Em um tempo em que fronteiras comerciais se abrem e fecham ao sabor de decisões políticas, a Whirlpool encerrou sua fábrica argentina em Pilar e transferiu toda a produção para Rio Claro, no Brasil. O que começou como uma aposta de US$ 52 milhões numa economia protegida tornou-se insustentável quando tarifas menores abriram as portas para uma avalanche de produtos asiáticos. A decisão revela como a competitividade industrial não é apenas questão de eficiência, mas de arquitetura regulatória — e como o Brasil, com seus incentivos fiscais e mercado em expansão, emerge como o eixo manufatureiro d
Whirlpool encerra produção na Argentina e concentra fabricação no Brasil
Produtos asiáticos inundaram o mercado e tornaram impossível qualquer competição
Por que a Whirlpool investiu US$ 52 milhões em uma fábrica na Argentina se sabia que o mercado era instável?
A empresa apostou em um cenário de proteção econômica que existia em 2022. A Argentina tinha tarifas de importação de 35% justamente para proteger a indústria local. Fazia sentido produzir lá para abastecer o mercado regional.
E o que mudou em 2023?
O governo argentino reduziu as tarifas para 20%. De repente, produtos chineses e asiáticos inundaram o mercado. As importações mensais de máquinas de lavar saltaram de cinco mil para 87 mil unidades. Não havia como competir em preço.
Então a fábrica virou inviável rapidamente?
Muito rapidamente. Em menos de um ano, a produção diária caiu de 600 para 400 unidades. A empresa não conseguia vender o que produzia. Não era questão de eficiência operacional, era o mercado desaparecendo.
E os trabalhadores?
220 pessoas foram demitidas no fim de 2025. A fábrica que deveria empregar centenas agora tem apenas 100 a 120 funcionários em vendas e administração. É uma redução brutal.
Por que o Brasil é melhor para a Whirlpool agora?
São Paulo oferece incentivos fiscais reais — ICMS reduzido para 7%, diferimento de impostos. Além disso, o mercado brasileiro está aquecido. Renda média subindo, mercado de trabalho forte. Isso compensa os juros altos de 14,75% ao ano.
A empresa está apostando que o Brasil vai continuar assim?
Está apostando que sim. Projetou câmbio em R$ 5,50 por dólar para controlar custos de importação. E os números da indústria brasileira estão positivos — crescimento em fevereiro, faturamento em alta. É um cálculo racional, não uma aposta cega.
Le Pouls
- A redução da tarifa argentina de importação de 35% para 20% transformou um mercado protegido em campo aberto: o fluxo mensal de máquinas de lavar importadas saltou de 5 mil para 87 mil unidades, tornando a produção local inviável.
- A fábrica de Pilar, inaugurada em 2022 com metas ambiciosas de 300 mil unidades anuais, viu sua produção diária cair de 600 para 400 unidades antes do encerramento definitivo — uma trajetória de colapso em menos de três anos.
- 220 trabalhadores foram demitidos no fim de 2025, e a operação argentina sobrevive apenas como importadora e distribuidora, com 100 a 120 funcionários em funções administrativas.
- O Brasil atrai a produção apesar da Selic em 14,75% ao ano: incentivos fiscais do governo paulista, mercado de trabalho aquecido e projeção de câmbio favorável constroem um ambiente competitivo que a Argentina não conseguiu sustentar.
- Rio Claro consolida-se como hub manufatureiro da Whirlpool para toda a América do Sul, com a operação brasileira adquirindo os ativos industriais argentinos por US$ 36,7 milhões.
Em um tempo em que fronteiras comerciais se abrem e fecham ao sabor de decisões políticas, a Whirlpool encerrou sua fábrica argentina em Pilar e transferiu toda a produção para Rio Claro, no Brasil. O que começou como uma aposta de US$ 52 milhões numa economia protegida tornou-se insustentável quando tarifas menores abriram as portas para uma avalanche de produtos asiáticos. A decisão revela como a competitividade industrial não é apenas questão de eficiência, mas de arquitetura regulatória — e como o Brasil, com seus incentivos fiscais e mercado em expansão, emerge como o eixo manufatureiro da América do Sul.
A Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, fechou sua fábrica em Pilar, na Argentina, e transferiu toda a produção para o complexo de Rio Claro, no interior de São Paulo. A operação brasileira adquiriu os ativos industriais da filial por US$ 36,7 milhões, consolidando o Brasil como centro de manufatura do grupo para a América do Sul.
A unidade argentina tinha uma história breve e turbulenta. Inaugurada em outubro de 2022 com investimento de US$ 52 milhões, foi projetada para produzir 300 mil máquinas de lavar por ano numa economia protegida por tarifas de 35%. Quando o governo argentino reduziu essa barreira para 20%, no fim de 2023, o mercado foi inundado por produtos asiáticos: o fluxo mensal de importações saltou de 5 mil para 87 mil unidades. A produção em Pilar caiu um terço e o encerramento tornou-se inevitável. O custo humano foi direto: 220 demissões no fim de 2025, com a filial sobrevivendo apenas como importadora e distribuidora.
No Brasil, o cenário é desafiador, mas manejável. A Selic em 14,75% ao ano pesa sobre o crediário, canal tradicional de vendas de eletrodomésticos. Mas o diretor-geral Gustavo Ambar aponta que o mercado de trabalho aquecido e o crescimento da renda média funcionam como contrapeso. A empresa registrou alta em vendas no fim de 2025 e planeja 2026 com câmbio projetado em R$ 5,50 por dólar — patamar que viabiliza o controle de custos na importação de insumos.
O governo de São Paulo contribui com desonerações específicas para o setor: redução da base de cálculo do ICMS para 7% em máquinas de lavar, fogões e geladeiras, diferimento do imposto na compra de insumos e isenção em importações de matérias-primas sem similar nacional. A indústria brasileira de transformação, por sua vez, avançou 0,9% em fevereiro, após crescer 1,8% em janeiro, segundo o IBGE. A aposta da Whirlpool em Rio Claro reflete não apenas uma retirada estratégica da Argentina, mas uma leitura de que o Brasil reúne, hoje, as condições para ser o eixo industrial da empresa em toda a região.
A Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, fechou oficialmente sua fábrica na Argentina esta semana e transferiu toda a produção para o Brasil. A decisão do conselho de administração encerra as operações na unidade de Pilar, na província de Buenos Aires, e consolida o complexo de Rio Claro, no interior de São Paulo, como o centro de manufatura do grupo para toda a América do Sul. A operação brasileira adquiriu os ativos industriais da filial argentina por US$ 36,7 milhões, aproximadamente R$ 194,1 milhões no momento da transação.
A fábrica argentina tinha uma vida útil curta. Inaugurada em outubro de 2022 com investimento de US$ 52 milhões, foi construída sob a premissa de uma economia protegida, com meta de produzir 300 mil máquinas de lavar por ano e exportar 70% desse volume. Tudo mudou a partir do final de 2023, quando o governo argentino reduziu a tarifa de importação de eletrodomésticos de 35% para 20%. A abertura das fronteiras para produtos asiáticos foi devastadora. O fluxo mensal de máquinas de lavar automáticas que chegavam ao país saltou de cinco mil para 87 mil unidades, tornando impossível qualquer competição nacional baseada em preço. A produção diária em Pilar caiu um terço, de 600 unidades para cerca de 400, antes do encerramento total.
O custo humano foi significativo. Segundo o sindicato local União Operária Metalúrgica, 220 funcionários foram demitidos no fim do ano passado. A filial argentina agora funciona apenas como importadora e distribuidora comercial, mantendo entre 100 e 120 funcionários em funções administrativas e de vendas.
A decisão de concentrar a produção no Brasil ocorre em um cenário desafiador para o setor de eletrodomésticos. A taxa Selic em 14,75% ao ano encarece significativamente o crediário, fator que tradicionalmente impulsiona as vendas de linha branca. Mas a empresa encontra compensações. Gustavo Ambar, diretor-geral da Whirlpool no Brasil, declarou em entrevistas recentes que o mercado de trabalho aquecido e o aumento da renda média funcionam como contrapeso eficiente aos juros elevados. Esse equilíbrio permitiu à companhia registrar altas em vendas no final de 2025 e embasa o planejamento para 2026, ancorado também em uma projeção de câmbio em R$ 5,50 por dólar, patamar que viabiliza o controle de custos na importação de insumos como aço.
O governo de São Paulo oferece medidas de desoneração tributária específicas para o setor. A redução da base de cálculo do ICMS para 7% na fabricação de máquinas de lavar, fogões e geladeiras, além do diferimento do imposto na aquisição de insumos e da desoneração de importações de matérias-primas sem similar nacional, reduzem substancialmente o custo de produção no estado.
A resiliência da indústria brasileira de transformação corrobora a aposta da Whirlpool. Dados da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE mostram que a produção avançou 0,9% em fevereiro, na série com ajuste sazonal, após crescer 1,8% em janeiro. A Confederação Nacional da Indústria reportou um avanço de 4,9% no faturamento real do setor em fevereiro.
A Whirlpool é a maior fabricante de eletrodomésticos com sede nos Estados Unidos. Além de Brastemp e Consul, detém marcas como KitchenAid, JennAir, Maytag, Amana e InSinkErator. Conta com 44 mil funcionários e 40 centros de pesquisa e tecnologia pelo mundo. A consolidação da produção em Rio Claro reforça o Brasil como hub manufatureiro regional da empresa, em um momento em que a América Latina se torna cada vez mais importante para as operações globais.
Citations marquantes
O mercado de trabalho aquecido e o aumento da renda média têm sido considerado um contrapeso eficiente aos juros elevados— Gustavo Ambar, diretor-geral da Whirlpool no Brasil