XP identifica 5 ações agrícolas vulneráveis ao El Niño intenso em 2026/27

El Niño é assimetricamente positivo para a 3Tentos
Enquanto outras produtoras de grãos enfrentam riscos climáticos, a 3Tentos se beneficia do aumento de chuvas no Rio Grande do Sul.

Quando a natureza anuncia um desequilíbrio climático, os mercados financeiros precisam traduzir incerteza em números. A XP Investimentos identificou cinco empresas agrícolas listadas na Bolsa brasileira — SLC, BrasilAgro, 3Tentos, São Martinho e Jalles — que carregarão os efeitos de um El Niño intenso previsto para 2026 e 2027, fenômeno que não distribui seus impactos de forma igualitária entre culturas e regiões. Enquanto a maioria enfrenta riscos de produtividade e pressão sobre preços, a 3Tentos emerge como rara exceção: o mesmo fenômeno que ameaça o Centro-Oeste pode devolver as chuvas ao Rio Grande do Sul, onde a empresa concentra mais da metade de seu faturamento.

  • Meteorologistas internacionais confirmaram a chegada de um El Niño intenso, e o mercado agrícola brasileiro já sente o peso da antecipação.
  • Culturas como cana-de-açúcar e milho da segunda safra estão entre as mais vulneráveis, enquanto regiões como MATOPIBA e o Sul do país enfrentam riscos opostos e simultâneos.
  • Jalles e São Martinho adotaram estratégias contrastantes de proteção comercial, mas a XP ainda vê pressão sobre os fundamentos de preço para ambas no curto prazo.
  • SLC e BrasilAgro concentram mais de 50% de suas áreas produtivas nas regiões mais expostas à seca, e suas coberturas de irrigação e travas financeiras ainda deixam margens consideráveis de risco descoberto.
  • A 3Tentos navega na contramão: o aumento histórico de chuvas no Sul durante El Niño pode impulsionar simultaneamente seu processamento de soja, originação no trading e vendas de insumos agrícolas.

Os meteorologistas internacionais confirmaram o que o mercado já temia: um El Niño intenso se aproxima para o ciclo 2026/27. Em resposta, a XP Investimentos publicou um relatório apontando cinco empresas agrícolas listadas na Bolsa — SLC, BrasilAgro, 3Tentos, São Martinho e Jalles — como as mais expostas ao fenômeno climático.

Os analistas usaram os períodos de 2015/16 e 2023/24 como referências históricas de estresse, deixando claro que as comparações consideram capacidade produtiva teórica, não perdas reais. O impacto não é uniforme: o complexo sucroenergético e o milho da segunda safra aparecem como os mais vulneráveis, enquanto a soja apresenta comportamento historicamente mais estável em nível nacional. O trigo no Sul enfrenta riscos de chuvas fora do padrão e geadas.

As usinas Jalles e São Martinho reagiram de formas opostas. A Jalles travou praticamente toda a produção projetada a cerca de R$ 2.400 por tonelada. A São Martinho manteve maior exposição ao mercado, com travas em apenas 40% do volume esperado a US$ 16,1 centavos por libra-peso. Mesmo assim, a XP vê cenário desafiador para ambas no curto prazo.

Para SLC e BrasilAgro, o risco está concentrado geograficamente: mais de 52% das fazendas de cada uma ficam nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste superior, justamente as mais ameaçadas por estiagens prolongadas. A irrigação existe, mas cobre menos de 9% das áreas. A SLC travou 18,4% de sua colheita de soja; a BrasilAgro segue sem proteções financeiras para o ciclo.

A exceção notável é a 3Tentos. O Rio Grande do Sul, que concentra 52% do faturamento da empresa na divisão de comercialização, sofreu com secas crônicas nos anos recentes. Como o El Niño historicamente reverte esse padrão e aumenta as chuvas no Sul, a XP enxerga uma relação de risco e retorno muito favorável para a companhia. A volta das chuvas regulares deve impulsionar simultaneamente o esmagamento de soja, a originação no trading e as vendas de insumos agrícolas — um efeito multiplicador que posiciona a 3Tentos como a única potencial beneficiária do fenômeno entre as cinco empresas analisadas.

Os meteorologistas internacionais confirmaram o que o mercado financeiro já temia: um El Niño intenso se aproxima. A XP Investimentos, uma das principais casas de análise do país, colocou cinco empresas agrícolas na mira. SLC, BrasilAgro, 3Tentos, São Martinho e Jalles — todas listadas na Bolsa brasileira — podem enfrentar turbulências significativas no ciclo de 2026 e 2027, quando o aquecimento anômalo das águas do Pacífico deve impactar a produção de grãos, açúcar e outros produtos do campo.

O relatório, divulgado na segunda-feira 15 de junho, foi assinado pelos analistas Leonardo Alencar, Pedro Fonseca e Leonardo Paiva. Eles não tentaram adivinhar o futuro. Em vez disso, usaram o passado como bússola. O período de 2015 e 2016, quando um El Niño extremamente forte castigou as lavouras globais, serviu como cenário de estresse máximo. Os anos de 2023 e 2024 ofereceram um parâmetro intermediário. A XP deixou claro que essas comparações levam em conta a capacidade produtiva teórica de cada época, não as perdas reais — uma distinção importante, porque mudanças na área plantada podem distorcer completamente a análise.

O impacto, porém, não é uniforme. O complexo sucroenergético — cana-de-açúcar transformada em açúcar e etanol — aparece entre as culturas mais vulneráveis. O clima atípico ameaça reduzir o rendimento dos canaviais brasileiros e pode encolher as exportações de grandes produtores como Tailândia e Índia, o que historicamente valoriza o açúcar produzido aqui. O milho, especialmente a segunda safra, também preocupa: seu ciclo depende fortemente da umidade do solo, e atrasos no plantio podem criar gargalos. A soja, por sua vez, mostra um comportamento historicamente mais estável diante do fenômeno em nível nacional, embora a região do MATOPIBA — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — seja mais frágil. O Sul, paradoxalmente, pode se beneficiar. O trigo enfrenta riscos na Região Sul, onde chuvas fora do padrão e geadas podem causar perdas. Algodão, arroz e feijão apresentam respostas estatísticas fracas e inconsistentes.

As duas principais usinas de capital aberto do país — Jalles Machado e São Martinho — adotaram estratégias opostas para proteger suas receitas. A Jalles implementou uma comercialização defensiva mais ágil após expandir sua capacidade de produção de açúcar. Garantiu a venda de praticamente todo o volume projetado para a safra a um preço médio fixado perto de R$ 2.400 por tonelada. A São Martinho optou por manter uma fatia maior de seus estoques exposta às flutuações diárias. Tem travas para cerca de 40% do volume esperado, com preço médio em US$ 16,1 centavos de dólar por libra-peso, equivalente a R$ 2.101 por tonelada. Mesmo com essas proteções, a XP enxerga um cenário desafiador no curto prazo para ambas, com fundamentos apontando para pressão sobre os preços.

Para os grupos focados em grãos, o principal obstáculo agronômico está nas estiagens prolongadas e temperaturas elevadas nas regiões Norte, Nordeste e na porção superior do Centro-Oeste. Essa geografia concentra 52,6% das fazendas da SLC Agrícola e 54,6% da área explorada pela BrasilAgro. A irrigação surge como ferramenta de defesa. A SLC planeja alcançar 62 mil hectares irrigados — 7,5% de sua área cultivável — impulsionada por investimentos em expansão. A BrasilAgro mantém 13,8 mil hectares cobertos por sistemas artificiais de água, o equivalente a 8,9% de seu portfólio. Apesar desses mecanismos, a XP vê uma relação de risco e retorno desfavorável para ambas as ações, com desvantagens numéricas especialmente pronunciadas para a SLC. A SLC realizou travas para 18,4% de sua colheita de soja a US$ 11,82 por bushel, correspondendo a R$ 134,6 por saca. A BrasilAgro segue sem proteções financeiras para o ciclo.

Mas há uma exceção notável. A 3Tentos segue no sentido inverso das produtoras de grãos tradicionais. O Rio Grande do Sul, responsável por aproximadamente 7% do volume de grãos in natura do país, sofreu com estiagens crônicas nos anos anteriores. Como o El Niño históricamente reverte a seca e aumenta o volume de chuvas no Sul, a XP identifica um cenário muito favorável de risco e retorno para o negócio. A receita da empresa possui forte ligação com as fazendas gaúchas. No acumulado de 2025, o estado gerou 52% do faturamento da divisão de comercialização, perto de 60% do processamento de soja e cerca de 65% da comercialização de insumos agrícolas. A volta do regime regular de chuvas deve desencadear ganhos simultâneos em toda a operação. A alta na umidade do solo pode gerar uma melhora abrangente no desempenho operacional, impulsionada por lavouras mais cheias que expandem os resultados do esmagamento, originação facilitada no segmento de trading e um salto na produtividade local, o que estimula os produtores a comprarem mais tecnologia e eleva a rentabilidade do portfólio de insumos.

Um possível cenário de El Niño muito forte teria implicações relevantes para praticamente todas as companhias sob nossa cobertura, dada sua capacidade de impactar a produção agrícola global
— Relatório da XP Investimentos
Seguimos vendo um cenário desafiador no curto prazo para ambas as companhias, com fundamentos ainda apontando para pressão sobre os preços de açúcar e etanol
— Relatório da XP Investimentos
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o mercado começou a precificar esses riscos agora, se o El Niño só vai se intensificar em 2026?

Model

Porque os investidores não esperam pela chuva cair. Eles veem a confirmação dos órgãos meteorológicos internacionais e começam a ajustar suas posições imediatamente. É uma corrida para não ser o último a sair.

Inventor

A XP comparou com 2015/2016 e 2023/2024. Por que esses dois períodos especificamente?

Model

Um foi extremo demais, o outro foi intermediário. Assim conseguem desenhar um intervalo de possibilidades. Mas deixam claro que estão olhando para a capacidade produtiva teórica, não para as perdas reais — porque as fazendas podem plantar menos em resposta ao risco.

Inventor

Então a soja é praticamente imune ao El Niño?

Model

Não é imunidade. É que historicamente ela se comporta de forma mais estável em nível nacional. Mas o MATOPIBA sofre. O Sul pode até ganhar. É regional, não é uma resposta uniforme.

Inventor

A Jalles e a São Martinho fizeram escolhas muito diferentes. Qual delas acertou?

Model

A Jalles foi mais defensiva — vendeu praticamente tudo a um preço fixo. A São Martinho deixou 60% do volume exposto às flutuações. A XP acha que a Jalles acertou mais, considerando os patamares atuais do mercado. Mas ambas enfrentam pressão no curto prazo.

Inventor

E a 3Tentos? Por que ela é diferente?

Model

Porque o El Niño historicamente tira a seca do Rio Grande do Sul. E 52% do faturamento da 3Tentos vem de lá. Para ela, o fenômeno é assimetricamente positivo — ganha em toda a operação simultaneamente.

Inventor

Qual é o risco real aqui? As empresas não conseguem se proteger?

Model

Conseguem parcialmente. A SLC tem planos de irrigação, a BrasilAgro também. Mas não cobrem tudo. E mesmo com proteção comercial — como as travas de preço — o volume menor de produção é o problema real. Menos safra significa menos receita, independentemente do preço.

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