Vacina contra covid-19 é segura e não gera HIV, câncer ou HPV

Vacina não causa doença, apenas abre o que já estava lá
Especialistas explicam a diferença entre desencadear sintomas latentes e causar doenças novas.

Em tempos em que a dúvida pode custar vidas, um áudio atribuído ao médico Nelson Modesto circulou pelo Telegram afirmando que as vacinas contra a covid-19 causavam HIV, câncer e HPV — alegações que especialistas e autoridades sanitárias de todo o mundo rejeitaram como falsas e sem qualquer respaldo científico. A investigação revelou não apenas a ausência de provas para as afirmações, mas também inconsistências profundas no perfil e nas credenciais de quem as propagava. O episódio lembra que a desinformação raramente caminha sozinha: ela encontra terreno fértil onde a desconfiança já foi semeada.

  • Um áudio com mais de 21 mil visualizações no Telegram espalhou o alarme de que vacinas contra covid-19 causariam HIV, câncer e doenças autoimunes — provocando pânico real entre os membros do grupo Médicos Pela Vida.
  • O autor admitiu ter gravado o áudio, mas a pesquisa que alegava sustentar suas afirmações existia apenas em PowerPoint, nunca foi publicada e ele sequer constava na lista de palestrantes do congresso onde dizia tê-la apresentado.
  • Especialistas classificaram as alegações como 'bizarras' e 'absurdas': substâncias como Nagalase, óxido de grafeno e nanopartículas de grafeno simplesmente não integram a composição de nenhuma das vacinas disponíveis.
  • Anvisa, FDA, CDC e OMS confirmam que as vacinas não causam as doenças citadas; eventos adversos graves são raros, e a trombose — o mais comum deles — ocorre com muito maior frequência em quem contraiu covid-19 do que em vacinados.
  • O conteúdo foi classificado como falso pelo projeto Comprova, enquanto os comentários gerados pelo áudio revelaram como a desinformação alimenta xenofobia e negacionismo em cadeia.

Um áudio atribuído ao médico Nelson Modesto acumulou mais de 21 mil visualizações no Telegram ao afirmar que vacinas contra a covid-19 causavam HIV, câncer, HPV e doenças autoimunes. A gravação circulou no grupo Médicos Pela Vida e gerou pânico entre os membros. O conteúdo era falso.

Modesto confirmou à reportagem que a voz era sua. Ele alegava ter conduzido um estudo mostrando que vacinas com 'insumo chinês' continham Nagalase, óxido de grafeno e nanopartículas de grafeno — substâncias que, segundo ele, provocariam essas doenças. Nenhum desses componentes consta na composição da Pfizer, da Coronavac ou da AstraZeneca. Quando pressionado sobre a pesquisa, admitiu que ela ainda não estava concluída, existia apenas em PowerPoint e nunca havia sido submetida a revistas científicas. Ele também afirmou ter apresentado o trabalho em um congresso sobre BDORT, técnica experimental de diagnóstico — mas seu nome não aparecia na lista oficial de palestrantes do evento.

Especialistas ouvidos pelo Comprova foram categóricos. O pneumologista Gilmar Alves Zonzin chamou as alegações de 'bizarras' e 'absurdas'. O infectologista César Carranza Tamayo explicou que pessoas com doenças autoimunes latentes podem ter sintomas desencadeados por infecções virais ou algumas vacinas, mas isso não significa que a vacina causou a doença — apenas que agiu como gatilho para algo já existente. A epidemiologista Ethel Maciel, com pós-doutorado pela Universidade Johns Hopkins, foi direta: as vacinas não provocam HIV, HPV nem câncer, e eventos adversos graves são raros.

A investigação também expôs inconsistências no perfil de Modesto: ele se apresentava como professor titular da PUC-Campinas, mas a instituição não o listava como docente. Confrontado, disse que já não trabalhava lá há anos — sem explicar por que mantinha o título como status atual. Anvisa, FDA, CDC e OMS reafirmam a segurança dos imunizantes. O Comprova classificou o conteúdo como falso e deliberadamente divulgado para enganar.

Um áudio que circulava no Telegram, atribuído ao médico Nelson Modesto, afirmava que as vacinas contra a covid-19 causavam HIV, câncer, HPV e doenças autoimunes. A gravação, compartilhada no grupo Médicos Pela Vida, acumulou mais de 21 mil visualizações e gerou pânico entre os membros. O conteúdo era falso — uma invenção deliberada para espalhar desinformação sobre os imunizantes.

Modesto, que se apresenta como especialista em clínica médica com formação pela Universidade Federal de São Paulo e doutorado pela Unicamp, confirmou à reportagem que a gravação era sua. Ele alegava ter realizado um estudo provando que as vacinas com "insumo chinês" desenvolviam doenças autoimunes e câncer nos vacinados. Segundo sua narrativa, o insumo continha Nagalase, óxido de grafeno e nanopartículas de grafeno — substâncias que, afirmava erroneamente, causavam essas doenças. Nenhum desses componentes integra a lista de substâncias presentes nas vacinas desenvolvidas pela Pfizer, Coronavac ou AstraZeneca.

Quando questionado sobre a pesquisa, Modesto revelou que ela ainda não estava completa. Disse que havia avaliado e tratado cerca de 75 pessoas que, segundo ele, estavam "contaminadas com a vacina", e pretendia chegar a 100 participantes. O estudo existia apenas em formato PowerPoint e não havia sido submetido para publicação em revistas científicas. Modesto afirmou que publicaria o trabalho no Canadá, não no Brasil. Ele também mencionou ter apresentado a pesquisa em um congresso sobre BDORT (Bi Digital O-Ring Test), uma técnica de diagnóstico considerada experimental. Porém, quando verificado, Modesto não constava na lista oficial de palestrantes do evento, e seus vídeos não aparecem nas gravações disponibilizadas.

Especialistas entrevistados pelo Comprova — projeto de fact-checking do qual O POVO faz parte — rejeitaram categoricamente as afirmações. Gilmar Alves Zonzin, ex-presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio, classificou as alegações como "bizarras" e "absurdas", sem qualquer fundamento científico. O infectologista César Carranza Tamayo explicou que as vacinas são seguras e que a maioria dos efeitos adversos é leve, como febre e dor no local da aplicação. Ele esclareceu um ponto crucial: pessoas com doenças autoimunes ainda não manifestadas podem começar a apresentar sintomas após uma infecção viral ou algumas vacinas com vetor viral, mas isso não significa que a vacina causou a doença — ela apenas serviu como gatilho para sintomas já latentes.

Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo com pós-doutorado em epidemiologia pela Universidade Johns Hopkins, foi direta: as vacinas contra covid-19 não provocam HIV, HPV ou qualquer outra doença. Ela reforçou que os eventos graves pós-vacinais são raros. A trombose, o evento raro mais comum, ocorre muito mais frequentemente em pessoas que desenvolveram covid-19 do que em vacinados. O mesmo vale para miocardite. As autoridades sanitárias brasileiras — como a Anvisa — e internacionais — FDA, CDC e OMS — confirmam que as vacinas não causam doenças autoimunes ou câncer.

A investigação também revelou inconsistências no perfil profissional de Modesto. Ele declara nas plataformas digitais que atua como professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, mas o site da instituição não o lista como docente. Quando confrontado, Modesto alegou que há anos não trabalha mais lá, mas não explicou por que mantém o título nas redes sociais e no currículo acadêmico como se fosse seu status atual. Ele também não possui pesquisas publicadas em revistas de relevância em sua área de atuação.

O áudio viral gerou comentários xenofóbicos e negacionistas entre os membros do grupo. Alguns culpavam a China pela pandemia, enquanto outros negavam a existência do coronavírus. Essas reações ilustram como a desinformação sobre vacinas pode alimentar narrativas mais amplas de desconfiança nas instituições e na ciência. A verificação do Comprova definiu o conteúdo como falso por ter sido inventado e deliberadamente divulgado para espalhar mentira sobre a segurança dos imunizantes.

Essas são informações bizarras, absurdas, sem nenhum fundamento
— Gilmar Alves Zonzin, ex-presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio
A vacina contra covid-19 não provoca HIV, HPV ou qualquer outra doença. A vacina auxilia o sistema imunológico a construir a resposta imune contra a covid
— Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um médico com credenciais acadêmicas reais escolheria fazer afirmações tão facilmente refutáveis sobre vacinas?

Model

Modesto tem formação legítima, mas isso não o torna imune a crenças equivocadas. O que é preocupante é que ele não apresentou nenhuma prova — nem dados, nem metodologia, nem resultados publicados. Apenas um áudio e um PowerPoint.

Inventor

E quanto ao BDORT, o teste que ele menciona? É uma técnica reconhecida?

Model

É uma técnica experimental desenvolvida há décadas, considerada uma ponte entre métodos orientais e ocidentais. Mas a própria associação que a representa no Brasil deixa claro: não deve substituir os métodos convencionais de diagnóstico. Modesto nem sequer aparece na lista de palestrantes do congresso onde disse ter apresentado.

Inventor

Os especialistas mencionaram que vacinas podem desencadear sintomas em pessoas com doenças autoimunes latentes. Isso não valida parcialmente o que Modesto diz?

Model

Não. Há uma diferença crucial: desencadear sintomas de uma doença que já existe é muito diferente de causar a doença. É como dizer que uma chave causa a fechadura — ela apenas abre o que já estava lá.

Inventor

Por que esse áudio ganhou 21 mil visualizações? O que faz as pessoas acreditarem nisso?

Model

Medo. As pessoas estão assustadas com a pandemia, desconfiadas de instituições. Um médico falando em tom de autoridade, com termos técnicos como "grafeno" e "Nagalase", soa convincente mesmo sem provas. E o Telegram amplifica isso — grupos fechados onde a desinformação circula sem verificação.

Inventor

O que deveria ter acontecido antes desse áudio viralizar?

Model

Modesto deveria ter publicado sua pesquisa em uma revista científica respeitável, submetido a revisão por pares, e deixado que a comunidade científica avaliasse suas alegações. Em vez disso, ele gravou um áudio. Isso não é ciência — é marketing de medo.

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