'Urutau' funde dança, xamanismo e rock em performance onírica no centro de SP

A performance é um grande ritual para ver se aqueles pianos viram pássaros
Edgar explica o conceito central de "Urutau", nascido de um sonho de Wagner Antônio sobre transformação e transcendência.
Mark

Por que começar com um toré indígena? Parece um ponto de partida muito específico para uma performance que depois mergulha em rock e rap.

Mimi

O maracá funciona como um acelerador. Máximo Wassu não está ali apenas como representação — ele está reorganizando o espaço, criando as condições para que tudo que vem depois faça sentido. É como ligar um motor.

Mark

E a dança dos pianos? Dois homens, dois instrumentos, movimentos que parecem caóticos.

Mimi

Não é caos. É uma conversa entre o corpo e o som. Melifona toca, Trainotti responde com o corpo. Começa controlado, depois explode. É como se o piano estivesse tentando virar pássaro, como no sonho de Wagner.

Mark

Fale sobre aquela cena do orelhão, do garoto com a bicicleta.

Mimi

É Brasil. É realidade. Um garoto vendendo drogas, a polícia, a militarização. Edgar rima sobre isso enquanto o vestem de soldado. Barbarelli entra e o tapa, gritando que ela é a realidade. Porque a realidade bate mesmo.

Mark

A iluminação parece ser mais que cenário.

Mimi

É estrutura. Wagner cria pistas de skate de luz. Os performers andam nelas. Sem a luz, não há performance — há apenas corpos no escuro.

Mark

E no final, aquele ritual de lavar as camisas com "inocente" escrito?

Mimi

É a pergunta que fica. Depois de tudo que vimos — a violência, a política, o caos — o que significa ser inocente? Cada pessoa que passou por aquele palco carrega essa palavra.

  • A urgência da performance está na recusa de qualquer categoria: não é ritual, não é show, não é dança — é tudo ao mesmo tempo, e essa indistinção é proposital e perturbadora.
  • A cena do orelhão concentra a tensão máxima: um rap sobre um menino que vende drogas, um tapa no rosto e o grito 'eu sou a realidade' anunciam que o onírico e o político são inseparáveis.
  • A iluminação não serve os performers — ela os precede, criando esculturas de luz que definem o espaço antes que qualquer corpo o ocupe.
  • O sonho que gerou o título — um piano querendo virar pássaro — materializa-se em cena com saltos febris, quedas violentas e um solo de alaúde iraniano que emerge do caos.
  • O encerramento propõe uma purificação coletiva: camisas marcadas com a palavra 'inocente' são lavadas e estendidas, deixando a pergunta sobre o que essa inocência ainda significa no Brasil de hoje.

No coração de São Paulo, uma performance chamada 'Urutau' reúne corpos, sons e luz para interrogar o que significa existir no Brasil contemporâneo. Novíssimo Edgar e Wagner Antônio constroem, no Instituto Capobianco, um ritual que não pertence a nenhum gênero artístico isolado — é dança, xamanismo, rock e rap fundidos numa linguagem onírica que nasce de sonhos e ressoa em tensões geopolíticas reais. Como o urutau, ave do mau agouro que dá nome ao espetáculo, a performance habita a fronteira entre o que se vê e o que se pressente.

Dois homens dançam sobre pianos. Um gira o instrumento enquanto o outro caminha de cabeça para baixo sobre sua tampa, saltando entre as teclas amareladas de um velho Yamaha com crescente frenesi. É apenas uma das cenas que compõem 'Urutau', performance experimental que Novíssimo Edgar e o encenador Wagner Antônio apresentam no Instituto Capobianco, no centro de São Paulo, até o final de agosto.

O espetáculo abre com Máximo Wassu, indígena da etnia wassu-cocal, executando um toré ao som do maracá — instrumento que Edgar descreve, com base no antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, como um acelerador de partículas capaz de reorganizar o que parece desconexo. O que se segue desafia qualquer categorização: toré, xamanismo, rock improvisado e rap coexistem, tecidos por temas de tensão geopolítica brasileira. 'Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil', afirma Edgar.

A iluminação é o fio condutor invisível. Wagner Antônio a concebe não como suporte aos performers, mas como instalação autônoma — a luz cria esculturas em regiões do palco onde ninguém está, abrindo caminhos antes que os corpos os percorram. Uma das cenas mais perturbadoras mostra Edgar atendendo um orelhão e rimando sobre um menino que vende drogas, enquanto figuras o vestem com trajes militares. A cantora Barbarelli o arrasta ao centro e lhe dá um tapa, gritando 'eu sou a realidade'. O que segue é um rock barulhento com letras políticas e músicos de rosto coberto por máscaras de palha.

O próprio título nasceu de um sonho: na véspera da estreia, Antônio sonhou com um piano que desejava se transformar num urutau, ave noturna associada ao mau agouro. Esse sonho ganha corpo na cena dos pianos, onde o músico Melifona e o bailarino Augusto Trainotti criam um diálogo entre som e movimento que começa lento e termina em quedas violentas — momento em que o músico iraniano Farshad Gheshmi inicia um solo de alaúde.

No encerramento, Edgar surge com um balde de alfazema e todo o elenco vestido de branco. Juntos, lavam e estendem camisas estampadas com a palavra 'inocente' — gesto de purificação que ecoa as trajetórias de cada figura que passou pelo palco e deixa suspensa a pergunta sobre o que essa inocência ainda pode significar.

Dois homens dançam sobre pianos. Um gira o instrumento enquanto o outro caminha de cabeça para baixo sobre sua tampa. O primeiro bate o corpo do piano com os punhos; o outro salta entre as teclas amareladas de um velho Yamaha, cada pulo mais frenético, cada pancada mais forte. A cena é apenas uma das muitas que compõem "Urutau", performance experimental que o multiartista Novíssimo Edgar e o encenador Wagner Antônio apresentam no Instituto Capobianco, no centro de São Paulo, até o final de agosto.

O espetáculo abre com Máximo Wassu, indígena da etnia wassu-cocal, executando um toré — dança tradicional de seu povo — enquanto toca o maracá. Edgar explica que o instrumento funciona como um acelerador de partículas, conforme descrito pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Naquele momento inicial, o maracá reorganiza elementos que pareceriam desconexos em qualquer outro contexto. A partir daí, o que se desenrola na cena desafia categorização. Não é exatamente um ritual xamânico, nem uma apresentação de dança pura, nem um show de rock ou uma roda de rap — é tudo isso simultaneamente, tecido junto por temas que exploram tensões geopolíticas contemporâneas. "Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil, com o tempero que faz tudo ter sentido", afirma Edgar.

A iluminação funciona como o fio condutor invisível. Wagner Antônio não a concebe como iluminação convencional, mas como uma instalação que ocupa o espaço. Frequentemente, a luz não incide sobre os performers, mas cria o que parecem ser esculturas luminosas em outras regiões do palco. "É como se a minha luz proporcionasse uma pista de skate para que o Edgar ande", descreve Antônio, sugerindo que a luz não apenas revela, mas cria o caminho para a ação.

Uma das cenas mais perturbadoras acontece quando Edgar atende um orelhão e rima sobre um garoto que vende drogas de bicicleta, enquanto duas figuras o despem e o vestem com trajes militares. A cantora Barbarelli o arrasta para o centro do palco e lhe dá um tapa no rosto, gritando "eu sou a realidade". O que segue é um rock improvisado barulhento, com a banda berrando letras políticas entre guitarras distorcidas, os rostos dos músicos cobertos por máscaras de palha. A atmosfera onírica persiste do início ao fim.

O próprio título da performance emerge de um sonho. Na noite anterior à estreia, Antônio sonhou com um piano que desejava se transformar num urutau, ave noturna associada ao mau agouro. "A performance é um grande ritual para ver se aqueles pianos viram pássaros", diz Edgar. Esse sonho ganha corpo na cena da dança dos pianos, onde o músico Melifona e o bailarino Augusto Trainotti criam um diálogo entre som e movimento. A dança começa lenta, ganha tração progressivamente, até sair do controle com saltos febris e quedas violentas. No último tombo, o músico iraniano Farshad Gheshmi inicia um solo de alaúde.

No encerramento, Edgar surge carregando um balde de alfazema, acompanhado por todo o elenco vestido de branco. Juntos, lavam e estendem camisas num varal, cada uma estampada com a palavra "inocente". O gesto é simbólico, ressoa nas trajetórias de cada figura que passou pelo palco — uma purificação final que questiona o que significa inocência num contexto de tensão geopolítica e realidade brasileira.

Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil, com o tempero que faz tudo ter sentido
— Novíssimo Edgar
É como se a minha luz proporcionasse uma pista de skate para que o Edgar ande
— Wagner Antônio, iluminador
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