Entre janeiro e julho de 2025, Master repassou cotas de fundos de investimento para empresa de Vorcaro em paraíso fiscal sem imposto corporativo. Maior movimentação foi em abril: R$ 555 milhões em transferência de cotas do fundo GSR para Krispy, com holding camanense como cotista.
Vorcaro transferiu R$ 700 mi para paraíso fiscal durante negociações com BRB
Os valores movimentados não condiziam com o patrimônio declarado
Por que o Coaf sinalizou essas transferências como suspeitas? Não era apenas Vorcaro movimentando seu próprio dinheiro?
Porque os valores transferidos não batiam com o patrimônio que ele havia declarado. Se você declara ter um milhão e de repente move 700 milhões, isso levanta bandeiras. O órgão de inteligência financeira tem obrigação de reportar incompatibilidades assim.
Mas espera — o Coaf está dizendo que o dinheiro era incompatível com o patrimônio declarado, ou está dizendo que o dinheiro era ilícito? Porque uma coisa é suspeita, outra é crime.
Ótima pergunta. O Coaf reporta a suspeita. A Polícia Federal é que investiga se houve crime. E a PF está investigando operações paralelas — cartas de crédito fraudadas, inflação artificial de capital do BRB.
Então as transferências para as Ilhas Cayman estão conectadas com as negociações do Master com o BRB?
Cronologicamente, sim. As transferências começam em janeiro de 2025, as negociações com o BRB intensificam-se no final de 2024. E enquanto isso acontecia, fundos do Master estavam comprando ações do BRB para inflar o tamanho do banco.
Mas isso é especulação sobre intenção. O que sabemos de fato é que as transferências aconteceram, que o Coaf achou estranho, e que o Banco Central bloqueou os bens. O resto ainda está sob investigação.
E a defesa de Vorcaro? Ele respondeu?
Não. Disse que não iria se manifestar.
Isso é importante notar — não há resposta pública dele sobre nenhuma dessas acusações. Temos o relatório do Coaf, temos a investigação da PF, temos a rejeição do Banco Central. Mas não temos a versão dele.
Il Polso
- Entre janeiro e julho de 2025, Banco Master transferiu R$ 700 milhões em cotas de fundos para holding de Vorcaro nas Ilhas Cayman
- Maior movimentação: R$ 555 milhões em abril, transferência de cotas do fundo GSR para Krispy
- Banco Central decretou indisponibilidade de bens da Titan Capital Holding em 5 de março de 2026
- Transferências ocorreram durante negociações de venda do Master para o Banco de Brasília
Entre janeiro e julho de 2025, Master repassou cotas de fundos de investimento para empresa de Vorcaro em paraíso fiscal sem imposto corporativo. Maior movimentação foi em abril: R$ 555 milhões em transferência de cotas do fundo GSR para Krispy, com holding camanense como cotista.
Coaf identificou transferências de R$ 700 milhões do Banco Master para holding de Vorcaro nas Ilhas Cayman, incompatíveis com patrimônio declarado, durante negociações de venda para o BRB.
Entre janeiro e julho de 2025, o Banco Master canalizou aproximadamente 700 milhões de reais em cotas de fundos de investimento para uma empresa controlada pelo banqueiro Vorcaro sediada nas Ilhas Cayman, um território onde não incide imposto corporativo e a regulação de investimentos permanece flexível. O Coaf, órgão de inteligência financeira do Brasil, identificou essas movimentações e as sinalizou como suspeitas justamente porque os valores transferidos não guardavam proporção com o patrimônio que Vorcaro havia declarado em seus registros cadastrais.
O padrão de transferências começou modestamente. Em janeiro, o Master vendeu cotas do fundo Quíron por 85 milhões de reais para a holding de Vorcaro no exterior. Fevereiro trouxe outra operação: 66 milhões em cotas do Fundo Saint German. Mas foi em abril que a movimentação atingiu sua escala máxima. Naquele mês, o banco transferiu 555 milhões de reais em cotas do fundo GSR para outro fundo chamado Krispy, com a holding camanense de Vorcaro figurando como cotista. Julho fechou o período com mais 314 milhões aplicados no fundo Tessália. Segundo registros da Comissão de Valores Mobiliários, tanto Quíron quanto Tessália possuem participação na Oncoclínicas, empresa de saúde que enfrentou queda de 13% em suas ações em novembro do ano anterior após a revelação de que mantinha 433 milhões em CDBs do Banco Master.
O Coaf documentou sua preocupação em termos técnicos mas diretos: os valores movimentados pelo cliente apresentavam-se incompatíveis com aqueles declarados nas fichas cadastrais fornecidas. A holding de Vorcaro nas Ilhas Cayman, inicialmente chamada Master Holding e depois renomeada Titan Holding, funcionava como uma estrutura para registrar bens pessoais do banqueiro — imóveis de luxo, aeronaves, automóveis. Os fundos pelos quais o Master operava formavam uma teia complexa de investimentos, e grande parte dos ativos repassados para a holding no exterior consistia em precatórios, ações de usinas e empresas de saúde em litígio contra o poder público.
Essas transferências ocorreram em paralelo direto com as negociações entre Vorcaro e o Banco de Brasília para a venda do Master. A partir do final de 2024, as conversas entre as duas instituições intensificaram-se. Investigações posteriores revelaram que durante esse período, entre o final de 2024 e fevereiro de 2025, fundos ligados ao Master também participaram de uma operação de aumento de capital social do BRB, comprando ações do banco com o aparente objetivo de inflar artificialmente seu tamanho para facilitar a aprovação da compra pelo Banco Central. Além disso, a Polícia Federal investiga operações em que Vorcaro teria tentado repassar cartas de crédito fraudadas para o BRB — um negócio que precisou ser cancelado quando ficou claro que os ativos não tinham perspectiva de pagamento, o que teria gerado um rombo bilionário para o banco brasiliense.
Depoimentos de Vorcaro e outros representantes do BRB à Polícia Federal, bem como anotações encontradas pelos investigadores, indicam que na tentativa de salvar a operação, o banqueiro organizou uma série de ativos para transferir ao banco estatal. Apesar desses esforços, o Banco Central rejeitou a aquisição em setembro de 2025, meses após o anúncio do negócio em março.
No dia 5 de março deste ano, o Banco Central decretou a indisponibilidade de bens da Titan Capital Holding, atual denominação da Master Holding. A decisão baseou-se na participação da offshore no controle indireto do Banco Master, conforme mapeamento de composição de capital produzido pelo próprio Banco Central. A legislação que rege instituições financeiras em liquidação, como é o caso do Master, determina que todos os bens de seus administradores e controladores fiquem indisponíveis. Isso significa que Vorcaro não pode alienar seu patrimônio para outra companhia até que se complete a apuração e liquidação final de suas responsabilidades. O decreto atinge todos os controladores que passaram pela instituição nos doze meses anteriores ao ato de liquidação, sejam eles detentores de controle direto ou indireto.
Quando procurada, a defesa de Vorcaro informou que não se manifestaria sobre o assunto.
Citazioni salienti
Os valores movimentados pelo cliente mostram-se incompatíveis com os valores de patrimônio declarados nas fichas cadastrais— Equipe técnica do Coaf