Aceitar a proposta seria admitir que tem presos políticos
Bukele ofereceu repatriar 252 venezuelanos detidos em El Salvador em troca de igual número de presos políticos, incluindo jornalistas e ativistas de direitos humanos. Venezuela nega ter presos políticos e afirma que os detidos cometeram crimes; ONGs estimam mais de 800 pessoas encarceradas por razões políticas no país.
- 252 venezuelanos deportados pelos EUA estão detidos em El Salvador no Cecot
- Bukele propôs trocar esses 252 por igual número de presos políticos na Venezuela
- ONGs estimam mais de 800 pessoas encarceradas por razões políticas na Venezuela
- Suprema Corte dos EUA bloqueou temporariamente novas deportações de venezuelanos em abril de 2025
- EUA pagam 6 milhões de dólares a El Salvador para manter os detidos
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, propôs trocar 252 venezuelanos deportados pelos EUA por presos políticos na Venezuela. O procurador-geral venezuelano rejeitou a oferta, classificando-a como cínica e acusando El Salvador de deter ilegalmente os cidadãos.
No domingo de abril, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, fez uma proposta direta ao governo venezuelano: devolver 252 cidadãos venezuelanos que os Estados Unidos havia deportado para seu país, em troca da libertação de um número igual de pessoas que ele chamou de presos políticos. A oferta incluía também quase 50 detidos de outras nacionalidades — norte-americanos, alemães, franceses — e Bukele sinalizou que seu Ministério das Relações Exteriores enviaria uma correspondência formal a Caracas.
A resposta de Caracas veio rápida e áspera. Tarek William Saab, procurador-geral da Venezuela, rejeitou a proposta classificando-a como "cínica". Em comunicado, seu órgão acusou El Salvador de deter ilegalmente os 252 venezuelanos e dirigiu-se a Bukele como "neofascista", afirmando que o tratamento dado aos cidadãos venezuelanos nos Estados Unidos e em El Salvador constitui grave violação do direito internacional humanitário e configura crime contra a humanidade. Saab exigiu esclarecimentos básicos: quais crimes os detidos são acusados, se compareceram perante um juiz, se têm acesso a defesa legal e se podem contatar familiares.
O contexto que alimenta essa troca de acusações remonta a março de 2025, quando o governo Trump deportou aproximadamente 200 venezuelanos dos Estados Unidos para El Salvador, acusando-os de serem membros da gangue Tren de Aragua. Os deportados foram levados para o Cecot, um centro de confinamento de segurança máxima, e os EUA pagam 6 milhões de dólares a El Salvador para mantê-los detidos. Mas autoridades venezuelanas, familiares e advogados dos imigrantes contestam essa acusação. Veículos de imprensa norte-americanos que tiveram acesso a documentos do governo Trump relatam que a maioria do grupo não possui antecedentes criminais.
A proposta de Bukele incluía nomes específicos de pessoas que ele quer ver libertas na Venezuela. Entre eles estão o jornalista Roland Carreno, a advogada de direitos humanos Rocio San Miguel, Rafael Tudares — genro do candidato presidencial Edmundo González — e Corina Parisca de Machado, mãe da opositora María Corina Machado. A oferta recebeu apoio do enviado especial dos EUA para resposta a reféns, Adam Boehler, que destacou que dez norte-americanos estão entre os propostos para a troca.
O governo venezuelano nega categoricamente ter prisioneiros políticos, afirmando que todas as pessoas encarceradas foram condenadas por crimes. Mas organizações não-governamentais estimam que mais de 800 pessoas estão detidas por razões políticas na Venezuela — um número que contrasta radicalmente com a posição oficial de Caracas. Essa discrepância está no cerne da disputa: enquanto Bukele apela a uma lógica humanitária de troca, Saab rejeita a premissa de que existam presos políticos para trocar.
O cenário ganhou uma nova dimensão no sábado anterior à proposta de Bukele. A Suprema Corte dos Estados Unidos bloqueou temporariamente o governo Trump de deportar outro grupo de imigrantes venezuelanos acusados de ligações com gangues sob uma lei de tempos de guerra raramente utilizada. A corte emitiu uma suspensão depois que a ACLU — União Americana pelas Liberdades Civis — solicitou intervenção em caráter de emergência. Esse bloqueio judicial sugere que a questão das deportações e das acusações contra os deportados pode estar longe de ser resolvida, e que a proposta de Bukele, por mais que seja enquadrada como humanitária, ocorre em um terreno jurídico e diplomático altamente contestado.
Citações Notáveis
Quero propor um acordo humanitário que inclua a repatriação de 100% dos 252 venezuelanos que foram deportados, em troca da libertação e entrega de um número idêntico dos milhares de presos políticos que vocês mantêm— Nayib Bukele, presidente de El Salvador
O tratamento recebido por venezuelanos nos Estados Unidos e em El Salvador constitui grave violação do direito internacional humanitário e configura crime contra a humanidade— Tarek William Saab, procurador-geral da Venezuela
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Bukele fez essa proposta agora, e por que a Venezuela a rejeitou tão rapidamente?
Bukele está tentando resolver um problema doméstico — El Salvador está preso com 252 detidos que os EUA pagou para ele guardar, e que as autoridades venezuelanas dizem que não são criminosos. É uma oferta que soa humanitária, mas que também tira El Salvador de uma situação incômoda. A Venezuela rejeitou porque aceitar a proposta seria admitir que tem presos políticos, o que contradiz a narrativa oficial de Maduro.
Mas há realmente presos políticos na Venezuela?
Depende de quem você pergunta. O governo diz que não, que todos foram condenados por crimes. Mas organizações de direitos humanos documentam mais de 800 pessoas encarceradas por razões políticas. Os nomes que Bukele citou — jornalistas, advogadas de direitos humanos, familiares de opositores — são pessoas que a comunidade internacional vê como prisioneiras de consciência.
E quanto aos venezuelanos detidos em El Salvador? Eles realmente são membros de gangues?
Isso é o que os EUA alegou quando os deportou. Mas advogados, familiares e até veículos de imprensa norte-americanos que viram os documentos do governo Trump dizem que a maioria não tem antecedentes criminais. A Suprema Corte dos EUA bloqueou novas deportações com base em acusações similares, o que sugere que há sérias dúvidas sobre a validade dessas alegações.
Então ambos os lados estão acusando o outro de deter pessoas ilegalmente?
Exatamente. Bukele diz que a Venezuela tem presos políticos. Saab diz que El Salvador está detendo ilegalmente venezuelanos. E os EUA estão no meio, pagando El Salvador para guardar pessoas cuja culpa não está clara. É um impasse onde ninguém quer ceder primeiro.
O que muda se a Suprema Corte dos EUA continuar bloqueando essas deportações?
Muda tudo. Se os EUA não podem mais deportar venezuelanos para El Salvador, então a proposta de Bukele perde seu fundamento. El Salvador fica com 252 detidos que não pode enviar de volta, e a pressão diplomática muda de direção. Maduro pode se recusar a negociar indefinidamente se souber que o problema vai desaparecer por conta própria.