Há setenta anos, a Universidade de São Paulo e a Marinha do Brasil escolheram um caminho menos trilhado: em vez de construir muros separados, decidiram compartilhar os mesmos corredores do saber. Dessa aliança nasceram o primeiro computador brasileiro, engenheiros nucleares formados em solo nacional e ventiladores que chegaram a 219 cidades durante uma pandemia. A cerimônia realizada na Escola Politécnica em agosto de 2026 não celebrou apenas um aniversário — celebrou a ideia de que soberania científica se constrói com paciência, confiança e colaboração duradoura.
USP e Marinha celebram 70 anos de parceria em inovação científica e tecnológica
Transformando conhecimento em capacidade, ciência em desenvolvimento
Por que uma universidade e uma força militar precisavam trabalhar juntas? Não seria mais simples cada uma seguir seu caminho?
A Marinha percebeu algo que outras instituições militares não viram: que a melhor forma de desenvolver tecnologia não era isolando-se, mas integrando-se a um ambiente de pesquisa já consolidado. A Politécnica tinha infraestrutura, pesquisadores, biblioteca — tudo o que seria custoso criar do zero.
Mas isso não criaria conflitos? Uma universidade pública trabalhando com demandas militares?
Criou, provavelmente. Mas o acordo foi estruturado de forma que a pesquisa permanecesse no ambiente acadêmico, com seus padrões de excelência e rigor. Não era pesquisa militar em bunker — era pesquisa universitária com aplicações estratégicas.
O Patinho Feio saiu dessa parceria. Como um computador brasileiro nasceu de uma colaboração entre universidade e Marinha?
A Marinha tinha a demanda — precisava de capacidade computacional. A USP tinha os pesquisadores e a liberdade intelectual para experimentar. Juntas, criaram algo que o Brasil não teria criado sozinho. Era uma questão de soberania tecnológica.
E durante a pandemia, quando desenvolveram o ventilador Inspire — isso foi diferente?
Não, foi exatamente o mesmo princípio. A Marinha tinha recursos e logística para distribuir. A USP tinha engenheiros capazes de desenhar rapidamente uma solução. Mil equipamentos para 219 cidades — isso não é pesquisa abstrata, é resposta a uma crise real.
Qual é o segredo para uma parceria durar 70 anos?
Confiança recíproca, segundo o comandante. Mas também resultados tangíveis. Se o acordo tivesse gerado apenas relatórios, teria morrido há décadas. Ele sobreviveu porque produzia coisas que importavam.
O Pulso
- Sete décadas de parceria entre USP e Marinha produziram marcos tecnológicos que definiram a autonomia científica do Brasil — do primeiro computador nacional ao ventilador que salvou vidas na pandemia.
- A decisão da Marinha de integrar-se à Politécnica em vez de criar sua própria instituição foi uma aposta arriscada que se revelou visionária, formando 412 mestres e 145 doutores ao longo dos anos.
- Durante a crise da covid-19, equipes das duas instituições desenvolveram em tempo recorde o ventilador Inspire, distribuído gratuitamente para 219 municípios em 16 estados — ciência respondendo à urgência da morte.
- Líderes das duas instituições reafirmaram que tecnologias emergentes exigirão ainda mais colaboração, transformando conhecimento em capacidade e ciência em soberania nacional.
- A cerimônia incluiu o relançamento da obra do almirante Álvaro Alberto e a inauguração de uma escultura no campus — marcos físicos de uma história que ainda está sendo escrita.
Há setenta anos, a Universidade de São Paulo e a Marinha do Brasil escolheram um caminho menos trilhado: em vez de construir muros separados, decidiram compartilhar os mesmos corredores do saber. Dessa aliança nasceram o primeiro computador brasileiro, engenheiros nucleares formados em solo nacional e ventiladores que chegaram a 219 cidades durante uma pandemia. A cerimônia realizada na Escola Politécnica em agosto de 2026 não celebrou apenas um aniversário — celebrou a ideia de que soberania científica se constrói com paciência, confiança e colaboração duradoura.
Na terça-feira 18 de agosto, a Escola Politécnica da USP foi palco de uma cerimônia para marcar setenta anos de um acordo que moldou silenciosamente a trajetória tecnológica do Brasil. Desde 1956, USP e Marinha do Brasil constroem juntas uma parceria que entrelaça pesquisa acadêmica e demandas estratégicas nacionais — com resultados concretos que vão do primeiro computador brasileiro a equipamentos médicos distribuídos durante a pandemia.
A origem do acordo revela uma escolha incomum. Enquanto Exército e Aeronáutica criaram suas próprias instituições, a Marinha optou por se integrar à Politécnica, já consolidada dentro de uma universidade pública. A diretora do Centro de Coordenação de Estudos da Marinha em São Paulo, Fernanda Leal Benet, explicou que essa decisão refletiu uma visão avançada sobre como unir formação acadêmica, pesquisa e desenvolvimento tecnológico — permitindo, entre outros feitos, a formação dos primeiros engenheiros nucleares militares com graduação integral no Brasil.
Os resultados falam por si. Nos anos 1970, a colaboração viabilizou o Patinho Feio, reconhecido como o primeiro computador brasileiro. Décadas depois, durante a pandemia de covid-19, equipes da Politécnica e do Centro Tecnológico da Marinha desenvolveram o ventilador pulmonar Inspire, produzido e distribuído gratuitamente para 219 cidades em 16 estados. Não era pesquisa abstrata — era resposta imediata a uma crise que matava pessoas.
O vice-diretor da Politécnica, Gilberto Francisco Martha de Souza, destacou como a parceria transformou o ensino de Engenharia Naval, com a substituição gradual de professores estrangeiros por profissionais formados na própria USP — sinal de maturidade institucional conquistada. O reitor Aluísio Segurado classificou o acordo como um dos mais longevos e frutíferos da universidade, enquanto o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, enfatizou que as tecnologias emergentes exigirão ainda mais colaboração com a academia para transformar ciência em soberania.
A programação incluiu painéis sobre inovação em ambientes hierarquizados, o relançamento da obra do almirante Álvaro Alberto — pioneiro da política nuclear brasileira — e a inauguração de uma escultura no campus que registra, em forma física, sete décadas de uma parceria que continua a contribuir para políticas públicas, modernização industrial e soluções voltadas à sociedade brasileira.
Na terça-feira 18 de agosto, a Escola Politécnica da USP recebeu uma cerimônia para marcar sete décadas de um acordo que poucos brasileiros conhecem pelo nome, mas cujos efeitos moldaram a trajetória tecnológica do país. Desde 1956, a Universidade de São Paulo e a Marinha do Brasil trabalham juntas — não em sigilo, não em laboratórios militares fechados, mas em uma parceria que entrelaçou a pesquisa acadêmica com as demandas estratégicas das Forças Armadas. O resultado foi concreto: o primeiro computador brasileiro saiu dessa colaboração, assim como equipamentos médicos que salvaram vidas durante a pandemia.
O acordo nasceu de uma decisão inusitada. Enquanto o Exército e a Aeronáutica criaram suas próprias instituições de ensino, a Marinha escolheu outro caminho. Em vez de construir uma escola isolada, estabeleceu uma parceria com a Politécnica, uma instituição já consolidada dentro de uma universidade pública. Fernanda Leal Benet, diretora do Centro de Coordenação de Estudos da Marinha em São Paulo, explicou que essa escolha refletiu uma visão avançada sobre como integrar formação acadêmica, pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico. A decisão se mostrou frutífera: permitiu a formação dos primeiros engenheiros nucleares militares com graduação integral no Brasil, um feito que marcou a autonomia tecnológica nacional.
Os números revelam a profundidade dessa colaboração. No início dos anos 1970, o trabalho conjunto viabilizou a criação do Patinho Feio, reconhecido como o primeiro computador brasileiro — um marco que colocou o país em pé de igualdade com potências tecnológicas globais. Mais recentemente, quando a pandemia de covid-19 paralisou o mundo, equipes da Politécnica e do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo uniram esforços para desenvolver o ventilador pulmonar Inspire. O projeto resultou na produção e distribuição gratuita de mil equipamentos de suporte respiratório para 219 cidades espalhadas por 16 Estados. Não era pesquisa abstrata — era resposta imediata a uma crise que matava pessoas.
O vice-diretor da Escola Politécnica, Gilberto Francisco Martha de Souza, destacou como a parceria transformou o ensino de Engenharia Naval. O curso se atualizou para abordar tópicos fundamentais para o projeto, construção e operação de sistemas offshore. Ao longo dos anos, houve uma substituição gradual de professores estrangeiros por profissionais formados na própria USP — um indicador de que a instituição havia alcançado maturidade e excelência. O programa de pós-graduação estruturado pelo convênio formou 412 mestres e 145 doutores, contribuindo significativamente para o desenvolvimento tecnológico de grande impacto para a indústria nacional.
O reitor Aluísio Segurado caracterizou o acordo como um dos mais longevos e profícuos da Universidade, destacando seu papel como potencializador de ações concretas entre duas instituições altamente reconhecidas. Ele reafirmou o compromisso de avançar na parceria, trabalhando conjuntamente com vistas à inovação tecnológica, ao desenvolvimento do país e à formação de profissionais capazes de enfrentar desafios complexos. O comandante da Marinha Marcos Sampaio Olsen enfatizou a visão de longo prazo proporcionada pela aproximação entre as instituições. Para ele, a cooperação técnica exerce um papel central na construção de uma força com alto grau de suficiência tecnológica, e as tecnologias emergentes exigirão ainda mais colaboração com a academia e a indústria para continuar transformando conhecimento em capacidade, ciência em desenvolvimento e tecnologia em soberania.
Durante o evento, especialistas participaram de um painel sobre inovação em ambientes complexos, discutindo a necessidade de adaptação de instituições com estruturas hierarquizadas diante das rápidas mudanças globais. As discussões apontaram que a capacidade de inovar transcende a aquisição de tecnologia: exige o desenvolvimento de uma cultura organizacional baseada no aprendizado contínuo, a descentralização dos processos decisórios pautados em evidências e a preparação de recursos humanos para a colaboração sistemática, sem perder a disciplina e a eficiência institucional.
A programação também incluiu o lançamento da reedição de À Margem da Ciência, obra do almirante Álvaro Alberto, pioneiro da política nuclear brasileira e fundador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A caixa comemorativa reúne os quatro volumes originais com artigos e discursos do autor, mais um quinto tomo exclusivo contendo a tese de doutorado da pesquisadora Camila Cardoso sobre o arquivo e a vida do homenageado. Como marco físico das sete décadas, foi inaugurada uma escultura no campus com um painel histórico registrando a trajetória conjunta que continua a contribuir para políticas públicas, modernização industrial e soluções em saúde voltadas à sociedade brasileira.
Citações Notáveis
Trata-se de um dos mais longevos e profícuos acordos de cooperação institucional da nossa Universidade— Reitor Aluísio Segurado
A cooperação técnica exerce um papel central na construção de uma força com alto grau de suficiência tecnológica— Comandante da Marinha Marcos Sampaio Olsen