Vacina ideal para Brasil está distante: apenas Johnson & Johnson atende critérios

Uma dose, temperaturas moderadas: o Brasil tinha a rede pronta
O Ministério da Saúde definiu critérios específicos para a vacina ideal, baseado na infraestrutura de refrigeração já existente no país.
Mark

Por que o Brasil estabeleceu critérios tão específicos para a vacina ideal? Não era mais simples apenas comprar o que estivesse disponível?

Mimi

Porque o Brasil tem 34 mil salas de vacinação espalhadas por um país continental, e todas elas foram construídas para funcionar com refrigeradores de 2°C a 8°C. Mudar isso em massa custaria tempo e dinheiro que não havia.

Mark

Então a Johnson & Johnson era a solução perfeita?

Mimi

Era a única que atendia aos critérios no papel. Mas estava ainda em testes, sem dados de eficácia divulgados. Era mais um ideal do que uma realidade.

Mark

E as outras vacinas? Pfizer e Moderna eram simplesmente inviáveis?

Mimi

Não inviáveis, apenas impraticáveis em larga escala sem investimento massivo em infraestrutura. Exigiam congeladores a -70°C e -20°C. O governo sabia disso, mas estava aberto a negociar.

Mark

Qual era o maior risco dessa situação?

Mimi

Esperar pela vacina perfeita enquanto a pandemia avançava. O Brasil tinha investido bilhões na AstraZeneca, que não era ideal, mas era viável. Era um compromisso entre o teórico e o possível.

  • Com o Reino Unido aprovando a vacina da Pfizer, a pressão sobre o Brasil para definir sua estratégia de imunização se tornava urgente e pública.
  • A exigência de -70°C pela Pfizer e -20°C pela Moderna tornava essas vacinas logisticamente problemáticas para um país com infraestrutura de frios calibrada para temperaturas moderadas.
  • A única vacina que atendia plenamente aos critérios brasileiros — a da Johnson & Johnson — ainda estava em fase 3 de testes, sem dados de eficácia divulgados.
  • O governo já havia comprometido R$ 2 bilhões na AstraZeneca, que exige duas doses mas respeita a cadeia de frios existente, revelando que pragmatismo e ideal raramente coincidem.
  • Diante da urgência pandêmica, o Ministério sinalizou abertura para adquirir vacinas fora do padrão ideal, inclusive via COVAX Facility e acordos comerciais diretos.

Em dezembro de 2020, enquanto o mundo corria para aprovar as primeiras vacinas contra a COVID-19, o Brasil revelava uma preocupação que ia além da eficácia científica: a logística de um país continental. O Ministério da Saúde definiu com precisão o perfil da vacina ideal — dose única, armazenamento entre 2°C e 8°C — reconhecendo que distribuir um imunizante por 34 mil salas de vacinação espalhadas por um território desigual é, em si, um desafio tão grande quanto desenvolver a própria vacina. Era um momento em que a ciência e a geografia se encontravam, e o Brasil precisava conciliar ambas.

Em dezembro de 2020, enquanto o Reino Unido aprovava a vacina da Pfizer, o Brasil definia em voz alta o que considerava ideal para sua realidade. O secretário nacional de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, anunciou os critérios do Ministério da Saúde: uma vacina de dose única, armazenável entre 2°C e 8°C — temperatura compatível com a rede de frios já instalada em cerca de 34 mil salas de vacinação pelo país.

A lógica era estrutural. Um país de dimensões continentais e infraestrutura desigual não poderia depender de congeladores ultrabaixos espalhados por regiões remotas. Além da praticidade logística, a vacina ideal deveria ter alta eficácia, segurança comprovada, induzir memória imunológica e ser aplicável em diferentes faixas etárias.

Apenas a Johnson & Johnson, com seu imunizante baseado em adenovírus geneticamente editado, atendia a todos esses critérios — mas ainda estava em fase 3 de testes. As demais candidatas apresentavam obstáculos: Pfizer exigia -70°C e duas doses; Moderna, -20°C e duas doses. A AstraZeneca respeitava a cadeia de frios, mas demandava duas aplicações — ainda assim, o governo já havia investido R$ 2 bilhões nela e preparava a Fiocruz para produção nacional. A CoronaVac, do Butantan com a Sinovac, também exigia duas doses e ainda não tinha confirmação de compra pelo Ministério.

Medeiros, no entanto, deixou claro que o ideal não seria empecilho diante da urgência. O governo avaliava a compra da Pfizer por acordo comercial direto e poderia acessar a Moderna pelo programa COVAX Facility da OMS. O Brasil tinha critérios, tinha estrutura — e tinha disposição para improvisar quando necessário.

Em dezembro de 2020, enquanto o Reino Unido aprovava a primeira vacina contra a COVID-19 no Ocidente — a da Pfizer — o Brasil enfrentava um dilema logístico que poucos países tinham considerado com tanta clareza. O Ministério da Saúde havia definido, através de seu secretário nacional de Vigilância em Saúde Arnaldo Medeiros, um perfil muito específico para o que seria considerada a vacina ideal para o país: uma única dose, armazenável entre 2°C e 8°C.

A razão era prática e estrutural. O Brasil possuía uma rede de refrigeração estabelecida em aproximadamente 34 mil salas de vacinação, todas calibradas para manter imunizantes naquela faixa de temperatura. Qualquer vacina que exigisse condições diferentes — congeladores ultrabaixos, por exemplo — criaria um problema de distribuição em um país de dimensões continentais, com infraestrutura desigual. Medeiros explicou que a vacina ideal deveria conferir proteção contra doença grave e moderada, ter elevada eficácia, ser segura, induzir memória imunológica e ser aplicável em diversas faixas etárias. Mas o critério que realmente importava para a viabilidade prática era aquele: uma dose, temperaturas moderadas.

Apenas uma vacina em testes no Brasil atendia a esses requisitos. A Johnson & Johnson, através de sua divisão Janssen, havia desenvolvido um imunizante baseado em um adenovírus geneticamente editado, aplicado em dose única e termoestável. Havia um porém: estava ainda na fase 3 de testes e não havia divulgado seus dados preliminares de eficácia e segurança.

As outras candidatas que mais avançavam não se encaixavam. A Pfizer, que havia recebido aprovação do Reino Unido naquela semana, exigia armazenamento a -70°C e duas doses. A Moderna, que usava a mesma tecnologia de mRNA, precisava de -20°C e também duas doses. A AstraZeneca, desenvolvida pela Universidade de Oxford, podia ser armazenada nas temperaturas ideais, mas demandava duas doses — ainda assim, o governo já havia investido cerca de 2 bilhões de reais para comprar 100 milhões de doses e equipar a Fundação Oswaldo Cruz para produção nacional. A CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, também exigia duas doses, e o Ministério ainda não havia confirmado interesse em adquiri-la.

Medeiros, porém, não fechou completamente a porta para as vacinas que fugiam do padrão ideal. O governo considerava a possibilidade de comprar doses da Pfizer através de acordo comercial direto — a empresa brasileira já oferecia soluções para armazenamento seguro. A Moderna poderia ser adquirida pelo programa COVAX Facility, liderado pela Organização Mundial da Saúde, que buscava distribuição equitativa de vacinas globalmente. O que o secretário deixava claro era que o Brasil tinha critérios, tinha uma rede de frios pronta, e idealmente usaria uma vacina que se adequasse a essa realidade. Mas na prática, diante da urgência de uma pandemia, estava disposto a improvisar.

Fundamentalmente que ela seja termoestável por longos períodos, em temperaturas de dois a oito graus. Porque a nossa rede de frios, nessas 34 mil salas, é montada e estabelecida com uma rede de frios de aproximadamente 2°C e 8°C.
— Arnaldo Medeiros, secretário nacional de Vigilância em Saúde
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