Veteranos que derrubaram Ceni no Cruzeiro seguem unidos; veja onde estão agora

Jogadores experientes tiveram carreiras impactadas pelo rebaixamento de 2019 e enfrentam atrasos salariais que resultaram em ações judiciais coletivas.
Não tem como todos jogarem ao mesmo tempo, disse Ceni
Frase que marcou o início do conflito entre o treinador e os veteranos do Cruzeiro em 2019.
Mark

Por que a reunião inicial com Ceni se tornou tão importante? Parecia ser apenas uma conversa de trabalho.

Mimi

Porque Ceni não apenas apresentou uma estratégia — ele apontou nominalmente seis jogadores como problema. Não disse "precisamos rejuvenescer". Disse "vocês, especificamente, são o problema". Para homens que acabavam de conquistar dois títulos, foi uma humilhação.

Mark

E Fábio questionou na hora?

Mimi

Sim. Como capitão, ele lembrou que aquele elenco tinha acabado de vencer. Não era um grupo fracassado. Era um grupo que tinha acabado de ganhar. A resposta de Ceni foi basicamente: não importa, vocês estão velhos.

Mark

Mas Ceni tinha razão tecnicamente? O time estava rebaixado.

Mimi

Tinha razão, mas perdeu a batalha política. Sem o apoio dos líderes do vestiário, sem respaldo da diretoria, um treinador não consegue fazer nada. Ceni descobriu isso em 47 dias.

Mark

O que mais choca é que esses jogadores continuam amigos.

Mimi

Exatamente. Passaram por rebaixamento juntos, sofreram humilhação juntos, foram deixados sem salário juntos. Isso une. Fred ajudou Fábio a sair do Cruzeiro para um lugar melhor. Essa lealdade é rara.

Mark

E agora cobram quase R$ 100 milhões na Justiça.

Mimi

Porque o Cruzeiro não pagou. Esses não eram jogadores jovens que podiam esperar. Tinham 30, 40 anos. Precisavam do dinheiro. A Justiça virou a única ferramenta que tinham.

Mark

Thiago Neves é o que mais sofreu, certo?

Mimi

Sim. O pênalti perdido contra o CSA, os áudios polêmicos, a postura fora de campo — tudo apagou o que ele fez de bom. Está sem clube. Os outros encontraram caminho, mesmo que difícil. Thiago não.

  • Rogério Ceni durou 47 dias no Cruzeiro em 2019
  • Veteranos cobram aproximadamente R$ 95 milhões do clube na Justiça do Trabalho
  • Ceni apontou nominalmente seis jogadores como problema na primeira reunião
  • Goleiro Fábio era capitão e questionou o treinador imediatamente

Ceni durou 47 dias no Cruzeiro após criticar idade dos veteranos; goleiro Fábio questionou treinador em reunião que marcou o início do conflito. Veteranos como Fred, Dedé, Robinho e Thiago Neves acionaram Justiça do Trabalho por dívidas salariais que somam aproximadamente R$ 95 milhões.

Jogadores experientes do Cruzeiro que confrontaram Rogério Ceni em 2019 permanecem unidos e cobram quase R$ 100 milhões do clube na Justiça; reportagem acompanha paradeiro de cada um.

Em 2019, o Cruzeiro enfrentava o rebaixamento à Série B. O clube havia conquistado a Copa do Brasil em 2017 e 2018, mas chegava à temporada seguinte em crise. Rogério Ceni foi contratado para tentar salvar o time, mas sua passagem durou apenas 47 dias — menos de dois meses que deixariam cicatrizes profundas.

Tudo começou em uma reunião inicial entre o treinador recém-chegado e o elenco. Ceni apontou nominalmente seis jogadores experientes como problema: o lateral direito Edilson, o zagueiro Dedé, o lateral esquerdo Egídio, os meias Robinho e Thiago Neves, e o atacante Fred. Todos passavam dos 30 anos e eram líderes do grupo. "Não tem como todos jogarem ao mesmo tempo", disse Ceni, deixando claro que pretendia rejuvenescer o time. O goleiro Fábio, capitão da equipe, questionou imediatamente a posição do treinador. Como podia criticar jogadores que acabavam de conquistar dois títulos seguidos? A tensão estava instalada.

Ceni queria dar mais força física ao time, que estava na 17ª posição com apenas 11 pontos após 14 rodadas. O começo foi promissor — sete pontos em nove disputados. Mas o desempenho desabou nos quatro jogos seguintes: três derrotas e um empate. Sem o prestígio dos atletas e sem respaldo da diretoria, o treinador perdeu o comando do vestiário. Saiu após um empate sem gols com o Ceará, pela 21ª rodada. O Cruzeiro continuava na 17ª posição, exatamente onde estava quando Ceni chegou.

Mas a história não terminou ali. Os veteranos que confrontaram Ceni permaneceram unidos, ligados pela história compartilhada de títulos e temporadas juntos. Um exemplo claro: quando o goleiro Fábio foi dispensado pela gestão de Ronaldo Nazário, estava próximo de assinar com o América-MG. Fred entrou em ação e ajudou para que Fábio fosse para o Fluminense em vez do Coelho. Amizade que prevalecia.

O que não prevaleceu foi o pagamento de salários. Os veteranos de 2019 carregavam contratos caros e o Cruzeiro não conseguiu honrá-los. Acionaram a Justiça do Trabalho. Dedé cobra mais de R$ 17 milhões após atrasos em parcelas de um acordo anterior. Fred parcelou R$ 25 milhões em até cinco anos. Egídio cobra R$ 4,3 milhões, Robinho R$ 4 milhões, Thiago Neves R$ 16 milhões. O lateral direito Edilson ganhou uma ação de R$ 8 milhões. O goleiro Fábio, ainda sem ação formalizada, teve seus advogados enviarem notificação extrajudicial cobrando R$ 20 milhões. Somadas todas as cobranças dos veteranos de 2019, o total chega a quase R$ 100 milhões. Até Rogério Ceni entrou na fila: recebeu apenas 47 dias de salário e tinha direito a multa rescisória de R$ 1,5 milhão, ação que corre em segredo de Justiça.

Para onde foram esses jogadores? Ceni voltou ao Fortaleza, depois foi para o Flamengo — onde conquistou Brasileirão, Supercopa e Carioca — e agora está no São Paulo. Fábio seguiu no Cruzeiro por mais duas temporadas antes de ir para o Fluminense. Edilson foi para o Goiás, sofreu outro rebaixamento em 2020, subiu com o Avaí e agora está no Grêmio. Dedé ficou mais de dois anos parado por lesão no joelho, retornou em 2022 pela Ponte Preta e depois acertou com o Athletico-PR. Egídio passou pelo Fluminense e agora está no Coritiba. Robinho permaneceu no Cruzeiro por um tempo, depois foi para o Grêmio e Coritiba, onde ajudou na volta à Série A. Fred, um dos maiores goleadores do Brasileirão, voltou ao Fluminense em 2020 e está próximo de se aposentar. Thiago Neves segue sem clube, marcado para sempre pelo pênalti perdido contra o CSA e pelos áudios polêmicos daquele ano de 2019.

Quase três anos depois, a mágoa com Rogério Ceni ainda ecoa nas entrevistas dos veteranos. Mas a união que construíram permanece, mesmo que dispersos por clubes diferentes, alguns subindo à Série A, outros enfrentando novo rebaixamento, todos carregando as dívidas de um clube que não conseguiu pagar.

Não tem como todos jogarem ao mesmo tempo
— Rogério Ceni, em reunião com o elenco do Cruzeiro
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