Em Madri, no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, pesquisadores apresentaram evidências de que a vacina contra herpes-zóster pode oferecer uma proteção que transcende a pele: ao conter a inflamação sistêmica desencadeada pelo vírus, ela pode reduzir o risco de infartos e AVCs. A descoberta amplia o significado da vacinação, situando-a não apenas como escudo contra doenças infecciosas, mas como um instrumento de saúde cardiovascular — um reconhecimento que a medicina europeia já formalizou ao elevar a imunização ao mesmo patamar do controle de hipertensão, colesterol e diabetes.
Vacina contra herpes-zóster pode reduzir infartos e AVCs, aponta estudo europeu
A vacinação protege não apenas da doença, mas das complicações que dela decorrem
Por que levou tanto tempo para conectar herpes-zóster com problemas do coração?
A inflamação causada por infecções virais sempre foi conhecida, mas quantificar o benefício específico de uma vacina é diferente. Agora temos dados que organizam esse conhecimento.
Então a vacina não previne o infarto diretamente, certo?
Exato. Ela previne a infecção que causa inflamação. Sem a inflamação, o risco de coágulos e ruptura de placas cai significativamente.
Qual é o risco real para alguém que pega herpes-zóster?
Nos primeiros três meses após a infecção, o risco é mais elevado. Mas o vírus também pode inflamar o próprio músculo cardíaco, causando miocardite.
E por que a Sociedade Europeia de Cardiologia colocou vacinação como pilar agora?
Porque os dados começaram a mostrar que prevenir infecções inflamatórias é tão importante quanto controlar pressão ou colesterol. É proteção preventiva.
Quem deveria se preocupar mais com isso?
Pessoas acima de 50 anos, especialmente aquelas com histórico cardiovascular. Mas qualquer um pode desenvolver herpes-zóster — cerca de uma em cada três pessoas ao longo da vida.
As evidências são sólidas o suficiente para recomendar a vacina?
Ainda há limitações nos estudos, mas o padrão está claro. O ponto positivo é que estudos robustos estão surgindo para confirmar o que já suspeitávamos.
The Pulse
- A cada mil pessoas vacinadas contra herpes-zóster, um a dois casos de infarto ou AVC podem ser evitados anualmente — um número pequeno, mas significativo em escala populacional.
- O vírus, ao se reativar, desencadeia inflamação nas artérias e favorece a formação de coágulos, com risco cardiovascular especialmente elevado nos três primeiros meses após a infecção.
- A maioria das evidências ainda é observacional, o que impede afirmações definitivas sobre causalidade e exige cautela na interpretação dos resultados.
- Especialistas brasileiros veem o estudo como um passo para quantificar benefícios já intuídos, reforçando a vacinação como estratégia preventiva para pessoas com risco cardiovascular.
Em Madri, no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, pesquisadores apresentaram evidências de que a vacina contra herpes-zóster pode oferecer uma proteção que transcende a pele: ao conter a inflamação sistêmica desencadeada pelo vírus, ela pode reduzir o risco de infartos e AVCs. A descoberta amplia o significado da vacinação, situando-a não apenas como escudo contra doenças infecciosas, mas como um instrumento de saúde cardiovascular — um reconhecimento que a medicina europeia já formalizou ao elevar a imunização ao mesmo patamar do controle de hipertensão, colesterol e diabetes.
Um estudo apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Madri, sugere que a vacina contra herpes-zóster pode prevenir entre um e dois casos de infarto ou AVC por mil pessoas vacinadas ao ano — uma descoberta que reposiciona a imunização no campo da saúde cardiovascular.
A ligação entre o vírus e o coração passa pela inflamação. Quando o herpes-zóster se reativa — o que ocorre em cerca de um terço das pessoas, especialmente após os 50 anos —, o organismo desencadeia uma resposta inflamatória que fragiliza as artérias e favorece a ruptura de placas de gordura, podendo resultar em infartos ou derrames. O risco é mais alto nos três primeiros meses após a infecção.
O cardiologista Fábio Argenta, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, lembra que esse mecanismo não é exclusivo do herpes-zóster: influenza, covid-19 e pneumonia produzem efeitos semelhantes. A relação é tão reconhecida que a Sociedade Europeia de Cardiologia passou a considerar a vacinação um dos quatro pilares da proteção cardiovascular, ao lado do controle de hipertensão, colesterol e diabetes.
Há, porém, uma ressalva: as evidências são majoritariamente observacionais, o que impede afirmar com certeza que a vacina é a causa direta dos benefícios observados. Flávia Bravo, da Sociedade Brasileira de Imunizações, destaca que estudos como este começam a organizar e quantificar conhecimentos que já existiam na prática clínica.
O herpes-zóster, causado pela reativação do vírus da catapora, afeta cerca de 30% das pessoas acima de 50 anos e pode deixar sequelas como a neuralgia pós-herpética, uma dor persistente que dura meses ou anos. Para quem já tem histórico cardiovascular ou fatores de risco, a vacina pode representar uma camada de proteção mais ampla do que se imaginava.
Um estudo apresentado esta semana no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Madri, traz uma descoberta que desafia a forma como pensamos sobre vacinação: a proteção contra herpes-zóster pode fazer mais do que evitar bolhas dolorosas na pele. Segundo os dados iniciais, a cada mil pessoas vacinadas, entre um e dois casos de infarto ou acidente vascular cerebral podem ser prevenidos a cada ano.
A conexão entre o vírus e o coração não é acidental. Quando o herpes-zóster se reativa — o que acontece em cerca de uma em cada três pessoas ao longo da vida, especialmente após os 50 anos — o corpo desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica. Essa inflamação atinge a camada interna das artérias, tornando-as mais vulneráveis à formação de coágulos. Se placas de gordura já estão presentes nas artérias, elas podem se romper durante esse processo inflamatório, levando a infartos ou derrames dependendo de quais vasos sanguíneos sejam afetados. O risco é particularmente elevado nos primeiros três meses após a infecção.
Fábio Argenta, cardiologista e membro do Comitê de Qualidade Assistência e Vacinas da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explica que esse mecanismo não é exclusivo do herpes-zóster. Infecções por influenza, vírus sincicial respiratório, pneumonia e covid-19 produzem efeitos semelhantes. Além disso, o vírus pode inflamar diretamente o músculo cardíaco, causando miocardite. A relação entre infecções virais e problemas cardiovasculares é tão estabelecida que, este ano, a Sociedade Europeia de Cardiologia reconheceu a vacinação como um dos quatro pilares fundamentais para proteção cardiovascular — ao lado do controle de hipertensão, colesterol e diabetes.
Mas há uma ressalva importante. Os autores do estudo enfatizam que a maioria das evidências vem de pesquisas observacionais, que podem conter vieses. Isso significa que, embora a relação entre vacinação e redução de eventos cardiovasculares tenha sido observada, não é possível afirmar com certeza que a vacina é diretamente responsável por esses benefícios. Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, vê o lado positivo: estudos robustos estão começando a organizar conhecimentos que já existiam e a quantificar os benefícios das vacinas na redução desses eventos.
O herpes-zóster, também conhecido como cobreiro, é causado pela reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo responsável pela catapora. Após a infecção inicial na infância, o vírus permanece latente no sistema nervoso e pode acordar décadas depois, quando há queda de imunidade — algo comum com o envelhecimento, mas também desencadeado por sono insuficiente, má alimentação e estresse. Acredita-se que 30% das pessoas acima de 50 anos desenvolverão o quadro em algum momento.
Os sintomas são bem conhecidos: manchas e bolhas na pele que causam dor e queimação, frequentemente no tórax, pescoço ou costas. Também podem ocorrer dor nos nervos, formigamento, febre e mal-estar. Embora os sintomas geralmente desapareçam com o tempo, a infecção pode deixar sequelas duradouras. A mais comum é a neuralgia pós-herpética, dor que persiste por meses ou até anos após o quadro inicial.
O que torna este estudo relevante é que a vacinação não protege apenas da doença em si, mas das complicações que dela decorrem. Bravo destaca que imunizantes previnem doenças que causam inflamação e podem descompensar outros quadros de saúde. Para pessoas com histórico de problemas cardiovasculares, ou mesmo para aquelas em risco, a vacinação contra herpes-zóster pode representar uma camada adicional de proteção que vai além do que a maioria imagina.
Notable Quotes
Quadros bacterianos e virais desencadeiam um processo inflamatório sistêmico que pode levar a infartos ou derrames, dependendo de quais artérias sejam atingidas— Fábio Argenta, Sociedade Brasileira de Cardiologia
O ponto positivo é que estão surgindo estudos robustos que organizam esse conhecimento e podem quantificar o benefício das vacinas na redução desses eventos— Flávia Bravo, Sociedade Brasileira de Imunizações