Volatilidade cambial e assimetria no repasse: debate sobre juros reais no Brasil

O repasse cambial é muito maior quando as expectativas estão desancoradas
Pesquisa com microdados da FGV revela que o efeito do câmbio sobre a inflação depende crucialmente do estado das expectativas inflacionárias.
Mark

Klein argumenta que o câmbio causa juros altos porque a desvalorização é mais inflacionária que a valorização é desinflacionária. Isso não soa plausível?

Mimi

Soa, sim. A lógica é intuitiva. Mas o estudo de Bonomo com microdados mostra que quando as expectativas estão ancoradas, não há essa assimetria. O repasse cambial é simétrico.

Luke

Espera. Quando você diz que não há assimetria, está falando de um cenário específico. Com expectativas desancoradas, o que Bonomo encontrou?

Mimi

Com expectativas desancoradas, o repasse é simétrico também. Mas é muito maior em magnitude. Uma desvalorização de 10% causa 0,78% de inflação, enquanto a valorização causa 0,75% de deflação.

Mark

Então Klein estava errado sobre o mecanismo?

Mimi

Sobre a assimetria, sim. Mas ele pode estar certo que o câmbio importa para os juros. Só que o mecanismo passa pelas expectativas inflacionárias, não pela assimetria em si.

Luke

E como sabemos que as expectativas estão ancoradas ou não? Isso é observável ou é uma construção teórica?

Mimi

Bonomo e colaboradores usaram um método sistemático e rigoroso, publicado no Journal of Monetary Economics. Mas é verdade que essa classificação tem margem de interpretação.

Mark

E o argumento alternativo sobre poupança e gasto fiscal? Isso compete com o argumento do câmbio ou complementa?

Mimi

Complementa. O câmbio afeta a inflação, que afeta os juros. Mas o desequilíbrio fiscal também afeta os juros diretamente, pelo lado da demanda.

Luke

Mas o Brasil teve superávits primários altos e juros altos ao mesmo tempo. Como isso se encaixa?

Mimi

Porque o que importa não é o resultado final, mas o crescimento do gasto acima do potencial. Um superávit pode coexistir com pressão fiscal se o gasto está crescendo rápido demais.

Mark

Então a conclusão é que ninguém sabe exatamente por que os juros são altos?

Mimi

Não. A conclusão é que sabemos que múltiplos fatores importam, mas precisamos entender melhor em que condições cada um funciona. A pesquisa com microdados é um passo importante nessa direção.

  • Desvalorização de 10% do real causa 0,2% de inflação com expectativas ancoradas, mas 0,78% com expectativas desancoradas
  • Valorização cambial reduz preços em 0,75% independentemente do regime de expectativas
  • Estudo de Bonomo usa base de microdados única no Brasil, acompanhando decisões individualizadas de preços de produtores
  • Risco país caiu de 1.000 para 150 pontos no CDS de cinco anos desde acúmulo de reservas internacionais

A desvalorização cambial gera choques inflacionários mais intensos que a valorização, criando pressão permanente por juros reais maiores segundo teoria de Klein. Estudo com microdados da FGV mostra que o repasse cambial varia drasticamente conforme expectativas inflacionárias estejam ancoradas ou desancoradas.

Economista analisa o papel da assimetria do repasse cambial nos juros elevados brasileiros, contrastando argumentos teóricos com evidências empíricas de pesquisa recente sobre ancoragem de expectativas inflacionárias.

Guilherme Klein, economista da UFRJ, apresentou uma tese provocadora sobre por que os juros reais no Brasil permanecem tão elevados: a culpa seria da assimetria no repasse cambial. Quando o real se desvaloriza, argumenta Klein, o choque inflacionário é intenso e imediato. Quando o real se valoriza, porém, o efeito desinflacionário é mais fraco. Essa assimetria deixaria um resíduo inflacionário permanente na economia, forçando o Banco Central a manter juros reais estruturalmente mais altos para compensar. A lógica é clara. Mas é verdadeira?

Marco Bonomo e colaboradores da FGV decidiram verificar. Tinham à mão algo raro em pesquisa econômica brasileira: uma base de microdados do Instituto Brasileiro de Economia que acompanha decisões individualizadas de preços de produtores ao longo do tempo, com um nível de desagregação que não existe em nenhum outro estudo conhecido no país ou no exterior. Com esse material, conseguiram estudar o repasse cambial em dois cenários distintos: quando as expectativas inflacionárias estão ancoradas e quando estão desancoradas.

Os resultados contradizem Klein de forma clara. Quando uma desvalorização de 10% do real ocorre em ambiente de expectativas ancoradas, os preços sobem apenas 0,2%. Mas se as expectativas estão desancoradas, o repasse cambial mais que triplica, chegando a 0,78%. A valorização cambial, por sua vez, reduz os preços em 0,75% em qualquer um dos regimes. Não há assimetria quando as expectativas estão ancoradas. Com expectativas desancoradas, o repasse é simétrico. A teoria de Klein não se sustenta nos dados.

Isso não significa que Klein estava completamente errado em apontar para o câmbio como parte do problema dos juros altos. Significa que o mecanismo é mais complexo do que proposto. O que importa não é apenas a volatilidade cambial em si, mas o estado das expectativas inflacionárias. Se o público acredita que o Banco Central vai manter a inflação sob controle, uma oscilação cambial não gera pressão duradoura nos preços. Se as expectativas estão soltas, aí sim cada movimento cambial se traduz em inflação.

O próprio Klein reconheceu em seu artigo um argumento alternativo sobre os juros reais, relacionado à taxa de poupança. Mas há uma nuance importante aqui. O argumento não é simplesmente que poupança baixa causa juros altos. É que desde que o Brasil acumulou reservas internacionais e o risco país caiu de 1.000 pontos para 150 pontos no CDS de cinco anos, o juro real passou a ser determinado pelo excesso de demanda sobre oferta no mercado de bens e serviços. A melhor forma de medir esse desequilíbrio é olhar para quanto o gasto primário do governo cresce acima do potencial da economia.

Esse ponto merece atenção porque há um argumento comum que parece refutar essa visão: durante o segundo mandato de Lula, o Brasil teve superávits primários elevados e ainda assim juros reais altos. Mas isso não prova que variáveis fiscais não importam. O que importa é o impacto adicional que o setor público tem sobre o balanço entre oferta e demanda. Um superávit primário pode coexistir com pressão fiscal se o gasto está crescendo mais rápido que o potencial, mesmo que o resultado final seja positivo.

O que fica claro é que a questão dos juros reais brasileiros não tem uma única resposta. A volatilidade cambial importa, mas seu efeito depende crucialmente de como as expectativas inflacionárias estão ancoradas. A política fiscal importa, mas não de forma simples e linear. O tema da assimetria cambial, como o próprio Klein reconheceu, precisa ser melhor investigado. E a pesquisa com microdados da FGV oferece um caminho promissor para entender não apenas se os mecanismos propostos funcionam, mas também em que condições funcionam.

A assimetria do repasse cambial não se confirma quando as expectativas estão ancoradas, indicando necessidade de investigação mais aprofundada
— Análise de pesquisa de Marco Bonomo e colaboradores
O que importa é o impacto adicional que o setor público tem sobre o balanço entre a oferta e a procura
— Argumento sobre política fiscal e formação de juros reais
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