Médico italiano descobriu em 1842 que mulheres sexualmente ativas morriam mais de câncer do colo do útero, sugerindo fator relacionado à vida sexual. Virologista alemão Harald zur Hausen identificou nos anos 1970 que o HPV causa a doença, descoberta que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2008.
Vacina contra HPV é resultado de mais de 150 anos de pesquisa científica
Ensinar o sistema imunológico a reconhecer o vírus antes que ele cause infecção
Como é que uma observação feita em 1842 por um médico italiano terminou em uma vacina aprovada em 2006? Parece um salto enorme.
É um salto, mas não foi um vazio. Rigoni-Stern viu o padrão, mas não tinha ferramentas para explicá-lo. Levou mais de um século de pesquisa acumulada—técnicas de laboratório melhorando, virologistas testando hipóteses—até que Zur Hausen conseguisse conectar o HPV ao câncer nos anos 1970.
Mas é importante notar que Zur Hausen propôs a hipótese; sua equipe encontrou material genético do HPV em amostras de câncer. Isso foi evidência forte, mas a causalidade completa foi consolidada depois, com técnicas mais sofisticadas.
E por que a vacina demorou tanto para chegar ao Brasil? Ela foi aprovada em 2006, mas só entrou no SUS em 2014.
Questões de custo, viabilidade, prioridades de saúde pública. O Brasil precisava de uma transferência de tecnologia com a Merck para produzir localmente. Isso leva tempo para negociar e implementar.
E mesmo agora, a versão nonavalente, que oferece proteção mais ampla, está apenas na rede privada. Há uma proposta para incluir no SUS desde maio, mas ainda não há previsão de quando isso vai acontecer.
Então a vacina funciona mesmo? Os números mostram redução de cânceres?
Sim. Países que vacinaram há mais tempo—Europa, EUA, Austrália, Brasil—já veem redução de lesões pré-cancerosas, prevalência do vírus e cânceres associados.
Mas é importante lembrar que a vacina previne novas infecções. Se você já foi exposto ao HPV, a vacina não elimina a infecção existente nem trata lesões ou cânceres já desenvolvidos. Por isso o foco em crianças e adolescentes antes da vida sexual.
E as pessoas mais velhas? Elas não se beneficiam?
Elas podem se beneficiar contra tipos aos quais ainda não foram expostas. Mas a resposta imunológica é mais fraca em adultos, e a vacinação em massa de adultos não é viável do ponto de vista de saúde pública.
Exatamente. É uma questão de custo-benefício. Vinte mulheres morrem por dia no Brasil de câncer do colo do útero, mas a vacina quadrivalente já está reduzindo esses números. A questão agora é se a nonavalente, que custa R$ 900 por dose, vai entrar no SUS e quando.
Le Pouls
- Vinte mulheres morrem diariamente no Brasil de câncer do colo do útero
- Domenico Rigoni-Stern observou em 1842 que mulheres sexualmente ativas morriam mais dessa doença
- Harald zur Hausen identificou o HPV como causador nos anos 1970, ganhando o Prêmio Nobel em 2008
- Vacina quadrivalente aprovada pelo FDA em 2006, incorporada ao SUS em 2014
- Vacina nonavalente disponível no Brasil desde 2023, apenas na rede privada, a R$ 900 por dose
Médico italiano descobriu em 1842 que mulheres sexualmente ativas morriam mais de câncer do colo do útero, sugerindo fator relacionado à vida sexual. Virologista alemão Harald zur Hausen identificou nos anos 1970 que o HPV causa a doença, descoberta que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2008.
A vacina contra HPV é resultado de mais de 150 anos de estudos que começaram em 1842 com observações sobre câncer do colo do útero. Aprovada em 2006, a vacina já reduz significativamente lesões pré-cancerosas e cânceres associados em vários países.
Vinte mulheres morrem todos os dias no Brasil por um câncer que é considerado quase totalmente prevenível. O câncer do colo do útero segue sendo a doença maligna que mais mata mulheres com até 35 anos no país, apesar de a medicina moderna dispor de ferramentas para evitá-lo. A Organização Mundial da Saúde traçou uma meta ambiciosa: eliminar essa patologia como problema de saúde pública até 2100, reduzindo sua incidência para menos de 4 casos por 100 mil mulheres. Mas o caminho até lá passa por uma história que começou muito antes, em 1842, quando um médico italiano começou a notar um padrão que ninguém conseguia explicar.
Domenico Rigoni-Stern analisava registros de mortes em Verona e observou algo intrigante: mulheres casadas, viúvas e profissionais do sexo morriam de câncer do colo do útero com frequência muito maior do que freiras e mulheres virgens. Os números sugeriam que algo relacionado à vida sexual estava envolvido, mas Rigoni-Stern não tinha como explicar o mecanismo por trás dessa diferença. A hipótese ficaria em suspenso por décadas. Ao longo do século 20, pesquisadores acumularam evidências de uma ligação entre a atividade sexual e o desenvolvimento da doença, mas faltava descobrir qual agente causador estava por trás dessa associação.
Nos anos 1970, o virologista alemão Harald zur Hausen levantou uma hipótese que mudaria tudo: o papilomavírus humano, ou HPV, seria o responsável. Até então, o vírus era conhecido principalmente por causar verrugas genitais, uma manifestação menor e aparentemente inofensiva. Zur Hausen propôs que certos tipos de HPV alteravam as células do colo do útero, provocando displasias—mudanças celulares que podiam evoluir para lesões pré-cancerosas e, eventualmente, para tumores malignos. Quando sua equipe analisou amostras de câncer do colo do útero, encontrou material genético do HPV presente nelas. Essa descoberta estabeleceu a relação causal entre o vírus e a doença, trabalho que rendeu a Zur Hausen o Prêmio Nobel de Medicina em 2008.
Com técnicas de laboratório mais sofisticadas nas décadas seguintes, cientistas consolidaram essa relação e descobriram que o HPV não era um único vírus, mas uma família composta por mais de 200 tipos diferentes. A maioria desses tipos é de baixo risco e não está associada ao câncer, mas pelo menos 12 são classificados como de alto risco. Os tipos 16 e 18 são os mais carcinogênicos. Pesquisadores também detectaram que o vírus estava presente em tumores de seis locações diferentes no corpo: colo do útero, vagina, vulva, ânus, pênis e orofaringe. Nem toda pessoa infectada por um tipo de alto risco desenvolve câncer—na maioria dos casos, a infecção desaparece sozinha. O risco aumenta quando a infecção persiste por anos e provoca alterações celulares progressivas.
Essas descobertas abriram uma possibilidade inédita: ensinar o sistema imunológico a reconhecer o HPV antes que ele causasse uma infecção. No fim dos anos 1980, o imunologista australiano Ian Frazer e o virologista chinês Jian Zhou encontraram uma forma de fazer isso. Produziram estruturas que imitavam a parte externa do HPV, chamadas de partículas semelhantes a vírus, ou VLPs. Essas estruturas tinham a aparência do vírus, mas não continham seu material genético e, portanto, não causavam infecção. Eram capazes de estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos contra o HPV, apresentando ao organismo uma imitação inofensiva do vírus para que estivesse preparado caso encontrasse o verdadeiro. Conforme explica Júlio Teixeira, médico e professor da Unicamp que pesquisa HPV, era como colocar apenas a cápsula do vírus em contato direto com o sistema imune—o corpo produziria anticorpos contra aquela cápsula, e toda vez que tivesse contato com o vírus real, ele seria bloqueado e não entraria.
Os pesquisadores e empresas farmacêuticas passaram anos transformando as VLPs em vacinas viáveis. Em 2006, o FDA aprovou a primeira formulação, uma vacina quadrivalente que protegia contra os tipos 16 e 18, além dos tipos 6 e 11, responsáveis pela maioria das verrugas genitais. No Brasil, essa vacina quadrivalente foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações apenas em 2014, resultado de uma transferência de tecnologia entre a Merck Sharp & Dohme e o Instituto Butantan. Vinte anos depois da aprovação inicial, países europeus, os Estados Unidos, o Brasil e a Austrália já observavam resultados promissores: redução do número de lesões pré-cancerosas, da prevalência do vírus e do câncer do colo do útero na população.
Atualmente, o esquema de rotina no SUS é de dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos. A vacinação também está disponível para grupos específicos—pessoas imunossuprimidas de 9 a 45 anos, pessoas vivendo com HIV, transplantados, pacientes com câncer, usuários de PrEP, vítimas de violência sexual e pessoas com papilomatose respiratória recorrente. Até dezembro deste ano, o Ministério da Saúde mantém a vacinação para adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não foram imunizados. As campanhas priorizam os mais jovens porque pessoas dessa faixa etária produzem uma resposta de anticorpos mais intensa após a vacinação, e porque a vacina previne novas infecções mas não elimina uma infecção já existente nem trata lesões ou cânceres já desenvolvidos. A vacinação é priorizada antes do início da vida sexual, quando há maiores chances de a pessoa não ter sido exposta ao vírus.
Uma formulação nonavalente foi desenvolvida e ficou disponível no Brasil em 2023, mantendo os quatro HPVs da formulação original e adicionando cinco tipos adicionais associados a diferentes tumores malignos. A nonavalente está disponível apenas na rede particular, a um custo de cerca de R$ 900 por dose. Há uma proposta de inclusão dessa vacina no SUS, em debate na Câmara dos Deputados desde maio. Para viabilizar a produção nacional dos imunizantes, o Ministério da Saúde destinou R$ 495,9 milhões à construção de uma nova fábrica no Instituto Butantan, mas ainda não há previsão para a incorporação da vacina nonavalente à rede pública.
Citations marquantes
É como se colocasse apenas a cápsula do vírus direto em contato com o sistema imune da pessoa. Ele vai produzir anticorpos contra aquela cápsula. Toda vez que você tem anticorpos circulando e você tem contato com o vírus, ele é bloqueado e não entra.— Júlio Teixeira, médico e professor da Unicamp