Aplicativos como Endless Summer e FakeTravel.net permitem gerar fotos realistas em segundos, bastando enviar uma selfie e descrever o cenário desejado, com custos entre R$ 29,90 e R$ 299,90. A prática reflete a economia da performance digital, onde visibilidade funciona como capital simbólico, especialmente entre usuários de renda média e baixa que buscam escapismo de realidades inacessíveis.
Viagens fictícias: por que milhões usam IA para simular experiências turísticas nas redes sociais
O valor não está no que você viveu, mas no que consegue mostrar
Por que alguém pagaria para postar uma foto de uma viagem que nunca fez?
Porque a foto não é sobre a viagem. É sobre o que você consegue mostrar. Numa rede social, o que importa é a visibilidade, não a verdade.
Mas as pessoas não percebem que é falso?
Muitas percebem. Mas há algo de lúdico nisso — é como folhear uma revista ou assistir a um clipe. Abre a mente para possibilidades, te faz sonhar por um instante.
E quem não percebe? Quem acredita que a pessoa realmente viajou?
Aí está o problema. Especialmente para quem tem menos acesso a essas ferramentas. Quem sabe usar bem a IA consegue construir imagens mais críveis. Quem não sabe fica vulnerável a julgamentos morais.
Qual é o risco real disso tudo?
Não é só a confiança nas redes. Quando você envia uma selfie para gerar essas imagens, você está compartilhando seu registro biométrico. Essas empresas podem usar seus dados para treinar modelos, e você provavelmente nunca vai saber como.
Então é um problema de privacidade?
É também. Mas é mais profundo. É sobre como a gente vai confiar em qualquer imagem daqui para frente. Se tudo pode ser falso, como a gente sabe o que é real?
E o que fazer?
Precisamos de padrões de transparência, de metadados que rastreiem a origem das imagens. Mas a tecnologia está avançando muito mais rápido que a regulação consegue acompanhar.
The Pulse
- Aplicativos como Endless Summer geraram mais de 30 mil fotos nos primeiros 30 dias
- Grupo no Facebook com 30 mil indonésios compartilhando fotos geradas por IA em cenários europeus
- Custos variam de R$ 29,90 por 30 fotos a R$ 299,90 por 300 fotos
- FakeTravel.net criou mais de 500 mil imagens para 15 mil pessoas
Aplicativos como Endless Summer e FakeTravel.net permitem gerar fotos realistas em segundos, bastando enviar uma selfie e descrever o cenário desejado, com custos entre R$ 29,90 e R$ 299,90. A prática reflete a economia da performance digital, onde visibilidade funciona como capital simbólico, especialmente entre usuários de renda média e baixa que buscam escapismo de realidades inacessíveis.
Usuários utilizam aplicativos de inteligência artificial para criar imagens fictícias de viagens e experiências nunca vividas, compartilhando-as em redes sociais como se fossem reais, alimentando uma tendência global de escapismo digital.
Abra o aplicativo, envie uma selfie, escreva algumas linhas descrevendo o cenário que deseja, e em segundos você está tomando café da manhã num hotel grego ou posando ao volante de uma Ferrari numa estrada italiana. Não é preciso ter viajado para lugar nenhum. Não é preciso ser rico. Basta ter um smartphone e alguns reais no bolso.
Essa é a realidade de milhões de pessoas que descobriram como a inteligência artificial pode transformar suas vidas digitais. Aplicativos como o Endless Summer, lançado em outubro na Apple Store pelo designer Laurent Del Rey, prometem gerar fotos fictícias de férias "para quando o burnout bater e você precisar manifestar a vida tranquila que merece". O usuário recebe três imagens gratuitas com filtros temáticos que simulam diferentes cenários — desde a estética vintage ensolarada até o clima de férias ao ar livre. A partir da quarta imagem, paga-se entre R$ 29,90 por 30 fotos e R$ 299,90 por 300. Nos primeiros 30 dias, o app gerou mais de 30 mil fotos.
O Endless Summer não está sozinho. O FakeTravel.net promete "dar vida aos destinos dos sonhos", oferecendo pontos turísticos do Louvre a Machu Picchu, passando por Times Square e Taj Mahal. O Fieldtrip – AI Travel Photos se vende como uma forma de "viajar pelo mundo sem sair do sofá". Comunidades inteiras surgiram dedicadas a esse tipo de conteúdo. No Facebook, grupos como "AI Prompt Party", com mais de 460 mil membros, reúnem pessoas compartilhando não apenas as imagens geradas, mas também os comandos de texto — os prompts — que usaram para alcançar o resultado. Um desenvolvedor que consultou a OpenAI identificou um grupo no Facebook com 30 mil membros de indonésios de renda média e baixa compartilhando fotos em cenários luxuosos de cidades europeias, dividindo a cena com sonhos de consumo como Lamborghinis e bolsas Gucci. "É triste e fascinante ao mesmo tempo que o uso da IA tenha se tornado uma forma de escapismo, permitindo que as pessoas experimentem vidas que provavelmente nunca viverão", escreveu ele.
A tendência também alcançou o Brasil. Perfis de jovens cearenses e paulistas misturam fotos reais com imagens geradas por IA de supostas viagens a Paris, Dubai e Tóquio. Influenciadores do nicho materno ensinam seus seguidores os comandos para replicar "experiências profissionais digitais" — fotos que fariam se fossem médicas, arquitetas ou em ensaios sintéticos de Natal em família. Uma delas resume a estratégia: "Foto bonita? Não. Foto estratégica".
Para o antropólogo David Nemer, esse fenômeno diz muito mais sobre a cultura digital contemporânea do que sobre falsidade. Ele aponta o conceito de economia da performance, em que a visibilidade digital funciona como capital simbólico. O valor não está no que você viveu, mas no que consegue mostrar. A lógica já existia com filtros e programas de edição, mas agora muda a escala e a facilidade. Nemer também destaca como isso reforça desigualdades: quem tem mais repertório digital, literacia tecnológica e familiaridade com IA consegue manipular melhor essas ferramentas e construir imagens mais críveis, enquanto outros ficam excluídos ou vulneráveis a julgamentos morais.
Mas há riscos crescentes. Especialistas apontam que muitas ferramentas de IA são treinadas com bancos de imagens que incluem obras protegidas por direito autoral. Ao gerar uma foto pessoal com certo estilo, o usuário pode, sem perceber, incorporar elementos derivados desses acervos. Há também preocupações com privacidade: a maioria das pessoas não sabe como suas selfies são tratadas, armazenadas ou reutilizadas para treinar modelos. Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, alerta que mesmo quando você acha que está apenas melhorando sua aparência, pode estar permitindo acesso ao seu registro biométrico de forma profunda, rastreável e provavelmente irreversível — dados que podem ser usados por criminosos para acessar sistemas de reconhecimento facial, clonagem de identidade e até golpes com deepfakes.
O avanço das imagens sintéticas também afeta a relação entre marcas, profissionais e consumidores. Quando a evidência fotográfica perde valor social por se tornar fácil de falsificar, espectadores e mercados precisam criar novos sinais de confiança. Isso deve levar a mudanças institucionais em verificação, rotulagem e regulação. Especialistas sugerem padrões mínimos de transparência técnica, como mecanismos globais de autenticação de conteúdo — os padrões C2PA, um conjunto de normas que insere metadados verificáveis sobre origem e histórico de edição das imagens. Não elimina o problema, mas dá rastreabilidade. Enquanto isso, a tecnologia avança muito mais rápido do que o debate regulatório consegue acompanhar.
Notable Quotes
É triste e fascinante ao mesmo tempo que o uso da IA tenha se tornado uma forma de escapismo, permitindo que as pessoas experimentem vidas que provavelmente nunca viverão— Desenvolvedor Timothy Wijaya, consultor da OpenAI
Foto bonita? Não. Foto estratégica— Influenciadora brasileira do nicho materno