Em outubro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro criou um grupo privado no WhatsApp com dois altos funcionários do Banco Central para coordenar a tentativa de salvar o Banco Master da liquidação — esforço que, no fim, fracassou. O que emerge das mensagens interceptadas pela Polícia Federal é um retrato perturbador da fronteira porosa entre regulador e regulado: os mesmos servidores que orientavam o banqueiro em segredo tramitavam, simultaneamente, uma denúncia formal contra ele. A investigação agora examina se essa cumplicidade foi selada por vantagens financeiras, colocando em questão não apena
Vorcaro mantinha grupo no WhatsApp com servidores do BC para articular estratégias
Jogo duplo dentro do Banco Central enquanto tramitavam denúncia
Por que um banqueiro precisaria manter um grupo secreto com servidores do Banco Central?
Porque o Banco Central é quem decide se um banco continua operando ou é liquidado. Vorcaro estava tentando influenciar essa decisão de dentro.
Mas eles não estavam apenas conversando — estavam orientando ele?
Exatamente. Neves de Souza avisava quando movimentações caíam em filtros de monitoramento. Santana e ele revisavam documentos antes de serem enviados. Eram como consultores internos.
E ao mesmo tempo estavam denunciando o banco?
Sim. Enquanto conversavam com Vorcaro no WhatsApp, tramitavam uma denúncia detalhando crimes na gestão de fundos. É o que a PF chama de jogo duplo.
Como isso não foi descoberto antes?
Provavelmente foi. A denúncia foi autorizada em 10 de novembro, e Vorcaro foi preso horas depois de 17 de novembro, quando tentava embarcar para Dubai. Parece que a PF já estava monitorando.
E os pagamentos suspeitos — eram para silenciar os servidores?
Não exatamente silenciar. Eram para garantir cooperação contínua. Um contrato de fachada, uma venda de sítio por 4,8 milhões, uma viagem à Disney. Formas de transferir dinheiro sem parecer suborno direto.
O que isso diz sobre como o Banco Central funciona?
Que pessoas em posições críticas podem ser capturadas por interesses privados. Dois chefes de supervisão bancária — o setor responsável por fiscalizar — estavam do outro lado da mesa, ajudando o banqueiro que deveriam estar investigando.
El Pulso
- Um grupo de WhatsApp batizado 'Master' reunia o banqueiro e dois chefes de supervisão do Banco Central 47 dias antes do colapso da instituição — uma linha direta que subvertia os canais formais de fiscalização.
- Os servidores revisavam minutas de ofícios, alertavam Vorcaro sobre movimentações financeiras detectadas pelo monitoramento interno e consultavam diretores do BC em tempo real para responder às dúvidas do banqueiro.
- Enquanto aconselhavam Vorcaro nos bastidores, os mesmos funcionários autorizavam o envio de uma denúncia formal contra ele à Polícia Federal e ao Ministério Público — um 'jogo duplo' que a PF considera o núcleo do caso.
- Horas após a Procuradoria do BC dar aval à denúncia, Vorcaro foi preso no aeroporto tentando embarcar para Dubai, transformando o colapso do Master em prisão de seu controlador.
- A investigação agora mira possíveis pagamentos: um contrato de fachada para um dos servidores e a compra de um sítio por R$ 4,8 milhões para o outro, sugerindo que a lealdade paralela pode ter tido preço definido.
Em outubro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro criou um grupo privado no WhatsApp com dois altos funcionários do Banco Central para coordenar a tentativa de salvar o Banco Master da liquidação — esforço que, no fim, fracassou. O que emerge das mensagens interceptadas pela Polícia Federal é um retrato perturbador da fronteira porosa entre regulador e regulado: os mesmos servidores que orientavam o banqueiro em segredo tramitavam, simultaneamente, uma denúncia formal contra ele. A investigação agora examina se essa cumplicidade foi selada por vantagens financeiras, colocando em questão não apenas a conduta de indivíduos, mas a integridade das instituições que deveriam guardar o sistema.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, criou em 2 de outubro de 2025 um grupo no WhatsApp com Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza — respectivamente chefe e chefe-adjunto do departamento de supervisão bancária do Banco Central. O grupo, chamado simplesmente de 'Master', nasceu 47 dias antes da liquidação da instituição, e as mensagens interceptadas pela Polícia Federal revelam o que estava em jogo: uma operação coordenada para evitar o colapso.
Nas semanas seguintes, os três trocavam documentos e revisavam ofícios que o banco enviaria ao próprio BC e ao Fundo Garantidor de Créditos. Em 30 de outubro, Vorcaro informou ao grupo ter obtido inteligência de 'pessoas de dentro do Bacen' sobre pressões para que medidas fossem tomadas contra o Master. Em novembro, quando questionou se o BC poderia emitir uma carta ao BTG para viabilizar a venda de um ativo, Neves de Souza respondeu que estava 'consultando o Ailton' — o diretor de fiscalização Ailton de Aquino — e retornou com a posição do diretor menos de uma hora depois.
O que a PF chama de 'jogo duplo' é o elemento mais grave do caso. Enquanto mantinham essas conversas privadas, Santana e Neves de Souza analisavam um documento do BC com indícios de crimes na gestão de fundos pelo Master e autorizaram seu envio à Polícia Federal e ao Ministério Público em 10 de novembro. A Procuradoria-Geral do BC deu aval em 17 de novembro — e horas depois Vorcaro foi preso no aeroporto, tentando embarcar para Dubai.
A investigação também aponta para possíveis contrapartidas financeiras. Santana teria sido beneficiado por um contrato de fachada para um estudo sobre jovens no mercado financeiro — ao saber que o servidor aceitou os termos, Vorcaro escreveu ao cunhado: 'Que circo'. Neves de Souza, por sua vez, teria recebido benefícios mais substanciais: a venda de um sítio por R$ 4,8 milhões para a empresa do cunhado de Vorcaro e o custeio de uma viagem à Disney. O Banco Central afastou ambos em janeiro de 2026, e as autoridades seguem investigando se esses arranjos configuram corrupção ativa.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, criou um grupo no WhatsApp em outubro de 2025 com dois funcionários de alto escalão do Banco Central. As mensagens interceptadas pela Polícia Federal revelam uma operação coordenada para salvar a instituição financeira da liquidação — que acabaria ocorrendo em novembro daquele ano. O grupo, batizado simplesmente de "Master", reunia Vorcaro, Belline Santana, então chefe do departamento de supervisão bancária, e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto do mesmo setor.
O relacionamento entre o banqueiro e os dois servidores não era novo. Vorcaro conhecia Neves de Souza desde 2019 e Santana desde 2023. Quando Santana criou o grupo em 2 de outubro, 47 dias antes do colapso do Master, Vorcaro escreveu: "Criei esse grupo, no intuito de facilitar nossa interlocução". Nas semanas que se seguiram, os três trocavam documentos, revisavam ofícios que o banco enviaria ao próprio Banco Central e ao Fundo Garantidor de Créditos, agendavam reuniões e comentavam posições de colegas em decisões internas. Em 30 de outubro, Vorcaro informou ao grupo que havia obtido inteligência de "pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos" sobre a "pressão máxima" de autoridades para tomar medidas contra o Master.
As mensagens mostram os servidores orientando ativamente o banqueiro. Em 17 de fevereiro de 2025, Neves de Souza alertou Vorcaro sobre uma movimentação de recursos que havia "caído no filtro da área de monitoramento" — uma saída de 488,8 milhões do Fundo Reag Growth 95 e uma entrada de 545,5 milhões da Master Holding Financeira. Em 3 de novembro, quando Vorcaro enviou ao grupo a minuta de um ofício sobre cessão de carteiras de crédito ao Banco Regional de Brasília, pediu opinião aos dois servidores, que o orientaram. Dias depois, quando questionou se o Banco Central poderia emitir uma carta ao BTG para viabilizar a venda de um ativo, Neves de Souza respondeu que estava "consultando o Ailton aqui" — referência ao diretor de fiscalização Ailton de Aquino. Menos de uma hora depois, retornou com a posição do diretor.
O que torna o caso particularmente grave é o que a Polícia Federal chama de "jogo duplo". Enquanto Santana e Neves de Souza mantinham conversas privadas com Vorcaro, oferecendo orientações e informações privilegiadas, simultaneamente tramitavam uma denúncia contra o banqueiro para envio à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal. O Banco Central havia elaborado um documento detalhando indícios de crimes na gestão de fundos pelo Master e pela Reag Investimentos. Os dois servidores analisaram o material e autorizaram seu envio em 10 de novembro. A Procuradoria-Geral do Banco Central deu seu aval em 17 de novembro. Horas depois, a Polícia Federal prendeu Vorcaro quando ele tentava embarcar para Dubai.
A investigação também aponta para possíveis vantagens financeiras oferecidas aos dois servidores em troca de suas ações. A PF sinalizou que Belline Santana foi beneficiado por um contrato de fachada para um estudo sobre inserção de jovens no mercado financeiro. Quando Santana enviou um e-mail aceitando os termos, Vorcaro escreveu ao seu cunhado: "Que circo". Já Paulo Sérgio Neves de Souza teria recebido benefícios mais substanciais: a venda de um sítio por 4,8 milhões de reais para a empresa do cunhado de Vorcaro e o custeio de uma viagem à Disney. O Banco Central afastou ambos os investigados em janeiro de 2026, e as autoridades continuam apurando se esses arranjos constituem corrupção ativa.
Citas Notables
Criei esse grupo, no intuito de facilitar nossa interlocução— Daniel Vorcaro, ao criar o grupo no WhatsApp
Meu caro, teve uma saída de recursos de 488,8 mm do Fundo Reag Growth 95 e uma entrada de 545,5 mm da Master Holding Financeira. Favor verificar e me ligar quando puder pois essa movimentação caiu no filtro da área de monitoramento— Paulo Sérgio Neves de Souza, alertando Vorcaro sobre movimentações suspeitas