Recebeu documentos sigilosos meses antes de ser preso
Vorcaro recebeu três arquivos confidenciais do MPF em julho de 2025, enviados por aliado conhecido como 'Sicário', meses antes da prisão em novembro. Investigadores identificaram acesso ilegal a sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo Polícia Federal, MPF, FBI e Interpol, usando credenciais de terceiros.
- Três arquivos confidenciais do MPF recebidos em 24 de julho de 2025
- Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão (Sicário) enviou documentos usando credenciais de terceiros
- Acesso ilegal a sistemas da Polícia Federal, MPF, FBI e Interpol
- Campanha de phishing contra servidores do Ministério Público Federal
- Ordem de prisão assinada em 17 de novembro; defesa protocolou petição 18 minutos depois
Empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, recebeu documentos confidenciais do MPF quatro meses antes de ser preso, segundo mensagens analisadas. Investigação aponta acesso antecipado a procedimentos sigilosos e possível vazamento de ordem de prisão.
Daniel Vorcaro, o empresário que controlava o Banco Master, recebeu documentos confidenciais do Ministério Público Federal em julho de 2025 — quatro meses antes de ser preso pela Justiça Federal de Brasília. As mensagens recuperadas de seu celular, apreendido quando tentava embarcar para Dubai, revelam que três arquivos em PDF chegaram até ele em 24 de julho, enviados por um homem conhecido como Sicário, apontado como seu aliado próximo. O material continha investigações sigilosas sobre a negociação entre o Banco Master e o Banco de Brasília, além de suspeitas envolvendo um imóvel de luxo avaliado em cerca de 60 milhões de reais que teria sido usado como forma de pagamento de propina.
A transação entre as duas instituições financeiras era estratégica para a sobrevivência do Banco Master, que enfrentava dificuldades crescentes de captação de recursos. O Banco Central havia alertado para problemas de liquidez desde abril de 2025, e uma auditoria do Tribunal de Contas da União identificaria depois graves irregularidades nas carteiras de crédito cedidas, com uso de artifícios contábeis para ocultar a real situação financeira da instituição. Mas meses antes de qualquer ação judicial, Vorcaro já tinha em mãos os documentos que descreviam essas investigações — informação que deveria ter permanecido protegida.
O acesso antecipado aos procedimentos sigilosos não foi o único indício de comprometimento da investigação. Registros mostram que Vorcaro e seus colaboradores realizavam buscas nos sistemas por termos específicos como seu próprio nome, o do Banco Master e o de Nelson Tanure, apontado como suposto sócio oculto da instituição. Mais grave ainda, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça identificou evidências de que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — o Sicário — realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos usando credenciais funcionais que não lhe pertenciam. Os acessos indevidos alcançavam não apenas a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, mas também organismos internacionais como FBI e Interpol.
A sofisticação das operações cibernéticas sugere uma estrutura organizada. Investigadores identificaram uma campanha de ataque conhecido como spearfishing contra servidores do Ministério Público Federal, na qual mensagens fraudulentas simulavam sistemas oficiais de alteração de senha. Funcionários da Procuradoria-Geral da República receberam e-mails direcionados para um ambiente digital falso, onde digitavam suas credenciais. Com as senhas obtidas dessa forma, o grupo conseguiu acessar dois procedimentos sigilosos relacionados ao caso Master.
O vazamento da ordem de prisão também levanta questões. Os advogados de Vorcaro protocolaram um pedido na Justiça Federal apenas 18 minutos após a assinatura da ordem pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília — a petição foi enviada às 15h47 do dia 17 de novembro, enquanto a decisão havia sido assinada às 15h29. A defesa se manifestou contra medidas cautelares que poderiam provocar impacto relevante ao conglomerado Master. Horas antes, o site O Bastidor havia publicado uma notícia sobre um inquérito investigando fraude bilionária envolvendo a compra do banco. A Polícia Federal decidiu executar a prisão ainda naquele mesmo dia, temendo que Vorcaro tentasse deixar o país.
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão tinha histórico criminal em Minas Gerais, indiciado por estelionato, furto de veículos, crimes cibernéticos e associação criminosa. Recebia aproximadamente um milhão de reais por mês de Vorcaro pelos serviços prestados. Mourão morreu após tentar suicídio nas dependências da superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais. A defesa de Vorcaro, por sua vez, recusou-se a comentar as informações, afirmando que não cabe manifestação sobre conteúdos derivados de vazamentos ilegais de material sigiloso — material que já é objeto de investigação criminal determinada pelo ministro Mendonça no Supremo Tribunal Federal.
Notable Quotes
Não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso— Defesa de Daniel Vorcaro
Foram identificados registros indicando que Vorcaro teve contato prévio com dados relativos às investigações, realizando anotações e comunicações relacionadas às autoridades envolvidas— Ministro André Mendonça, STF
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como um empresário consegue acessar documentos que deveriam estar completamente protegidos?
Não foi acesso direto. Havia um intermediário — alguém com credenciais de funcionário público que podia entrar nos sistemas. Sicário usava as senhas de outras pessoas, credenciais que não eram dele.
E como ele conseguiu essas senhas?
Phishing. Mensagens falsas que pareciam vir do próprio Ministério Público, pedindo para trocar senha. Funcionários clicavam, digitavam suas credenciais em um site falso, e pronto — o grupo tinha acesso.
Mas alguém não deveria ter notado que Vorcaro sabia demais sobre a investigação?
Talvez tenham notado tarde demais. Ele recebeu os documentos em julho. A prisão só aconteceu em novembro. Quatro meses é tempo suficiente para se preparar, para avisar advogados, para tentar sair do país.
Por que Sicário fazia isso? Dinheiro?
Um milhão por mês. Mas há mais — ele tinha histórico criminal, já tinha cometido crimes cibernéticos antes. Para alguém assim, era um trabalho.
E ele está respondendo pelos crimes?
Não. Morreu tentando se suicidar na Polícia Federal. Tudo o que sabemos sobre ele vem de mensagens e registros de acesso que deixou para trás.
Então a investigação depende de provas digitais?
Depende. Mensagens, registros de acesso, análise de quando os documentos foram enviados. Tudo deixa rastro. O problema é que alguém dentro do sistema ajudava a apagar ou a desviar esses rastros.