aos 45 anos de carreira com um álbum que é muito mais do que uma celebração: 'Agudo Grave' é o mapa sonoro de uma jornada pessoal. Em conversa com o Fantástico, a cantora revisitou a história de uma menina que carregava o próprio timbre como um fardo — aquela voz grave que não cabia no que se esperava de uma mulher cantando. Com o tempo, o constrangimento foi se dissolvendo. A característica que a envergonhava ressignificou-se, tornou-se identidade, tornou-se força.
O título do disco não é apenas musical. Para Zélia, o grave é o chão, a sustentação, o que nos mantém firmes. O agudo são os sonhos e os sentimentos que nos elevam. Quando perguntada sobre o amor, ela respondeu com precisão quase poética: é agudo no começo, fica grave depois. Há nessa frase simples uma compreensão madura de que as coisas que importam têm camadas e se transformam.
Fora dos palcos, outra paixão a move com igual intensidade: a corrida. Foi Drauzio Varella quem a convenceu a disputar sua primeira maratona, em Chicago, em 2010. O conselho que ele lhe deu antes da largada — nos primeiros trinta quilômetros, siga o treino e conheça a cidade; depois, use a cabeça — ela carrega para muito além das pistas. A amizade com o médico tornou-se parte de quem ela é, e exemplifica o que Duncan mais valoriza hoje: as parcerias. Aos sessenta anos, ela se descreve como alguém que acredita profundamente no coletivo — não por necessidade, mas por escolha consciente.
O que emerge desse retrato é o de uma artista que não apenas sobreviveu às próprias inseguranças, mas as converteu em combustível. A voz que a envergonhava é agora o que a torna inconfundível. E aos 45 anos de carreira, Zélia Duncan não celebra um passado — ela habita um presente que finalmente faz sentido com quem sempre foi.
Zélia Duncan marca quatro décadas e meia de carreira com um álbum que carrega o nome de uma longa jornada pessoal: "Agudo Grave". O disco chega em um momento em que a cantora, aos sessenta anos, olha para trás não com nostalgia, mas com uma clareza que só o tempo oferece. Em conversa com o Fantástico, ela desfiou a própria história — aquela que começou com uma menina envergonhada de sua própria voz.
Na adolescência, o timbre grave que hoje é sua assinatura era fonte de constrangimento. Ela carregava aquele som como um peso, algo que não se encaixava no que se esperava ouvir de uma mulher cantando. Mas em algum momento do caminho — longo, feito de palcos, de público, de ensaios — aquela característica que a envergonhava se transformou. Não desapareceu. Ressignificou-se. Tornou-se marca, identidade, força. O que era defeito virou distinção.
O novo trabalho não é apenas um álbum de aniversário. É uma metáfora em forma de som. Zélia explica que "agudo" e "grave" transcendem a música. O grave é o chão, a sustentação, aquilo que nos mantém firmes. O agudo são os sonhos, os sentimentos, tudo aquilo que nos eleva. Quando perguntada sobre o amor, ela resumiu com precisão: é agudo no começo, fica grave depois. Há sabedoria nessa frase simples — a compreensão de que as coisas que importam têm camadas, movimento, transformação.
Mas Zélia Duncan não é apenas cantora. Há uma outra paixão que a move com igual intensidade: a corrida. Aos sessenta anos, ela organizou uma prova beneficente em São Paulo, seguida de um show com convidadas. A história de como começou a correr maratonas é tão reveladora quanto qualquer canção. Foi Drauzio Varella quem a convenceu a disputar sua primeira prova de quarenta e dois quilômetros, em Chicago, em 2010. Antes daquela maratona, ele lhe deu um conselho que ela carrega para além das pistas: nos primeiros trinta quilômetros, faça o que treinou, conheça a cidade. Depois, use a cabeça. É um ensinamento que vale para a vida inteira.
A amizade entre os dois extrapolou as ruas e as trilhas. Virou parte de quem Zélia é. E essa capacidade de construir laços, de valorizar quem está ao lado, é o que ela enfatiza quando fala sobre sua carreira. Parcerias não são conveniência — pressupõem confiança. Dividir processos criativos, aprender com outras pessoas, isso é algo que ela valoriza cada vez mais. Aos sessenta, ela se descreve como alguém que "acredita demais no coletivo". Não é uma fraqueza. É uma escolha consciente, uma filosofia que moldou quatro décadas e meia de trabalho.
O que emerge dessa conversa é o retrato de uma artista que não apenas sobreviveu a suas próprias inseguranças, mas as transformou em combustível. A voz que a envergonhava é agora aquilo que a torna inconfundível. Os quilômetros que corre a mantêm conectada ao corpo, à terra, ao presente. E as parcerias que cultiva — com músicos, com amigos, com o público — são o tecido que sustenta tudo. Aos quarenta e cinco anos de carreira, Zélia Duncan não está celebrando um passado. Está vivendo um presente que finalmente faz sentido com quem ela sempre foi.
Notable Quotes
É agudo e fica grave— Zélia Duncan, sobre o amor
Os primeiros 30 quilômetros faz o que você treinou, vai conhecendo a cidade. Depois usa a cabeça— Conselho de Drauzio Varella antes da maratona de Chicago