Em meio à Serra Gaúcha, uma comunidade de pouco mais de 3,6 mil habitantes acaba de ser reconhecida pela ONU como representante brasileira em uma iniciativa global que celebra vilas capazes de unir turismo, cultura e sustentabilidade. Vila Flores não foi escolhida por monumentos ou infraestrutura, mas pela raridade de um modo de vida que persiste genuíno: a fé herdada de imigrantes italianos, o vinho produzido com canto gregoriano, os encontros comunitários onde ninguém encena porque aquilo é, simplesmente, a vida. O reconhecimento levanta uma questão mais ampla sobre o que, afinal, uma comuni
Vila Flores, cidade de 3,6 mil habitantes, é escolhida para representar Brasil em seleção da ONU
Não é porque Vila Flores é bonita. É porque conseguiu manter quem é.
Por que uma cidade tão pequena chamou a atenção de uma organização internacional como a ONU?
Porque Vila Flores conseguiu fazer algo que muitos lugares não conseguem: crescer turisticamente sem perder quem ela é. A fé, as tradições italianas, o vinho, os filós — tudo isso continua genuíno, não é um espetáculo montado para turista.
Mas como você mede isso? Como a ONU determinou que é "autêntico" e não encenado? Quem fez essa avaliação?
A diretora da associação de turismo fala em planejamento contínuo e projetos que atravessam gestões. Parece haver uma estrutura por trás disso.
E o que muda agora que Vila Flores foi escolhida? Qual é o impacto prático?
O reconhecimento coloca a cidade no mapa internacional. Mais turistas, mais interesse, mais oportunidades econômicas para quem vive lá.
Mas isso não corre o risco de destruir exatamente aquilo que a tornou especial? Se mais gente chegar, os filós continuam espontâneos?
É uma tensão real. A diretora fala em desenvolvimento sustentável, mas o documento não detalha como a cidade vai gerenciar um aumento de visitantes sem perder a autenticidade.
Então o reconhecimento é uma faca de dois gumes?
Pode ser. Depende de como Vila Flores navega os próximos anos. Tem a oportunidade de se tornar modelo, mas também o risco de se transformar em algo que não é mais.
E quanto aos números? 3,6 mil habitantes é muito pequeno para absorver turismo em larga escala. Não há informação sobre capacidade de infraestrutura ou limite de visitantes.
Então é um reconhecimento que vem com perguntas em aberto.
Exatamente. É um prêmio, mas também um desafio que a cidade ainda precisa aprender a enfrentar.
Le Pouls
- Uma cidade minúscula da Serra Gaúcha surpreende o cenário internacional ao ser selecionada pela ONU para representar o Brasil em iniciativa que reconhece vilas com turismo sustentável e identidade cultural autêntica.
- O desafio central de Vila Flores não é crescer, mas resistir: manter vivas tradições centenárias de imigrantes italianos — filós, capelas, vinhos e fé — sem transformá-las em espetáculo para turistas.
- A candidatura foi construída ao longo de anos de planejamento contínuo, superando trocas de gestão e apostando na autenticidade como diferencial competitivo frente a destinos com mais recursos e infraestrutura.
- O reconhecimento internacional abre uma janela de oportunidade para potencializar o turismo regional gaúcho e posicionar Vila Flores como modelo replicável para outras pequenas cidades brasileiras que buscam desenvolvimento sem perder a alma.
Em meio à Serra Gaúcha, uma comunidade de pouco mais de 3,6 mil habitantes acaba de ser reconhecida pela ONU como representante brasileira em uma iniciativa global que celebra vilas capazes de unir turismo, cultura e sustentabilidade. Vila Flores não foi escolhida por monumentos ou infraestrutura, mas pela raridade de um modo de vida que persiste genuíno: a fé herdada de imigrantes italianos, o vinho produzido com canto gregoriano, os encontros comunitários onde ninguém encena porque aquilo é, simplesmente, a vida. O reconhecimento levanta uma questão mais ampla sobre o que, afinal, uma comunidade precisa preservar para que o mundo queira conhecê-la.
Uma cidade de pouco mais de 3,6 mil habitantes encravada na Serra Gaúcha acaba de receber um reconhecimento raro: Vila Flores foi escolhida para representar o Brasil em uma iniciativa da ONU que identifica vilas capazes de equilibrar turismo, preservação cultural, inclusão social e sustentabilidade. O que chamou a atenção dos avaliadores não foram monumentos grandiosos, mas o tecido invisível do cotidiano — o pão assado em casarão centenário, o vinho produzido segundo métodos antigos, a fé transmitida de geração em geração.
A religiosidade é um dos pilares da identidade local. A Capela São Jorge, erguida há 131 anos por imigrantes italianos a partir de uma promessa feita em tempos de vendavais e infestação de gafanhotos, permanece preservada em pedra e barro. Aos 81 anos, Glória Zancanaro reza diariamente no Santuário Divino Pai Eterno, espaço que ela mesma idealizou — para ela, a fé não é prática isolada, mas alicerce de toda uma trajetória de vida.
A herança italiana pulsa nos filós, encontros comunitários onde moradores e visitantes compartilham histórias, música e comida ao redor de mesas fartas, com polenta e lampiões que recriam o cenário dos primeiros colonizadores. A artista Benedita Zandoná Ceccato resume a filosofia: não há encenação porque aquilo é um sistema de vida. A produção de vinho, iniciada com a chegada de freis capuchinhos franceses em 1896, segue o mesmo espírito — os freis ainda utilizam canto gregoriano nos ambientes de maturação, prática que, como brinca o frei José Lagni, faz bem ao vinho tanto quanto faz bem às pessoas.
Para Beatriz Paulus, diretora executiva da Associação de Turismo da Serra Nordeste, o diferencial de Vila Flores está na capacidade de preservar a própria identidade enquanto desenvolve turismo de forma planejada e contínua, transcendendo mudanças de gestão. O reconhecimento internacional, segundo ela, é também uma oportunidade para que o Rio Grande do Sul ganhe a notoriedade necessária para potencializar aquilo que o turismo brasileiro tem de mais distinto.
Uma cidade de pouco mais de 3,6 mil habitantes, encravada na Serra Gaúcha entre Veranópolis e Nova Prata, acaba de receber um reconhecimento que raramente chega a localidades tão pequenas. Vila Flores foi escolhida para representar o Brasil em uma iniciativa da Organização das Nações Unidas que identifica vilas e pequenas cidades capazes de equilibrar desenvolvimento turístico com preservação cultural, inclusão social e sustentabilidade. O que chamou a atenção dos avaliadores internacionais não foram monumentos grandiosos ou infraestrutura sofisticada, mas sim as coisas que tecem o dia a dia: o pão assado em um casarão centenário, o vinho produzido segundo métodos antigos, a fé transmitida de geração em geração, e um espírito comunitário que transforma quem chega de fora em parte de uma celebração coletiva.
A história de Vila Flores está profundamente marcada pela religiosidade de seus moradores. A Capela São Jorge, construída há 131 anos por imigrantes italianos, nasceu de uma promessa feita em tempos de dificuldade extrema, quando a região enfrentava vendavais devastadores e uma infestação de gafanhotos. Feita de pedra e barro, a estrutura permanece preservada e se tornou um dos símbolos mais importantes da comunidade. Aos 81 anos, Glória Zancanaro mantém o hábito diário de rezar no Santuário Divino Pai Eterno, um espaço que ela mesma idealizou e viabilizou a construção. Para ela, a fé não é apenas uma prática religiosa, mas o alicerce de uma trajetória que começou na infância e continua moldando a vida na cidade.
A herança italiana é celebrada de forma viva nos tradicionais filós, encontros comunitários que reúnem moradores e visitantes para compartilhar histórias, música, comida e costumes transmitidos ao longo dos séculos. Ao anoitecer, lampiões iluminam o ambiente e recriam o cenário que fazia parte do cotidiano dos primeiros colonizadores. A mesa é farta, a polenta ocupa lugar de destaque, e entre canções, brincadeiras e apresentações culturais, os visitantes conhecem a trajetória das famílias que construíram a região. O que distingue esses encontros é a espontaneidade genuína. A artista Benedita Zandoná Ceccato resume a filosofia local: não há encenação porque aquilo é um sistema de vida. O grupo está ali, alegre e espontâneo, exatamente como as pessoas são no dia a dia.
Outra tradição que marca a identidade de Vila Flores é a produção de vinho, uma atividade que começou há mais de um século com a chegada dos freis capuchinhos vindos do sul da França em 1896. O processo combina religiosidade, história e enoturismo de forma inseparável. Os freis utilizam canto gregoriano nos ambientes de maturação das bebidas, uma prática que, segundo brinca o frei José Lagni, faz bem ao vinho tanto quanto faz bem às pessoas. O enólogo Djair Galvan explica que a tradição foi sendo incorporada pelas famílias locais até se tornar parte importante da cultura. Com o passar do tempo, a atividade se profissionalizou, mas manteve a conexão com suas origens espirituais e históricas.
A candidatura de Vila Flores para o reconhecimento da ONU não foi construída sobre paisagens bonitas ou construções históricas isoladamente. De acordo com Beatriz Paulus, diretora executiva da Associação de Turismo da Serra Nordeste, o diferencial está na capacidade do município de preservar sua própria identidade enquanto desenvolve turismo de forma sustentável. A cidade reúne características que correspondem aos objetivos de desenvolvimento sustentável da própria ONU. Um dos principais diferenciais é justamente a preservação autêntica da cultura local, algo que Paulus descreve como extremamente original. Para alcançar isso, foi necessário um trabalho contínuo ao longo dos anos, baseado em planejamento e na manutenção de projetos que transcendem as mudanças de gestão. Paulus ressalta que o Rio Grande do Sul precisa dessa notoriedade internacional para potencializar aquilo que o turismo tem de distinto em todo o Brasil.
Citations marquantes
A tranquilidade, o próprio ar, as pessoas. Todo mundo se conhece. É um bom-dia, uma boa-tarde, como vai?— Benedita Zandoná Ceccato, artista local
Nós não precisamos ensaiar alguma coisa porque é um sistema de vida nosso. Tu pode ver o grupo ali, espontâneo, alegre. É assim que nós somos.— Benedita Zandoná Ceccato