Antes mesmo de respirar o primeiro ar, um bebê já carrega consigo uma herança invisível: os anticorpos que sua mãe construiu ao se vacinar. A placenta, por muito tempo vista apenas como fornecedora de nutrientes, revela-se hoje uma alfândega imunológica sofisticada — capaz de selecionar, com precisão molecular, quais proteções atravessam para o filho e quais ficam do lado de fora. Nesse cenário, a desinformação sobre vacinas na gestação não é apenas um equívoco científico; é uma barreira que priva recém-nascidos de uma proteção que começa meses antes do nascimento.
Vacinação na gravidez: anticorpos maternos protegem o bebê, não prejudicam
A placenta permite comunicação, mas sem prejudicar nenhum lado
Por que a placenta é tão seletiva assim? Não seria mais simples deixar tudo passar?
Porque o bebê é geneticamente estranho ao corpo da mãe — tem genes do pai. Sem essa seletividade rigorosa, o sistema imunológico materno o atacaria como se fosse um órgão transplantado.
Mas a gente sabe que alguns vírus conseguem atravessar a placenta, certo? Zika, citomegalovírus. Então essa barreira não é perfeita.
Verdade. A placenta é seletiva, mas não é impermeável. O que ela bloqueia são as células imunológicas da mãe e os componentes da vacina. Os anticorpos IgG que ela deixa passar são moléculas muito pequenas e específicas.
E esses anticorpos duram quanto tempo no bebê?
Até mais ou menos seis meses. Depois, conforme o próprio bebê é vacinado, seus anticorpos vão subindo enquanto os maternos caem. É como uma troca de guarda.
Mas há uma questão que o artigo não resolve: por que o Sudeste tem cobertura tão menor? É só desinformação ou há barreiras de acesso também?
O artigo aponta fatores socioeconômicos. Mulheres do SUS buscam mais vacinação. Mulheres de classes mais altas trazem ideias importadas de que vacinas prejudicam. Mas sim, pode haver acesso também.
A vacina VSR é mais nova, certo? Por que foi agendada mais tarde que a dTpa?
Exatamente. Quando um imunizante é novo, aplica-se mais tarde por cautela extra, mesmo que a segurança já seja comprovada. A dTpa é conhecida há anos, então não fazia sentido esperar.
Uma coisa que fica vaga: o artigo diz que a VSR protege contra bronquiolite, mas não deixa claro se essa doença é grave em recém-nascidos. É?
Sim, é. Pode causar crises de tosse que deixam o bebê sem oxigênio. Por isso a proteção materna é importante nos primeiros meses.
Der Puls
- Bebês nascem sem imunidade própria consolidada, e os primeiros seis meses de vida são uma janela de vulnerabilidade crítica para doenças como coqueluche e bronquiolite.
- O mito de que componentes da vacina atravessam a placenta e prejudicam o feto persiste com força, especialmente entre mulheres de maior poder aquisitivo, alimentando recusas que colocam recém-nascidos em risco.
- A ciência demonstra que a placenta bloqueia os ingredientes da vacina e permite apenas a passagem de anticorpos IgG maternos — proteções altamente específicas, incapazes de atacar tecidos saudáveis do bebê.
- Vacinas como a dTpa e a VSR são aplicadas em janelas estratégicas da gestação justamente para maximizar a transferência de anticorpos antes do parto, incluindo proteção para prematuros.
- O Sudeste brasileiro, especialmente o Rio de Janeiro, registra as menores coberturas vacinais em gestantes do país, revelando que a desinformação, e não a falta de acesso, é hoje o principal obstáculo.
Antes mesmo de respirar o primeiro ar, um bebê já carrega consigo uma herança invisível: os anticorpos que sua mãe construiu ao se vacinar. A placenta, por muito tempo vista apenas como fornecedora de nutrientes, revela-se hoje uma alfândega imunológica sofisticada — capaz de selecionar, com precisão molecular, quais proteções atravessam para o filho e quais ficam do lado de fora. Nesse cenário, a desinformação sobre vacinas na gestação não é apenas um equívoco científico; é uma barreira que priva recém-nascidos de uma proteção que começa meses antes do nascimento.
Muito antes de nascer, o bebê já começa a receber proteção. As células do sistema imunológico se formam ainda no período embrionário, mas são insuficientes para enfrentar o mundo sozinhas. É aí que entra um mecanismo que a maioria das gestantes desconhece: a transferência de anticorpos maternos através da placenta.
A imunologista Krist Fernandes, especializada em pediatria e com passagem pelo Imperial College London durante a pandemia, explica que a placenta é muito mais do que um canal de nutrientes. Ela funciona como uma alfândega rigorosa: impede que o sangue materno se misture ao do bebê — organismos geneticamente distintos que, sem essa barreira, poderiam se rejeitar — e autoriza a passagem apenas de anticorpos IgG, os mais especializados do organismo. Nada da vacina em si atravessa essa fronteira. Só os anticorpos que a mãe produziu após ser vacinada chegam ao filho.
Essa especificidade é fundamental para desfazer um dos maiores mitos sobre vacinação na gravidez. Quando uma gestante toma a dTpa na 20ª semana, seus linfócitos identificam características únicas de cada patógeno — como a Bordetella pertussis, causadora da coqueluche — e produzem anticorpos cirúrgicos, incapazes de atacar outros organismos ou tecidos do bebê. A proteção transferida dura até os seis meses de vida da criança, justamente o período em que ela ainda não pode ser vacinada.
Além da dTpa, a vacina contra o vírus sincicial respiratório é recomendada a partir da 28ª semana. Influenza e covid-19 estão no calendário para proteger a própria mãe, cujo sistema imunológico fica mais vulnerável durante a gestação. Vacinas com vírus vivos atenuados, como a tríplice viral e a de HPV, são as únicas contraindicadas — porque, mesmo enfraquecidos, esses vírus podem contornar a barreira placentária.
Os dados brasileiros revelam um paradoxo preocupante. Regiões com maior acesso a serviços privados de saúde, como o Sudeste, apresentam as menores coberturas vacinais em gestantes. No Rio de Janeiro, apenas 75% das futuras mães foram imunizadas contra o VSR. Entre usuárias do SUS, a adesão é maior. São mulheres de classes mais favorecidas que chegam aos consultórios carregando narrativas importadas sobre supostos riscos das vacinas — narrativas que, ao serem desfeitas pela ciência, revelam o verdadeiro perigo: deixar um recém-nascido desprotegido por escolha.
Muito antes de um bebê vir ao mundo, ainda nos primeiros estágios do desenvolvimento embrionário, surgem as células que formarão seu sistema imunológico. Elas se multiplicam no fígado e depois estabelecem sua produção na medula óssea. Mas essas primeiras defesas não trabalham sozinhas — a mãe oferece uma proteção que começa antes mesmo do nascimento, através de um mecanismo que a maioria das gestantes desconhece completamente.
Krist Fernandes é imunologista com especialização em pediatria. Começou como nutricionista, mas se viu atraída pela imunologia ao estudar o papel da microbiota intestinal em crianças com asma. Durante o doutorado no Imperial College London, chegou à Inglaterra apenas duas semanas antes da pandemia ser declarada e participou de pesquisas sobre vacinas contra o Sars-CoV-2. Quando fala sobre anticorpos maternos, seus olhos brilham ao mencionar a placenta — como quem anuncia uma protagonista que todos ignoravam. E de fato, muitas gestantes que temem se vacinar desconhecem o poder desse órgão. Tempos atrás, a placenta era vista apenas como fornecedora de oxigênio e nutrientes. Hoje, a ciência a reconhece como uma ponte imunitária, e uma ponte com uma alfândega bastante rigorosa.
Essa seletividade é essencial. O bebê não é parte do corpo materno — é um organismo com genes diferentes, vindos do pai, portanto com células diferentes. Seria comparável a um órgão transplantado, capaz de ser rejeitado. Por isso a placenta não permite que o sangue da mãe se misture ao da criança. Mesmo com a imunidade materna reduzida durante a gravidez para evitar incidentes, seria desastroso se suas defesas atacassem esse estranho em seu ninho. A placenta permite comunicação constante entre os dois lados, mas sem prejudicar nenhum deles. Libera apenas a entrada de anticorpos altamente especializados em atacar um determinado vírus ou bactéria, nada mais. Por isso o argumento de que vacinação em gestante causaria problemas no desenvolvimento fetal não faz sentido biológico. Nada da vacina em si passa para a criança — só atravessam a placenta os anticorpos que a mãe produziu após ser vacinada.
Existem vários tipos de anticorpos no organismo, mas a placenta autoriza apenas a travessia dos IgG, as imunoglobulinas do tipo G. Eles são produzidos em fases mais tardias após uma infecção ou imunização, e o bebê os recebe prontos. Imagine uma gestante que, seguindo o calendário da Sociedade Brasileira de Imunizações, toma a vacina dTpa na 20ª semana — a tríplice bacteriana que protege contra tétano, difteria e coqueluche. Seus linfócitos T perceberão uma característica típica de cada patógeno. Notarão algo apresentado pela vacina que só a Bordetella pertussis, causadora da coqueluche, possui. O linfócito T descreverá esse traço para os linfócitos B, que produzirão anticorpos IgG para mirar naquele ponto frágil e exclusivo da bactéria. O anticorpo construído para Bordetella não se mete com a bactéria do tétano, contemplada na mesma vacina. Muito menos um anticorpo para Bordetella compra briga com um vírus qualquer. Seria absurdo pensar que atacaria desde neurônios até o dedão do pé da criança. Ela não é alvo — só ganha proteção, que durará até completar uns seis meses de vida.
Entre as recomendações do calendário para gestantes, há duas vacinas disponíveis no SUS que, na verdade, estão lá para proteger a mãe: a do influenza e a da covid-19. Podem ser tomadas a qualquer momento da gestação. Muita gente não enxerga a necessidade, já que são infecções que não atormentam tanto os recém-nascidos. Mas o organismo da gestante está mais vulnerável, e nela essas doenças podem se tornar bem graves. A orientação é tomar uma nova dose a cada gestação. Alguns anos atrás, havia indicação de dar qualquer vacina só depois do primeiro trimestre, período em que há mais aborto espontâneo. A medida era justamente para ninguém culpasse os imunizantes por problemas que nada tinham a ver com elas. Hoje espera-se que as pessoas não saiam responsabilizando as vacinas por problemas alheios a elas. Espera-se.
As outras recomendações focam em passar anticorpos para a criança. A vacina contra o vírus sincicial respiratório, causador da bronquiolite, fica agendada para a 28ª semana em diante. Quando surge um imunizante novo, costuma-se aplicá-lo mais tarde, apesar de a segurança já ser bem alta. A dTpa foi antecipada para a 20ª semana por causa dos prematuros — deixar bebês nascidos antes da hora sem proteção contra coqueluche, transmitida pela respiração do adulto que se aproxima do berço, não fazia sentido. Vacinando a mãe, que é quem mais fica com a criança no colo, ela também deixa de ser transmissora. Nascer com anticorpos IgG contra coqueluche significa não correr o perigo de, antes dos seis meses, ter crises de tosse a ponto de faltar oxigênio para o cérebro.
Outros imunizantes podem ser aplicados quando há surtos na região — febre amarela, hepatite A, vacinas pneumocócicas e meningocócicas. A hepatite B é dada à grávida que não se imunizou antes. Apenas são contraindicadas as vacinas feitas com vírus vivos atenuados, porque, embora enfraquecidos, podem driblar a segurança da placenta e causar a doença no bebê. É o caso da tríplice viral e da vacina contra HPV. Dados do Brasil mostram disparidades regionais significativas. No Centro-Oeste, mais de 88% das gestantes tomaram a VSR. No Nordeste, mais de 86%. No Norte, 81,72%. No Sul, 89,8%. No Sudeste, apenas 82%, sendo que no Rio de Janeiro só 75% das futuras mães foram imunizadas. O padrão se repete com outras vacinas. O Sudeste vem deixando a desejar, provavelmente por fatores socioeconômicos. Entre mães usuárias do SUS, a busca por imunização é grande. Mulheres de classes economicamente mais favorecidas trazem fantasias importadas de que as vacinas são desnecessárias ou prejudiciais aos bebês. São essas mentiras que precisamos esquecer.
Bemerkenswerte Zitate
A placenta é uma ponte imunitária com uma alfândega bastante rigorosa— Krist Fernandes, imunologista
Vacinando a mãe, que é quem mais fica com a criança no colo, ela também deixa de ser transmissora— Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações