Há figuras políticas que caem com estrondo e, mesmo assim, retornam — carregando tanto as cicatrizes quanto as ambições intactas. Wilson Witzel, ex-governador do Rio de Janeiro afastado por impeachment em 2021 após investigações de desvio de verbas na saúde durante a pandemia, anuncia sua candidatura ao Palácio Guanabara pelo Democrata, buscando se reposicionar à sombra do governador interino Ricardo Couto e de sua gestão austera. O retorno levanta uma questão que transcende o indivíduo: até que ponto uma sociedade permite que seus atores políticos reescrevam suas próprias narrativas?
Witzel tenta retorno ao Palácio Guanabara aproveitando onda de sucesso do governador interino
Sou uma vítima do sistema perverso que existe no Rio de Janeiro
Por que Witzel acredita que pode vencer desta vez, depois de tudo que aconteceu?
Ele está apostando que o contexto mudou. Ricardo Couto está tendo sucesso com austeridade, e Witzel quer se associar a isso. Mas há algo mais: ele vê a queda como injusta, como resultado de conspiração política, não de má gestão.
E quanto aos processos penais? Ele ainda responde a quatro ações.
Sim, mas estão parados no STJ por questões procedimentais. Witzel argumenta que não há provas reais, que tudo vem de um secretário que fez acordo de delação. É uma narrativa de perseguição, não de culpa.
Seus aliados de antes também caíram. Isso não o prejudica?
Na verdade, ele vê como validação. Se Bacellar foi preso, se Lucinha é ré por milícia, se Castro está sob investigação, então talvez Witzel tenha razão sobre o sistema estar podre. Ele não caiu sozinho; o sistema caiu com ele.
Como ele pretende governar diferente do vice desta vez?
Quer criar uma blindagem institucional. Deputados não podem conversar com o vice sem serem excluídos da base. É uma tentativa de evitar o que chama de "governo paralelo", que foi sua perdição antes.
E a questão do tempo de TV? Como um partido sem representação na Câmara consegue visibilidade?
Witzel aposta na relevância pessoal. Diz que é um personagem importante na história política do estado, que as emissoras podem decidir incluí-lo nos debates por isso. É uma aposta arriscada.
The Pulse
- Witzel carrega quatro ações penais ativas no STJ por desvio de verbas públicas durante a pandemia, mas afirma estar legalmente livre para concorrer após o prazo de inelegibilidade expirar.
- Sua estratégia de campanha depende de associar sua imagem ao sucesso do governador interino Ricardo Couto — uma aposta arriscada em um eleitorado que o viu ser derrubado.
- O partido pelo qual concorre, o Democrata, não tem representação na Câmara, o que pode excluí-lo de debates e tempo de TV, ameaçando sua visibilidade antes mesmo do início da campanha.
- Vários dos personagens que Witzel responsabiliza por sua queda — incluindo o ex-presidente da Assembleia e seu ex-vice Cláudio Castro — acumularam seus próprios problemas com a Justiça, o que ele usa como argumento de reabilitação.
- Se eleito, promete blindar o governo contra a influência de deputados estaduais e impedir a formação de um 'governo paralelo', a lição que diz ter aprendido com o próprio impeachment.
Há figuras políticas que caem com estrondo e, mesmo assim, retornam — carregando tanto as cicatrizes quanto as ambições intactas. Wilson Witzel, ex-governador do Rio de Janeiro afastado por impeachment em 2021 após investigações de desvio de verbas na saúde durante a pandemia, anuncia sua candidatura ao Palácio Guanabara pelo Democrata, buscando se reposicionar à sombra do governador interino Ricardo Couto e de sua gestão austera. O retorno levanta uma questão que transcende o indivíduo: até que ponto uma sociedade permite que seus atores políticos reescrevam suas próprias narrativas?
Oito anos após sua vitória surpreendente, Wilson Witzel anuncia seu retorno à disputa pelo governo do Rio de Janeiro, desta vez pelo Democrata — partido até recentemente chamado de PMB. A estratégia central é clara: aproximar-se da popularidade do governador interino Ricardo Couto, desembargador mantido no cargo por ordem do STF, e apresentar sua própria trajetória como alinhada à gestão de austeridade e legalidade que Couto representa. Witzel aponta coincidências simbólicas — ambos vieram da magistratura, ambos enfrentaram resistência da Assembleia Legislativa, e o mesmo secretário de Fazenda de sua gestão ocupa o cargo hoje.
A sombra do impeachment, porém, não desaparece facilmente. Em 2020, a Polícia Federal investigou um esquema de desvio de verbas da saúde, parte dele durante a pandemia. Witzel foi afastado em agosto daquele ano e impeachado em abril de 2021. Ainda responde a quatro ações penais no STJ, processos que avançaram pouco por questões procedimentais. Ele nega as acusações e aponta o ex-secretário de Saúde Edmar Santos, que firmou acordo de colaboração premiada, como responsável por uma narrativa que considera falsa.
Em 2022, Witzel já havia tentado voltar, mas a Justiça Eleitoral barrou seu registro por causa da inelegibilidade de cinco anos imposta no impeachment. Agora, afirma estar livre desse impedimento. Curiosamente, vários dos personagens que ele responsabiliza por sua queda também acumularam problemas com a lei: o ex-presidente da Assembleia está preso, a deputada que assinou a acusação é ré por envolvimento com milícia, e seu ex-vice Cláudio Castro desistiu de candidatura ao Senado sob investigação.
A lição que Witzel diz ter aprendido é sobre o perigo do 'governo paralelo': Castro, segundo ele, conspirou com deputados antes mesmo do impeachment ser formalizado. Se eleito, promete que deputados que conversarem com o vice serão excluídos da base. O desafio imediato, porém, é mais prosaico — sem representação na Câmara, o Democrata não garante tempo de TV nem acesso automático a debates, e Witzel aposta que sua história como ex-governador será suficiente para despertar interesse das emissoras. A convenção que deve confirmar seu nome está marcada para o primeiro de agosto.
Oito anos depois de sua primeira vitória surpreendente, Wilson Witzel está de volta. O ex-juiz federal que governou o Rio de Janeiro até ser afastado por impeachment em 2021 anunciou sua candidatura ao Palácio Guanabara, desta vez pelo Democrata, partido que até recentemente era conhecido como PMB. Sua estratégia é clara: aproveitar a onda de popularidade do governador interino Ricardo Couto, um desembargador mantido no cargo por ordem do Supremo Tribunal Federal, e associar sua própria gestão aos sucessos que Couto vem colhendo com medidas de austeridade.
Witzel argumenta que sua visão administrativa se alinha com a do desembargador. Ambos vêm de carreiras na magistratura, ambos pregam transparência e legalidade, e ambos enfrentaram resistência da Assembleia Legislativa estadual. O ex-governador até aponta uma coincidência: Guilherme Mercês, que foi secretário de Fazenda em sua gestão, ocupa o mesmo cargo agora. Mas há uma diferença que Witzel não deixa de mencionar. Couto, em sua visão, tem liberdade para governar justamente porque a Assembleia não consegue derrubá-lo. "Sou uma vítima do sistema perverso que existe no Rio de Janeiro", disse Witzel, sugerindo que sua queda foi menos sobre gestão e mais sobre política.
A história que o ex-governador quer deixar para trás é pesada. Em 2020, a Polícia Federal investigou um esquema de desvio de verbas da saúde, parte dele ocorrendo durante a pandemia. O impeachment foi aberto em junho daquele ano e concluído em abril de 2021. Witzel foi afastado em agosto de 2020 por determinação do Superior Tribunal de Justiça. Ele ainda responde a quatro ações penais decorrentes dessas investigações, processos que estão no STJ e pouco avançaram por questões procedimentais e mudanças na jurisprudência sobre foro especial. Witzel insiste que as acusações carecem de fundamento, documento ou prova, e aponta o secretário de Saúde Edmar Santos, que firmou acordo de colaboração premiada, como responsável por uma narrativa falsa.
Esta não é a primeira tentativa de retorno. Em 2022, Witzel foi escolhido em convenção do antigo PMB, mas a Justiça Eleitoral indeferiu seu registro de candidatura por causa da inelegibilidade de cinco anos imposta no impeachment. Agora, ele afirma estar livre de impedimentos legais. Curiosamente, vários dos personagens que Witzel responsabiliza por sua queda também enfrentaram problemas com a lei. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia e relator do impeachment, está preso. A deputada Lucinha, que assinou a acusação, é ré acusada de envolvimento com milícia. Seu ex-vice, Cláudio Castro, desistiu de uma candidatura ao Senado após ser alvo de duas investigações.
Witzel atribui sua queda, em parte, ao conflito com deputados estaduais que queriam ser nomeados secretários rapidamente e resistiam às medidas de transparência que ele pretendia implementar. Ele também responsabilizou Jair Bolsonaro pela queda, embora agora diga não ter mágoas da família do ex-presidente e se mostre aberto a apoiar o senador Flávio Bolsonaro à Presidência, dependendo da orientação do partido. Mas a lição que Witzel diz ter aprendido é sobre o vice-governador. Castro, segundo ele, conspirou com deputados para dividir o governo antes mesmo do impeachment ser formalizado, criando o que Witzel chama de "governo paralelo". Se eleito, promete blindar essa estrutura: deputados que conversarem com o vice serão excluídos da base.
O desafio imediato é visibilidade. O Democrata não tem representação na Câmara dos Deputados que lhe garanta tempo de TV ou participação automática em debates. Witzel tentou negociar filiação ao PSDB para resolver isso, mas sem sucesso. Agora aposta que sua história como ex-governador e figura relevante na política fluminense será suficiente para despertar interesse das emissoras, citando o precedente de Pablo Marçal em São Paulo em 2024. O nome de Witzel deve ser confirmado na convenção do partido no sábado, primeiro de agosto. O que virá depois dependerá de como os eleitores do Rio de Janeiro avaliam sua tentativa de se reinventar.
Notable Quotes
Embora não tenha permanecido no cargo como o desembargador Ricardo Couto, nossa visão de gestão é bastante similar pela nossa formação, de transparência, de legalidade e de objetividade na condução da gestão do Estado— Wilson Witzel
Vou tomar algumas medidas para que não haja uma bilateralidade, com deputados procurando vice-governador para obter benefícios. Deputado que estiver falando com vice-governador vai ser excluído da base— Wilson Witzel