Ursa Kátia: de circo ao santuário, uma jornada de 15 anos por bem-estar animal

Ursa Kátia sofreu pelo menos 14 anos de confinamento inadequado em circos antes de ser resgatada, passando por condições climáticas prejudiciais durante sua permanência em zoológico.
De uma jaula de dois metros para um santuário de quase dois mil
A transformação física que marcou a trajetória de 15 anos de Kátia, do circo ao bem-estar animal.
Mark

Por que levou oito anos para que alguém questionasse se Canindé era o lugar certo para uma ursa-parda?

Mimi

Porque a mudança inicial — do circo para o zoológico — já parecia uma vitória. Ninguém estava acusando o zoológico de maus-tratos. Mas conforme o tempo passava, a questão climática se tornou inescapável. Uma ursa-parda não deveria estar num lugar onde faz 40 graus.

Mark

E por que precisou de uma decisão judicial? Por que o zoológico não transferiu os ursos voluntariamente?

Mimi

Não sabemos exatamente. Talvez houvesse questões financeiras, logísticas ou simplesmente uma diferença de opinião sobre o que era melhor para os animais. O que sabemos é que levou uma ação civil pública e uma juíza para que a transferência acontecesse.

Mark

A operação em si — colocar dois ursos em caixas, voar para São Paulo — isso não é traumático?

Mimi

Provavelmente é. Mas a lógica era que o trauma de uma mudança única era menor que o sofrimento contínuo num clima inadequado. E o recinto em Joanópolis foi construído especificamente para minimizar o estresse da chegada.

Mark

Kátia tinha 26 anos quando chegou lá. Isso é velho para um urso?

Mimi

Não é jovem. Ela havia passado 14 anos em circo, 8 em zoológico. A maior parte de sua vida consciente foi em confinamento. O santuário oferecia a chance de viver seus últimos anos — quantos fossem — em condições que se aproximavam do que seria natural.

Mark

E Dimas? O outro urso?

Mimi

Dimas fez a mesma jornada. Ambos deixaram Canindé juntos, ambos chegaram a Joanópolis juntos. Suas histórias são paralelas, embora o registro público tenha focado mais em Kátia.

  • Kátia passou pelo menos 14 anos em jaulas de circo antes do resgate do Ibama em 2011, aos 18 anos e pesando 250 quilos
  • Transferida judicialmente de Canindé para Joanópolis em agosto de 2019 após argumentos sobre inadequação climática
  • O recinto em Joanópolis tem 1.900 metros quadrados, comparado aos 2 metros por 2 metros do circo original

Kátia passou pelo menos 14 anos em jaulas improvisadas de circo antes do resgate do Ibama em 2011, quando tinha 18 anos e pesava cerca de 250 quilos. Entidades de proteção animal mobilizaram-se judicialmente argumentando que o calor de Canindé, chegando a 40 graus, era inadequado para ursos-pardos, diferentemente da Serra da Mantiqueira.

Após 14 anos em circos, a ursa-parda Kátia foi resgatada pelo Ibama em 2011 e transferida em 2019 de um zoológico cearense para um santuário em São Paulo devido a preocupações com o clima inadequado à espécie.

Kátia tinha 18 anos e pesava cerca de 250 quilos quando agentes do Ibama a encontraram em 2011, presa numa jaula improvisada de aproximadamente dois metros por dois metros num circo de Quatipuru, no Pará. Ela havia passado pelo menos 14 anos naquele confinamento, parte de uma rotina que a mantinha acorrentada enquanto o circo se movia de cidade em cidade. Quando a apreensão aconteceu, o Ibama retirou quatro ursos do local, mas Kátia seguiu para o Zoológico São Francisco, em Canindé, no interior do Ceará — uma mudança que, à primeira vista, parecia ser um alívio.

O recinto em Canindé oferecia 200 metros quadrados, piscina e acompanhamento veterinário regular. O veterinário Henrique Weber, responsável pelos cuidados no zoológico, priorizava recuperar a saúde física da ursa após anos de negligência. Registros indicam que o Ibama já monitorava aquele circo há dois anos antes da apreensão, sugerindo que a situação de Kátia era conhecida há tempos. Para uma ursa que havia vivido em dois metros quadrados, o espaço cearense representava uma expansão dramática, e os profissionais do zoológico trabalhavam para reverter os danos do confinamento prolongado.

Mas conforme os anos passavam, uma questão começou a ganhar peso: o clima. Canindé é quente — muito quente para uma ursa-parda. Entidades de proteção animal começaram a argumentar que as temperaturas da região, chegando a cerca de 40 graus, eram inadequadas para a espécie, que naturalmente habita regiões de clima temperado. A ativista Luisa Mell levou o caso à Justiça em 2018, argumentando que Kátia e Dimas, outro urso-pardo no zoológico, estavam submetidos a condições climáticas prejudiciais. A Associação Brasileira dos Defensores dos Direitos e Bem Estar dos Animais apresentou uma ação civil pública. Em junho de 2019, a juíza Tássia Fernanda de Siqueira, da 3ª Vara da Comarca de Canindé, determinou a transferência dos dois ursos.

É importante notar que essa disputa não era sobre maus-tratos. Os registros deixam claro que a equipe do zoológico cearense cuidava bem dos animais. A controvérsia era exclusivamente sobre adequação climática — se o calor de Canindé era compatível com a fisiologia de uma ursa-parda. Os fundadores do Rancho dos Gnomos, um santuário em Joanópolis, no interior de São Paulo, argumentavam que a Serra da Mantiqueira oferecia temperaturas muito mais apropriadas.

Na manhã de 28 de agosto de 2019, oito anos após chegar a Canindé, Kátia foi colocada numa caixa de transporte fabricada especialmente para ela. Junto com Dimas, foi transportada em caminhão-guincho até Fortaleza, acompanhada por veterinários, biólogos e funcionários do zoológico. De lá, os dois ursos seguiram em voos separados rumo a São Paulo, enquanto a equipe terrestre completava a logística de uma transferência que havia sido decidida judicialmente meses antes.

O recinto que os esperava em Joanópolis era radicalmente diferente de tudo que Kátia havia conhecido. Com 1.900 metros quadrados, incluía gramado, piscina com capacidade para 80 mil litros, cascata, grutas, deck de madeira, troncos e árvores frutíferas. Era um espaço planejado especificamente para receber animais daquele porte, oferecendo não apenas segurança, mas enriquecimento ambiental. A trajetória de Kátia — de uma jaula de dois metros por dois metros para um santuário de quase dois mil metros quadrados — marcava uma transformação de 15 anos.

A história de Kátia não é apenas sobre um animal individual. É sobre como a mobilização de entidades de proteção animal, a ação judicial e a logística operacional podem convergir para mudar o destino de um ser que passou a maior parte de sua vida em confinamento. Ela também ilustra uma mudança gradual na forma como a sociedade brasileira pensa sobre bem-estar animal — passando de uma aceitação passiva de zoológicos para questionar se as condições oferecidas, mesmo que melhores que um circo, são realmente adequadas. Para Kátia, aos 26 anos, a Serra da Mantiqueira representava uma segunda chance.

A prioridade era recuperar a saúde do animal após a retirada do circo
— Veterinário Henrique Weber, Zoológico São Francisco
O calor de Canindé podia chegar a cerca de 40 graus, enquanto as temperaturas da Serra da Mantiqueira eram mais adequadas aos ursos
— Fundadores do Rancho dos Gnomos
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