Entre 2016 e 2023, pesquisadores brasileiros documentaram o que a ciência prometia: a vacina contra o HPV reduziu à metade a circulação dos principais tipos do vírus entre jovens do país. O maior estudo da América Latina sobre o tema revela que a proteção é real, mensurável e se estende até quem não foi vacinado — mas também expõe uma lacuna preocupante na cobertura, especialmente entre meninos, lembrando que nenhuma conquista em saúde pública se sustenta sem adesão coletiva.
Vacinação reduz prevalência de HPV à metade entre jovens brasileiros
A vacina funciona, mas precisa atingir mais pessoas
Por que esse estudo é considerado o maior da América Latina sobre eficácia da vacina HPV?
Porque combinou um número muito grande de participantes — mais de 10 mil na segunda fase — com um acompanhamento longitudinal real. Não é apenas um levantamento pontual; é uma comparação entre dois períodos distintos, o que permite ver o impacto real da vacinação em larga escala.
A queda de 14,98% para 7,95% é significativa, mas por que ainda há tanta infecção?
Porque a cobertura vacinal está muito abaixo do ideal. Se 61,8% das meninas e apenas 31,1% dos meninos foram vacinados, quando o recomendado é 90%, há muita gente ainda circulando sem proteção. A vacina funciona, mas precisa atingir mais pessoas.
O efeito rebanho apareceu entre as mulheres mas não entre os homens. Por quê?
Exatamente porque a cobertura entre meninas foi maior. Quando você vacina mais de 60% de um grupo, começa a haver proteção indireta para os não vacinados. Entre meninos, com apenas 31% vacinados, não se atingiu o limiar necessário para esse efeito acontecer.
E quanto ao esquema de uma dose que o SUS adotou em 2024?
O estudo mostra que funciona. Não houve diferença na prevalência do vírus entre pessoas que receberam uma, duas ou três doses. Isso simplifica muito a logística de vacinação e aumenta a chance de mais gente completar o esquema.
Por que os meninos recebem menos incentivo à vacinação?
Porque historicamente o HPV foi associado ao câncer do colo do útero, uma doença que afeta mulheres. Mas o vírus causa câncer em homens também — em pênis, ânus e garganta. Essa percepção distorcida ainda influencia as políticas de saúde e o comportamento das famílias.
O que muda agora com esses resultados?
Muda a evidência de que a vacina realmente funciona em escala populacional. Agora o desafio é aumentar a cobertura, especialmente entre meninos, e manter o momentum da vacinação para que o efeito rebanho se expanda.
O Pulso
- A prevalência dos quatro tipos de HPV cobertos pela vacina despencou de 15,6% para 3,1% entre mulheres vacinadas — uma queda que transforma estatística em esperança concreta contra o câncer.
- Mesmo mulheres não vacinadas apresentaram redução na infecção, evidenciando o efeito rebanho, mas entre os homens esse fenômeno não se repetiu devido à baixa adesão masculina.
- Apenas 31,1% dos meninos foram vacinados, muito abaixo da meta de 90%, em parte porque o HPV ainda é visto culturalmente como 'doença de mulher', deixando uma parcela enorme da população desprotegida.
- O SUS simplificou o protocolo para uma única dose em 2024, e o estudo confirma que essa estratégia é eficaz — abrindo caminho para ampliar o alcance da vacinação sem perda de proteção.
- O desafio agora é político e cultural: os dados provam que a vacina funciona, mas a ciência sozinha não vacina ninguém — é preciso vontade coletiva para fechar a lacuna que ainda persiste.
Entre 2016 e 2023, pesquisadores brasileiros documentaram o que a ciência prometia: a vacina contra o HPV reduziu à metade a circulação dos principais tipos do vírus entre jovens do país. O maior estudo da América Latina sobre o tema revela que a proteção é real, mensurável e se estende até quem não foi vacinado — mas também expõe uma lacuna preocupante na cobertura, especialmente entre meninos, lembrando que nenhuma conquista em saúde pública se sustenta sem adesão coletiva.
Um estudo conduzido entre 2016 e 2023 pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde revelou que a vacina contra o HPV reduziu pela metade a prevalência dos principais tipos do vírus entre jovens brasileiros — de 14,98% para 7,95%. É o maior levantamento sobre o tema já realizado na América Latina.
A pesquisa Pop-Brasil acompanhou jovens de 16 a 25 anos, faixa etária de maior risco por coincidir com o início da atividade sexual. Na primeira fase, foram analisadas amostras de mais de 6 mil pessoas não vacinadas; na segunda, mais de 10 mil participantes, incluindo vacinados e não vacinados. Entre as mulheres vacinadas, a detecção dos quatro tipos cobertos pela vacina caiu de 15,6% para 3,1%. Entre os homens vacinados, de 13,8% para 4,6%.
O estudo também identificou efeito rebanho: mulheres não vacinadas apresentaram redução na prevalência do vírus, de 15,6% para 10,5%, graças à menor circulação geral do agente. Entre os homens não vacinados, porém, não houve mudança significativa — reflexo direto da baixa cobertura masculina, de apenas 31,1%, enquanto entre meninas o índice chega a 61,8%. A meta recomendada é 90%.
Curiosamente, a prevalência geral de HPV na população aumentou entre as duas fases, mas isso se deve a subtipos não cobertos pela vacina. Os quatro tipos principais foram efetivamente controlados, comprovando a precisão do imunizante. Outro achado relevante: não houve diferença de proteção entre uma, duas ou três doses, validando a mudança do SUS em 2024 para o esquema de dose única.
A vacinação no Brasil começou em 2014 para meninas e foi ampliada para meninos em 2017. Hoje atende crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de grupos vulneráveis. Os dados mostram que a ciência cumpriu sua parte — o que falta é ampliar a adesão, especialmente entre os meninos, para que a proteção alcance toda a população.
Um estudo realizado no Brasil entre 2016 e 2023 traz notícias animadoras sobre a capacidade da vacina contra o HPV de frear a circulação do vírus entre jovens. Pesquisadores do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde, acompanharam milhares de pessoas e descobriram que a prevalência dos principais tipos de papilomavírus humano caiu pela metade: de 14,98% para 7,95% da população estudada. É o maior levantamento sobre a eficácia do imunizante já conduzido na América Latina.
A pesquisa Pop-Brasil focou em jovens de 16 a 25 anos, justamente a faixa etária com maior risco de infecção pelo vírus, já que marca o início da atividade sexual. Na primeira fase, entre 2016 e 2017, os pesquisadores analisaram amostras de 6.388 pessoas não vacinadas. Na segunda fase, entre 2020 e 2023, o número saltou para mais de 10 mil participantes, desta vez incluindo vacinados e não vacinados. As coletas aconteceram em unidades de saúde. Segundo Eliana Wendland, médica epidemiologista que liderou o trabalho, essa faixa etária foi escolhida porque "é o início da atividade sexual" e porque "todo mundo ali já deveria ter sido vacinado".
Mas a realidade ficou aquém das expectativas. Entre as meninas e mulheres acompanhadas, apenas 61,8% haviam recebido a vacina. Entre os meninos e homens, o número era ainda menor: 31,1%. A cobertura ideal recomendada é de 90%. Apesar dessa lacuna, os dados mostram que o imunizante funciona. Entre as mulheres vacinadas, a detecção dos quatro tipos de HPV cobertos pela vacina caiu de 15,6% na primeira fase para apenas 3,1% na segunda. Entre os homens vacinados, a queda foi de 13,8% para 4,6%.
O estudo revelou ainda um fenômeno conhecido como efeito rebanho: mesmo entre as meninas e mulheres que não foram vacinadas, houve redução na prevalência do vírus. Na segunda fase, 10,5% das mulheres não vacinadas apresentavam infecção pelos quatro tipos combatidos pela vacina, comparado aos 15,6% da primeira fase. Isso ocorre porque quando a vacinação atinge coberturas altas, diminui a circulação do agente causador da doença, protegendo indiretamente toda a população. Entre os homens não vacinados, porém, não houve mudança estatisticamente significativa. Wendland atribui isso à baixa cobertura vacinal entre meninos: "os meninos costumam receber menos incentivo à vacinação contra o HPV do que as meninas, em parte porque o vírus ainda é amplamente percebido como uma causa predominantemente do câncer do colo do útero".
Outro achado reforça a potência da vacina. Enquanto a prevalência geral de HPV na população, considerando todos os subtipos existentes, aumentou de 46,7% para 56,6% entre as duas fases, a prevalência dos quatro tipos cobertos pelo imunizante caiu significativamente. Isso demonstra que o aumento geral se deve a outros subtipos não prevenidos pela vacina, enquanto os quatro principais foram efetivamente controlados.
A pesquisa também confirmou que o esquema atual oferecido pelo Sistema Único de Saúde é eficaz. Os pesquisadores não encontraram diferença na prevalência do vírus ao comparar pessoas vacinadas com uma, duas ou três doses. Esse achado é relevante porque em 2024 o SUS mudou seu protocolo de duas doses para apenas uma, simplificando o calendário vacinal.
A vacinação contra o HPV no Brasil começou em 2014, inicialmente apenas para meninas. A partir de 2017, passou a incluir meninos, com ajustes na faixa etária ao longo dos anos. Hoje, o público-alvo são crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de grupos adultos vulneráveis como imunossuprimidos, vítimas de violência sexual e pessoas com lesões precursoras no colo do útero. O HPV é o principal causador do câncer do colo do útero, mas também pode provocar a doença em pênis, ânus e garganta. A vacina disponível no sistema público protege contra os quatro principais tipos oncogênicos do vírus.
Citações Notáveis
Essa faixa etária é a que tem a maior prevalência de HPV, porque é o início da atividade sexual— Eliana Wendland, médica epidemiologista e líder da pesquisa
Os meninos costumam receber menos incentivo à vacinação contra o HPV do que as meninas, em parte porque o vírus ainda é amplamente percebido como uma causa predominantemente do câncer do colo do útero— Prévia do artigo a ser publicado na revista npj Vaccines