Em véspera de eleição presidencial, o Unicef examinou o que cinco candidatos brasileiros realmente propõem para proteger crianças — e descobriu que a urgência dos números não se traduz em profundidade de resposta. Diante de quase seis mortes violentas de crianças por dia e de um aumento de 106% nos casos de maus tratos, os programas de governo privilegiam punição e policiamento sobre prevenção, silenciam sobre mortes por intervenção policial e ignoram as desigualdades de raça, gênero e deficiência que tornam alguns meninos e meninas muito mais vulneráveis do que outros. A análise revela menos
Unicef aponta que propostas presidenciais focam em resposta, não prevenção da violência infantil
Punição sozinha não protege a criança que ainda não foi machucada
Por que o Unicef se importa se as propostas focam em punição ou prevenção? Não é importante punir quem machuca crianças?
Claro que é importante. Mas punição sozinha não protege a criança que ainda não foi machucada. Se você só investe em prisões e investigações, está tratando o problema depois que ele já destruiu uma vida.
Entendo. Mas então por que os candidatos escolhem esse caminho? Parece mais fácil falar em segurança do que em políticas sociais complexas.
Exatamente. Punição é visível, é imediata, é algo que você pode anunciar em uma campanha. Prevenção é mais lenta, envolve educação, saúde, assistência social — é menos glamouroso politicamente.
E qual é o risco real dessa escolha?
O risco é que você continua tendo 2.079 crianças mortas por ano, 38 mil casos de maus tratos, 61 mil estupros. Os números não mudam porque você está tratando o sintoma, não a doença.
Então nenhum dos candidatos está propondo o que deveria ser proposto?
Lula está mais próximo, com foco em prevenção. Caiado tenta equilibrar. Mas nenhum deles está realmente pensando em como proteger crianças negras, indígenas, com deficiência — os grupos que mais sofrem.
Por que essa invisibilidade?
Porque exige olhar para desigualdades estruturais. É mais fácil falar em crime e castigo do que reconhecer que algumas crianças nascem em risco muito maior que outras.
Il Polso
- Quase seis crianças e adolescentes são mortos violentamente por dia no Brasil — a maioria negra e do sexo masculino —, enquanto maus tratos cresceram 106% e 61 mil estupros foram registrados em um único ano.
- O Unicef analisou 178 menções a crianças nos programas dos cinco principais candidatos e encontrou um padrão dominante: punição e policiamento aparecem com muito mais frequência do que prevenção ou políticas sociais integradas.
- Bolsonaro e Zema concentram suas propostas em resposta punitiva; Caiado equilibra investigação com ações intersetoriais; apenas Lula orienta seu plano predominantemente para a prevenção.
- Nenhum dos cinco candidatos propõe medidas específicas para lidar com mortes causadas por intervenção policial, e nenhum reconhece as desigualdades de raça, etnia ou deficiência que ampliam o risco de violência para grupos específicos de crianças.
- O Unicef alerta que adolescentes aparecem nos programas quase exclusivamente como perpetradores — via debate sobre maioridade penal — e raramente como vítimas que precisam de proteção e oportunidades.
Em véspera de eleição presidencial, o Unicef examinou o que cinco candidatos brasileiros realmente propõem para proteger crianças — e descobriu que a urgência dos números não se traduz em profundidade de resposta. Diante de quase seis mortes violentas de crianças por dia e de um aumento de 106% nos casos de maus tratos, os programas de governo privilegiam punição e policiamento sobre prevenção, silenciam sobre mortes por intervenção policial e ignoram as desigualdades de raça, gênero e deficiência que tornam alguns meninos e meninas muito mais vulneráveis do que outros. A análise revela menos uma falha de intenção do que uma lacuna de imaginação política: tratar a violência infantil como caso de polícia, e não como falha coletiva que exige resposta integrada.
Quando o Unicef examinou os planos de governo dos cinco candidatos presidenciais com maior intenção de voto — Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Renan Santos —, encontrou 178 referências a crianças e adolescentes cobrindo educação, saúde, proteção social e segurança. Mas ao olhar para o que essas propostas realmente fazem, a organização identificou um padrão preocupante: a maioria das ideias sobre violência infantil trata de como punir depois que o dano já foi feito, não de como evitá-lo.
Das 39 menções a violência ou segurança pública, predominam propostas de aumento de penas, expansão do policiamento e fortalecimento de investigações criminais. Prevenção, fortalecimento do sistema de proteção de direitos e integração entre educação, saúde, assistência social e segurança aparecem raramente. Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil, deixou claro que não se trata de escolher entre punição e prevenção — ambas são necessárias —, mas que proteger crianças de verdade exige agir antes que a violência aconteça.
As lacunas são reveladoras. Riscos digitais e violência doméstica contra crianças aparecem em apenas dois programas. Homicídios em contextos urbanos foram mencionados por um único candidato. E nenhum dos cinco propõe algo específico para mortes decorrentes de intervenção policial. Crianças negras, indígenas e com deficiência são praticamente invisíveis nos planos — tratadas como parte de um grupo homogêneo, sem reconhecimento das desigualdades que as tornam mais vulneráveis.
Os números que dão peso a essa análise são brutais: 2.079 crianças e adolescentes mortos violentamente em 2025, maus tratos com alta de 106% e 61 mil estupros registrados, a maioria dentro de casa. Para o Unicef, esses dados revelam uma crise que mata e traumatiza milhares de meninos e meninas todos os anos — e os programas apresentados pelos candidatos ainda não estão à altura do desafio.
Quando o Fundo das Nações Unidas para a Infância examinou os planos de governo dos cinco candidatos presidenciais com maior intenção de voto — Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos — encontrou algo que parecia estar lá, mas não estava realmente. Quase todas as campanhas mencionam crianças e adolescentes. Há 178 referências espalhadas pelos programas, cobrindo educação, saúde, proteção social e segurança. Mas quando o Unicef olhou para o que essas propostas realmente fazem, viu um padrão que a preocupa: a maioria das ideias sobre violência infantil trata de como punir e responder depois que o dano já foi feito, não de como evitar que aconteça.
Entre os temas mencionados, educação aparece 42 vezes, violência ou segurança pública 39 vezes, saúde 30 vezes, proteção social 28 vezes. Para Romeu Zema, Flávio Bolsonaro e Renan Santos, educação é o assunto infantil que mais aparece em seus planos. Para Lula e Caiado, é o enfrentamento à violência. Mas aqui está o problema: quando os candidatos falam sobre violência contra crianças, o que propõem é principalmente aumentar penas, expandir o policiamento e fortalecer investigações criminais. Propostas sobre prevenção — sobre como evitar que a violência aconteça em primeiro lugar — são raras. Também são raras as ideias sobre fortalecer o sistema que deveria proteger os direitos das crianças ou sobre trabalhar de forma integrada entre educação, saúde, assistência social e segurança.
Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil, explicou que não se trata de escolher entre prevenção e punição. É preciso investigar e responsabilizar quem comete violência. Mas para realmente proteger crianças e adolescentes, é fundamental agir antes que a violência aconteça, através de políticas de educação, oportunidades para jovens, assistência social, saúde e fortalecimento das famílias. Os planos de Bolsonaro e Zema focam principalmente em punição e resposta. O plano de Caiado dá ênfase à investigação e penalização, mas inclui também propostas intersetoriais de prevenção. O plano de Lula está mais voltado para ações de prevenção da violência infantojuvenil.
Quando se olha para os tipos específicos de violência que os candidatos mencionam, aparecem lacunas significativas. Violência sexual contra crianças aparece nos planos de Lula, Bolsonaro e Caiado. Riscos em ambientes digitais são citados apenas por Lula e Caiado. Violência doméstica contra meninos e meninas também aparece em apenas dois programas. Os homicídios de crianças e adolescentes em contextos urbanos foram mencionados apenas por Caiado. Nenhum dos cinco candidatos propõe algo específico para lidar com mortes decorrentes de intervenção policial. E há praticamente nenhuma discussão sobre como as crianças são afetadas pela violência — as únicas propostas dedicadas aos adolescentes tratam de redução da maioridade penal e mudanças no sistema socioeducativo, o que, para o Unicef, reflete uma visão de adolescentes como perpetradores e não como vítimas.
Outra ausência notável é a falta de atenção às desigualdades. Os planos tratam meninos e meninas como um grupo homogêneo, sem considerar raça, etnia, gênero, deficiência ou território. Não há referências específicas a crianças negras e indígenas, grupos que enfrentam desigualdades persistentes e maiores riscos de violência. Meninas e crianças com deficiências aparecem nos programas, mas de forma limitada.
Os números que dão peso a essa análise são brutais. De acordo com o Anuário de Segurança Pública de 2026, em 2025 foram mortos 2.079 crianças e adolescentes de forma violenta no Brasil — quase seis por dia. A maioria são adolescentes do sexo masculino e negros. Dentro de casa, os maus tratos aumentaram 106% entre 2024 e 2025, com mais de 38 mil casos registrados no último ano. Foram registrados 61 mil estupros ou estupros de vulnerável, a maioria ocorrida em casa por autores desconhecidos. Esses números mostram que a violência contra crianças não é um problema marginal ou teórico — é uma crise que mata, machuca e traumatiza milhares de meninos e meninas todos os anos. E os planos que os candidatos apresentam, segundo o Unicef, ainda não estão à altura do desafio.
Citazioni salienti
Não se trata de escolher entre prevenção ou repressão. É preciso investigar e responsabilizar os autores da violência. Mas, para proteger crianças e adolescentes, é fundamental também agir antes que a violência aconteça— Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil