Quando dois impérios se sentam à mesma mesa, o silêncio entre eles carrega o peso do mundo. Xi Jinping chegou a Washington para três dias de conversas com Donald Trump que tocam nos nervos mais expostos da ordem global: quem controlará a inteligência artificial e qual será o destino de Taiwan. É um encontro que não resolve, mas que revela — e o que for revelado nos próximos dias poderá redesenhar as linhas que separam cooperação de confronto entre as duas maiores potências do século.
Xi Jinping chega a Washington para encontro com Trump
Quem vencer na IA, vence — e nenhum lado quer perder
Por que essa visita de Xi é tão importante agora? Parece que há muita tensão.
Porque os dois países estão em uma corrida aberta por inteligência artificial e ninguém quer perder. Ao mesmo time, a questão de Taiwan está cada vez mais tensa, com a China intensificando atividades militares.
Mas espera — o memorando de Reagan de 1982 condiciona a redução de armas ao compromisso pacífico da China. A China está fazendo exercícios militares quase diariamente. Isso não invalida o argumento chinês?
Exatamente. É por isso que Trump tem espaço para manobra. Ele pode dizer que a China não está cumprindo sua parte do acordo.
E quanto à IA? Eles conseguem cooperar nessa área?
Há um pequeno passo — propuseram um mecanismo de notificação para incidentes. Mas a realidade é que ambos estão restringindo tecnologia um do outro e acusando-se de roubo intelectual.
Sobre esse mecanismo de notificação — é vinculante? Tem dentes?
A reportagem não especifica. Bessent apenas disse que é "importante" passar da opacidade para transparência.
Então é mais um gesto simbólico?
Pode ser. Ou pode ser o começo de algo. Mas sim, parece mais um pequeno passo em um mar de desconfiança.
E Trump já decidiu sobre o novo pacote de armas para Taiwan?
Não. Um funcionário disse que ele tomará uma decisão em um prazo "relativamente curto". Mas Trump aprovou mais armas para Taiwan no primeiro ano do segundo mandato do que Biden aprovou em quatro anos.
Então ele pode estar sinalizando que vai aprovar mais?
É uma possibilidade. Mas também pode ser apenas contexto histórico. Ninguém sabe o que Trump vai fazer até ele anunciar.
Der Puls
- A corrida pela inteligência artificial tornou-se o novo campo de batalha existencial: nenhum dos dois lados está disposto a ceder terreno, e ambos enxergam a derrota tecnológica como uma ameaça à própria sobrevivência política.
- Washington restringe exportações de chips avançados e acusa a China de extrair capacidades de modelos americanos em escala industrial, enquanto Pequim responde que a prática é universal e denuncia o que chama de tentativa de monopolização.
- Taiwan paira sobre a reunião como uma sombra: Xi deve pressionar Trump a suspender vendas de armas à ilha, invocando um comunicado de 1982, enquanto os EUA estão legalmente obrigados a garantir os meios de defesa de Taipei.
- Um pequeno sinal de distensão emerge: o Secretário do Tesouro Scott Bessent propôs um mecanismo de notificação para incidentes de IA que possam afetar a segurança nacional, sugerindo que alguma transparência ainda é possível entre as potências.
- A visita encerra na sexta-feira com cerimônia do chá e ida ao Arquivo Nacional — gestos de protocolo que emolduram conversas cujas consequências podem durar décadas.
Quando dois impérios se sentam à mesma mesa, o silêncio entre eles carrega o peso do mundo. Xi Jinping chegou a Washington para três dias de conversas com Donald Trump que tocam nos nervos mais expostos da ordem global: quem controlará a inteligência artificial e qual será o destino de Taiwan. É um encontro que não resolve, mas que revela — e o que for revelado nos próximos dias poderá redesenhar as linhas que separam cooperação de confronto entre as duas maiores potências do século.
Xi Jinping pousou em Washington na quarta-feira à noite para um encontro de três dias com Donald Trump que promete ser tenso em pelo menos dois fronts críticos. O trabalho de verdade começa na quinta-feira, quando os dois líderes se sentam na Casa Branca para conversas que ambos os lados sabem serão difíceis. A visita encerra na sexta com uma cerimônia do chá oferecida por Melania Trump e uma ida ao Arquivo Nacional.
A inteligência artificial domina o cenário de forma que poucos esperavam. Trump tem repetido que "quem vencer na IA, vence" e afirma que os EUA estão à frente e não permitirão que nada sufoque o crescimento da tecnologia. Do lado chinês, o chefe do Ministério da Segurança do Estado publicou um raro artigo alertando que a IA representa ameaça direta ao domínio do Partido Comunista se forças estrangeiras obtiverem capacidades superiores. A corrida é aberta e nenhum dos dois lados está disposto a piscar.
O conflito é concreto: os EUA restringem exportações dos chips mais potentes para a China e acusam desenvolvedores chineses de extrair capacidades de modelos americanos em escala industrial. Pequim responde que a prática é amplamente usada, inclusive por empresas americanas. Apesar da tensão, há um pequeno movimento em direção à cooperação — o Secretário do Tesouro Scott Bessent propôs um "mecanismo de notificação" para incidentes de IA que possam afetar a segurança nacional, defendendo maior transparência entre as duas maiores potências tecnológicas do mundo.
Taiwan está ali também, e é talvez ainda mais explosiva. Xi deve pressionar Trump para suspender as vendas de armas à ilha, invocando uma declaração conjunta de 1982. O que a China frequentemente omite é um memorando anexo no qual Ronald Reagan condicionou essa redução ao compromisso chinês com uma solução pacífica — compromisso que Pequim tem ignorado ao intensificar drasticamente suas atividades militares em torno de Taiwan nos últimos cinco anos.
Trump, porém, não é presidente que se intimida facilmente. No seu segundo mandato, já aprovou mais vendas de armas a Taiwan no primeiro ano do que Biden aprovou em quatro. O que acontece nos próximos dias em Washington pode redefinir a dinâmica entre as duas maiores potências do mundo — e determinar o futuro de uma ilha que ambas reivindicam.
Xi Jinping pousou em Washington na quarta-feira à noite, marcando o início de um encontro de três dias com Donald Trump que promete ser tenso em pelo menos dois fronts críticos. O presidente chinês será recebido na Base Aérea Conjunta Andrews, mas o verdadeiro trabalho começa na quinta-feira, quando os dois líderes se sentarão na Casa Branca para conversas que ambos os lados sabem serão difíceis. A visita encerra na sexta com uma cerimônia do chá oferecida por Melania Trump e uma ida ao Arquivo Nacional antes de Xi e sua esposa retornarem a Pequim.
A inteligência artificial domina o cenário dessa negociação de forma que poucos esperavam há alguns anos. Os Estados Unidos e a China estão em uma corrida aberta pelo domínio tecnológico, e nenhum dos dois lados está disposto a piscar. Trump tem repetido publicamente que "quem vencer na IA, vence", e na segunda-feira afirmou nas redes sociais que os EUA estão à frente e que ele não permitiria que nada sufocasse o crescimento de uma tecnologia que considera maior que a Revolução Industrial ou a própria internet. Do lado chinês, Chen Yixin, chefe do Ministério da Segurança do Estado, publicou um raro artigo alertando que a IA representa uma ameaça direta ao domínio do Partido Comunista se forças estrangeiras conseguirem capacidades superiores. A China não pode se dar ao luxo de perder essa corrida.
O conflito é real e concreto. Os EUA já restringem as exportações dos chips de IA mais potentes para a China e acusam desenvolvedores chineses de acessar modelos americanos em escala industrial para extrair suas capacidades — uma prática conhecida como destilação. Pequim responde que essa técnica é amplamente usada, inclusive por empresas americanas, e critica Washington por tentar monopolizar o setor. A China também está insatisfeita com os esforços dos EUA de formar alianças que a excluam, então busca estabelecer novas diretrizes globais de segurança para a IA, apelando para nações em desenvolvimento. Apesar dessa tensão, há um pequeno movimento em direção à cooperação. O Secretário do Tesouro Scott Bessent reuniu-se com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng em Nova York no domingo e propôs um novo "mecanismo de notificação" para incidentes de IA que possam afetar a segurança nacional. Bessent afirmou que passar da opacidade para maior transparência entre as duas maiores potências de IA do mundo é importante.
Mas a IA não é a única questão que pesa sobre essa reunião. Taiwan está ali também, e é talvez ainda mais explosiva. Xi deve pressionar Trump para suspender as vendas de armas a Taiwan, invocando uma declaração conjunta de 1982 entre os dois países. A China descreve Taiwan como sua questão diplomática mais delicada e tem repetidamente exigido que as vendas cessem. Os EUA, porém, estão obrigados por lei a fornecer a Taiwan — governada democraticamente — os meios para se defender, apesar de não terem relações diplomáticas formais com a ilha. Taiwan rejeita as reivindicações de soberania de Pequim e sustenta que é Taipei que tem o direito de reivindicar a China continental.
Três fontes familiarizadas com as discussões antes da chegada de Xi disseram à Reuters que a China provavelmente invocará sua interpretação do terceiro comunicado conjunto de 1982, no qual os EUA afirmaram que pretendiam reduzir gradualmente as vendas de armas a Taiwan. O que a China frequentemente omite é um memorando anexo no qual o então presidente Ronald Reagan condicionou essa redução ao "compromisso contínuo da China com a solução pacífica" das divergências com Taiwan. Nos últimos cinco anos, a China intensificou drasticamente suas atividades militares em torno de Taiwan, realizando exercícios com testes reais de mísseis e operando quase que diariamente nas proximidades da ilha. O Diário do Povo, jornal oficial chinês, afirmou na terça-feira que uma má condução da questão de Taiwan poderia levar as relações EUA-China "a uma situação muito perigosa".
Trump, porém, não é um presidente que se intimida facilmente com ameaças diplomáticas veladas. Um funcionário da Casa Branca disse que ele afirmou que tomará uma decisão sobre um novo pacote de vendas de armas a Taiwan em um prazo relativamente curto. No seu primeiro mandato, Trump aprovou mais vendas de armas para Taiwan do que qualquer outro presidente na história. No segundo mandato, aprovou mais no primeiro ano do que nos quatro anos inteiros do ex-presidente Joe Biden. Taiwan, por sua vez, afirmou que continua acompanhando de perto os desdobramentos nas trocas de alto nível entre os EUA e a China, mantendo uma "comunicação robusta" com Washington. O que acontece nos próximos dias em Washington pode redefinir a dinâmica entre as duas maiores potências do mundo — e determinar o futuro de uma ilha que ambas reivindicam.
Bemerkenswerte Zitate
Quem vencer na IA, vence— Donald Trump
A IA representa uma ameaça direta ao domínio do Partido Comunista caso forças estrangeiras alcancem capacidades superiores— Chen Yixin, chefe do Ministério da Segurança do Estado da China
Se a questão de Taiwan fosse mal conduzida, isso poderia levar as relações entre China e EUA a uma situação muito perigosa— Diário do Povo, jornal oficial chinês