Em menos de uma hora, jogadores podem perder milhares de euros; slots representam 79,2% das apostas online, com design agressivo que estimula comportamento compulsivo. Mentiras, manipulação e vergonha caracterizam o vício invisível; apenas 40% dos jogadores utilizam ferramentas de auto-exclusão apesar de 80% as conhecerem.
Viciados em jogo online: histórias de perda, mentiras e recuperação em Portugal
Dou graças a Deus por ter batido no fundo do poço
O que torna o jogo online tão diferente de outras formas de entretenimento que as pessoas conseguem perder milhares de euros em menos de uma hora?
A velocidade. Tudo é instantâneo. A aposta, o resultado, a próxima oportunidade. Não há tempo para pensar. E as plataformas sabem disto — usam notificações, bónus, feedback audiovisual. É tudo desenhado para manter a pessoa no jogo.
Mas as pessoas sabem que podem perder dinheiro. Porque é que prometem parar e depois voltam?
Porque quando tens vontade de jogar, desvalorizas as consequências futuras. Queres gratificação imediata. E se te auto-excluíres, recebes um email semanas depois a dizer que a conta foi reactivada. É um chip que te faz voltar. A mente viciada procura sempre uma brecha.
A auto-exclusão parece ser uma ferramenta importante, mas apenas 40% a usam apesar de 80% a conhecerem. Porquê?
Porque reconhecer que precisas de auto-exclusão é reconhecer que perdeste o controlo. E há vergonha nisso. Há culpa. O vício do jogo é invisível — não é como o álcool, que as pessoas veem. Por isso sofre de preconceito e as pessoas escondem-se.
Tiago e Susana ambos mentem aos seus. Como é que o segredo piora as coisas?
O segredo reduz o apoio social. Aumenta o isolamento. E paradoxalmente, quanto mais isolado estás, mais o jogo se torna um escape. É um ciclo que se alimenta a si próprio. Quando finalmente pedem ajuda, já perderam anos, dinheiro, relacionamentos.
O que é que a recuperação exige?
Exige voltar a sentir aquilo que o jogo tentou anestesiar. Exige comunidade, apoio entre pares, mecanismos para lidar com o vício. Exige viver um dia de cada vez. Não é rápido. Não é fácil. Mas é possível.
El Pulso
- 4,9 milhões de contas ativas em plataformas de jogo online em Portugal
- 297 milhões de euros em receita bruta no terceiro trimestre de 2025
- Slots representam 79,2% das apostas online
- Apenas 40% dos jogadores utilizam auto-exclusão apesar de 80% a conhecerem
- 64% dos estudantes portugueses apostaram em desportos no último ano (vs 55% média europeia)
Em menos de uma hora, jogadores podem perder milhares de euros; slots representam 79,2% das apostas online, com design agressivo que estimula comportamento compulsivo. Mentiras, manipulação e vergonha caracterizam o vício invisível; apenas 40% dos jogadores utilizam ferramentas de auto-exclusão apesar de 80% as conhecerem.
Portugal regista 4,9 milhões de contas ativas em plataformas de jogo online, gerando 297 milhões de euros em receita. Histórias de Tiago e Susana revelam como o vício transforma entretenimento em dependência devastadora com dívidas e isolamento.
Portugal tem 4,9 milhões de contas ativas em plataformas de jogo online. No terceiro trimestre de 2025, o sector gerou 297 milhões de euros em receita bruta. Para a maioria, é entretenimento. Para alguns, torna-se um abismo que engole dinheiro, relacionamentos e anos de vida.
Tiago tinha 18 anos quando entrou num casino pela primeira vez para celebrar o aniversário. Saiu com 250 euros nos bolsos — tinha entrado com 20. Aquela vitória inicial plantou uma ideia que o perseguiria durante anos: o jogo poderia ser uma fonte de rendimento estável. Quando a pandemia chegou, a ideia transformou-se em obsessão. Aos 25 anos, olhando para trás, Tiago reconhece que o período crítico era à noite. Jogava das nove da noite às nove da manhã. Em menos de uma hora conseguia fazer desaparecer cinco mil euros da sua conta. As slots ocupavam o silêncio das horas intermináveis. A dopamina, a adrenalina, a anestesia emocional — tudo isto o mantinha colado ao ecrã. As plataformas, segundo o psiquiatra Pedro Morgado, usam técnicas persuasivas agressivas: notificações constantes, bónus, missões, personalização. Encurtam o tempo entre aposta e resultado. Tudo é desenhado para manter a pessoa a jogar.
No Natal de 2022, Tiago recebeu dinheiro de familiares. Três dias depois, tinha perdido tudo. Saiu da mesa de jantar, foi ao multibanco, fez o depósito. A urgência era tanta que o tirou de onde estava. Tranquilizava-o saber que naquela noite teria dinheiro na conta para gastar à vontade. Com o tempo vieram as mentiras. Pedia dinheiro à avó sem dizer a verdade. Tentava proteger os pais porque o medo era desiludi-los. O secretismo é comum em vícios assim — uma tentativa de evitar consequências imediatas, conflitos, perda de confiança, restrições financeiras. Mas o secretismo reduz o apoio social, aumenta o isolamento, e paradoxalmente intensifica o jogo como escape.
Susana tinha 26 anos quando começou a apostar. Era durante a pandemia, quando o Placard e as apostas desportivas tiveram um boom. Sentia-se excluída vendo influenciadores e amigos a fazerem dinheiro com o jogo enquanto ela trabalhava turnos a fio sem grande retorno. Instalou a Betclic, recebeu um bónus inicial. De repente parecia brilhante — acertava em todos os jogos. Depois de vários meses, as slots tornaram-se o jogo de eleição. Nunca mais sentiu a mesma adrenalina. Os depósitos começaram baixos e esporádicos, mas os bónus da aplicação a incentivavam a apostar com frequência. Quando conseguiu resgatar 2500 euros, foi ao centro comercial e gastou metade em roupas. Era uma sensação de ostentação: agora podia. Acreditou que aquilo poderia ser o seu futuro. Nos primeiros meses teve 12 mil euros na conta. Entre Outubro e Dezembro perdeu tudo. O ordenado não chegava. Começou a recorrer a créditos do banco. Foi aí que percebeu que a relação com o jogo já não era saudável.
Tanto Tiago como Susana chegaram a pedir ajuda. Prometiam que iam parar. Recorreram às ferramentas de auto-exclusão, que permitem excluir a conta pelo tempo que definirem. Segundo estudos da Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online, cerca de 80% dos jogadores conhecem estas ferramentas. Apenas 40% as utilizam. A associação defende que os limites devem ser encarados como o cinto de segurança de um automóvel — não impedem a condução, mas reduzem o risco quando algo corre mal. Mas as barreiras tecnológicas têm um limite claro. Quando alguém se auto-exclui mas procura continuar a jogar, acaba por entrar no pior caminho possível. Foi o caso de Tiago. Com as portas do mercado regulado fechadas, encontrou alternativas no mercado ilegal. Tinha mais de 50 contas em casas de jogos online. Quando o período de auto-exclusão terminava e recebia emails a lembrar que a conta havia sido reactivada, era um chip que o fazia voltar.
Tiago jogou pela última vez em Agosto de 2025. A namorada tinha uma caixa onde guardava dinheiro de ocasiões especiais. Em alturas em que o dinheiro já não era suficiente, começou por tirar uma nota de 20 euros. Pensava que teria tempo de repor. Um dia acordou com a namorada a remexer na caixa, preocupada, a perguntar pelo dinheiro. Ficou parado, estático, só a olhar para ela. Naquele momento pensou ter perdido uma relação de quase nove anos, o emprego e a confiança dos pais. Procurou ajuda numa comunidade de apoio baseada na partilha entre pares. Dá graças a Deus por ter batido no fundo do poço. Susana descreve o vício como a perda de muitos valores, da essência e daquilo que se tem como perspectiva. Magoaram muitas pessoas à sua volta. Os primeiros meses de recuperação foram duros. Não dormia e tinha dores no corpo. Parecia abstinência de drogas. Com uma dívida de 40 mil euros, voltar a sentir é difícil. Mas a aprendizagem de mecanismos para lidar com o vício é um passo importante. Tiago está em recuperação há seis meses. Vive um dia de cada vez. Hoje, quando se for deitar, vai estar agradecido porque esteve mais um dia sem jogar.
Citas Notables
Em menos de uma hora era capaz de fazer desaparecer cinco mil euros— Tiago, sobre a velocidade das perdas no jogo online
O jogo deixa de ser mero entretenimento quando passa a dominar a vida da pessoa e quando a perda de controlo expressa uma dificuldade em parar— Pedro Morgado, psiquiatra