Ceni durou 47 dias no Cruzeiro após criticar idade dos veteranos; goleiro Fábio questionou treinador em reunião que marcou o início do conflito. Veteranos como Fred, Dedé, Robinho e Thiago Neves acionaram Justiça do Trabalho por dívidas salariais que somam aproximadamente R$ 95 milhões.
Veteranos que derrubaram Ceni no Cruzeiro seguem unidos; veja onde estão agora
Não tem como todos jogarem ao mesmo tempo, disse Ceni
Por que a reunião inicial com Ceni se tornou tão importante? Parecia ser apenas uma conversa de trabalho.
Porque Ceni não apenas apresentou uma estratégia — ele apontou nominalmente seis jogadores como problema. Não disse "precisamos rejuvenescer". Disse "vocês, especificamente, são o problema". Para homens que acabavam de conquistar dois títulos, foi uma humilhação.
E Fábio questionou na hora?
Sim. Como capitão, ele lembrou que aquele elenco tinha acabado de vencer. Não era um grupo fracassado. Era um grupo que tinha acabado de ganhar. A resposta de Ceni foi basicamente: não importa, vocês estão velhos.
Mas Ceni tinha razão tecnicamente? O time estava rebaixado.
Tinha razão, mas perdeu a batalha política. Sem o apoio dos líderes do vestiário, sem respaldo da diretoria, um treinador não consegue fazer nada. Ceni descobriu isso em 47 dias.
O que mais choca é que esses jogadores continuam amigos.
Exatamente. Passaram por rebaixamento juntos, sofreram humilhação juntos, foram deixados sem salário juntos. Isso une. Fred ajudou Fábio a sair do Cruzeiro para um lugar melhor. Essa lealdade é rara.
E agora cobram quase R$ 100 milhões na Justiça.
Porque o Cruzeiro não pagou. Esses não eram jogadores jovens que podiam esperar. Tinham 30, 40 anos. Precisavam do dinheiro. A Justiça virou a única ferramenta que tinham.
Thiago Neves é o que mais sofreu, certo?
Sim. O pênalti perdido contra o CSA, os áudios polêmicos, a postura fora de campo — tudo apagou o que ele fez de bom. Está sem clube. Os outros encontraram caminho, mesmo que difícil. Thiago não.
The Pulse
- Rogério Ceni durou 47 dias no Cruzeiro em 2019
- Veteranos cobram aproximadamente R$ 95 milhões do clube na Justiça do Trabalho
- Ceni apontou nominalmente seis jogadores como problema na primeira reunião
- Goleiro Fábio era capitão e questionou o treinador imediatamente
Ceni durou 47 dias no Cruzeiro após criticar idade dos veteranos; goleiro Fábio questionou treinador em reunião que marcou o início do conflito. Veteranos como Fred, Dedé, Robinho e Thiago Neves acionaram Justiça do Trabalho por dívidas salariais que somam aproximadamente R$ 95 milhões.
Jogadores experientes do Cruzeiro que confrontaram Rogério Ceni em 2019 permanecem unidos e cobram quase R$ 100 milhões do clube na Justiça; reportagem acompanha paradeiro de cada um.
Em 2019, o Cruzeiro enfrentava o rebaixamento à Série B. O clube havia conquistado a Copa do Brasil em 2017 e 2018, mas chegava à temporada seguinte em crise. Rogério Ceni foi contratado para tentar salvar o time, mas sua passagem durou apenas 47 dias — menos de dois meses que deixariam cicatrizes profundas.
Tudo começou em uma reunião inicial entre o treinador recém-chegado e o elenco. Ceni apontou nominalmente seis jogadores experientes como problema: o lateral direito Edilson, o zagueiro Dedé, o lateral esquerdo Egídio, os meias Robinho e Thiago Neves, e o atacante Fred. Todos passavam dos 30 anos e eram líderes do grupo. "Não tem como todos jogarem ao mesmo tempo", disse Ceni, deixando claro que pretendia rejuvenescer o time. O goleiro Fábio, capitão da equipe, questionou imediatamente a posição do treinador. Como podia criticar jogadores que acabavam de conquistar dois títulos seguidos? A tensão estava instalada.
Ceni queria dar mais força física ao time, que estava na 17ª posição com apenas 11 pontos após 14 rodadas. O começo foi promissor — sete pontos em nove disputados. Mas o desempenho desabou nos quatro jogos seguintes: três derrotas e um empate. Sem o prestígio dos atletas e sem respaldo da diretoria, o treinador perdeu o comando do vestiário. Saiu após um empate sem gols com o Ceará, pela 21ª rodada. O Cruzeiro continuava na 17ª posição, exatamente onde estava quando Ceni chegou.
Mas a história não terminou ali. Os veteranos que confrontaram Ceni permaneceram unidos, ligados pela história compartilhada de títulos e temporadas juntos. Um exemplo claro: quando o goleiro Fábio foi dispensado pela gestão de Ronaldo Nazário, estava próximo de assinar com o América-MG. Fred entrou em ação e ajudou para que Fábio fosse para o Fluminense em vez do Coelho. Amizade que prevalecia.
O que não prevaleceu foi o pagamento de salários. Os veteranos de 2019 carregavam contratos caros e o Cruzeiro não conseguiu honrá-los. Acionaram a Justiça do Trabalho. Dedé cobra mais de R$ 17 milhões após atrasos em parcelas de um acordo anterior. Fred parcelou R$ 25 milhões em até cinco anos. Egídio cobra R$ 4,3 milhões, Robinho R$ 4 milhões, Thiago Neves R$ 16 milhões. O lateral direito Edilson ganhou uma ação de R$ 8 milhões. O goleiro Fábio, ainda sem ação formalizada, teve seus advogados enviarem notificação extrajudicial cobrando R$ 20 milhões. Somadas todas as cobranças dos veteranos de 2019, o total chega a quase R$ 100 milhões. Até Rogério Ceni entrou na fila: recebeu apenas 47 dias de salário e tinha direito a multa rescisória de R$ 1,5 milhão, ação que corre em segredo de Justiça.
Para onde foram esses jogadores? Ceni voltou ao Fortaleza, depois foi para o Flamengo — onde conquistou Brasileirão, Supercopa e Carioca — e agora está no São Paulo. Fábio seguiu no Cruzeiro por mais duas temporadas antes de ir para o Fluminense. Edilson foi para o Goiás, sofreu outro rebaixamento em 2020, subiu com o Avaí e agora está no Grêmio. Dedé ficou mais de dois anos parado por lesão no joelho, retornou em 2022 pela Ponte Preta e depois acertou com o Athletico-PR. Egídio passou pelo Fluminense e agora está no Coritiba. Robinho permaneceu no Cruzeiro por um tempo, depois foi para o Grêmio e Coritiba, onde ajudou na volta à Série A. Fred, um dos maiores goleadores do Brasileirão, voltou ao Fluminense em 2020 e está próximo de se aposentar. Thiago Neves segue sem clube, marcado para sempre pelo pênalti perdido contra o CSA e pelos áudios polêmicos daquele ano de 2019.
Quase três anos depois, a mágoa com Rogério Ceni ainda ecoa nas entrevistas dos veteranos. Mas a união que construíram permanece, mesmo que dispersos por clubes diferentes, alguns subindo à Série A, outros enfrentando novo rebaixamento, todos carregando as dívidas de um clube que não conseguiu pagar.
Notable Quotes
Não tem como todos jogarem ao mesmo tempo— Rogério Ceni, em reunião com o elenco do Cruzeiro