Brasil carecia de dados detalhados sobre prevalência de trombose e suas complicações, informação essencial para políticas de saúde pública. Pesquisa acompanha três grupos: adultos com trombose, pacientes com câncer e crianças hospitalizadas, com meta de 5 mil casos de câncer em um ano.
Unicamp inicia pesquisa epidemiológica inédita sobre trombose no Brasil
Vamos apresentar dados inéditos que vão auxiliar na tomada de decisão
Por que essa pesquisa demorou tanto para começar? O Brasil não tinha interesse em trombose antes?
Não é falta de interesse. É que ninguém tinha estrutura para fazer isso em escala. Você precisa de hospitais coordenados, de um sistema de coleta de dados, de armazenamento de amostras. A Unicamp tem o Hemocentro, tem expertise. Mas também precisava de vontade política e de financiamento. Tudo isso convergiu agora.
E esses dados que vocês estão coletando — como eles vão mudar a prática médica?
Hoje, um médico no interior de São Paulo não sabe qual é o risco real de um paciente com câncer desenvolver trombose. Ele segue protocolos internacionais, que podem não se aplicar exatamente aqui. Com nossos dados, ele vai ter números brasileiros. Vai saber: em nossa população, com nossas características, qual é o risco? Isso muda tudo.
A lei que foi sancionada — a 15.448 — parece importante. Mas como você garante que os hospitais vão cumprir?
Essa é a questão. A lei obriga, mas implementação é sempre desafiadora. Alguns hospitais já têm comissões de prevenção. Outros vão precisar criar do zero. O que ajuda é que agora há uma obrigação legal, há prazo, há consequências. E nossos dados vão mostrar se funciona.
Fale sobre Maria Clot. Por que uma personagem? Por que não apenas campanhas tradicionais?
Porque ciência é abstrata. Coágulo, síndrome pós-trombótica — essas palavras não significam nada para uma criança. Mas uma personagem que tem uma história, que tem família, que teve trombose — isso é real. A criança se conecta. E quando ela cresce, lembra da Maria Clot e pensa: ah, trombose é coisa séria.
Vocês estão acompanhando crianças por seis meses após a alta. Quase 250 tromboses em mil casos. Isso é muito?
Para cateteres venosos, é uma taxa significativa. Essas crianças estavam hospitalizadas, muitas delas graves. O cateter é necessário, mas tem risco. O que queremos saber é: como evolui? Quantas desenvolvem complicações? Quantas se recuperam bem? Esses dados vão ajudar a melhorar o cuidado.
E a meta de cinco mil casos de câncer em um ano — vocês acham que vão conseguir?
Estamos em onze hospitais. Alguns têm muitos pacientes com câncer. É ambicioso, mas possível. O que importa é que, ao final, tenhamos uma amostra robusta que represente a realidade brasileira. Cinco mil é um bom número para isso.
O Pulso
- Brasil não tinha dados detalhados sobre prevalência de trombose venosa e suas complicações
- Pesquisa envolve 11 hospitais do SUS em 6 cidades paulistas
- Meta de 5 mil casos de adultos com câncer acompanhados por um ano
- Quase 250 tromboses diagnosticadas em mais de mil casos pediátricos
- Lei 15.448/2026 obriga hospitais a criar comissões de prevenção em 180 dias
- Mais de 36 mil diagnósticos de trombose no Brasil nos primeiros 6 meses de 2025
Brasil carecia de dados detalhados sobre prevalência de trombose e suas complicações, informação essencial para políticas de saúde pública. Pesquisa acompanha três grupos: adultos com trombose, pacientes com câncer e crianças hospitalizadas, com meta de 5 mil casos de câncer em um ano.
Centro de Doenças Tromboembólicas da Unicamp iniciou primeira pesquisa epidemiológica brasileira sobre trombose venosa, coletando dados em 11 hospitais do SUS para subsidiar políticas públicas de saúde.
O Brasil, até agora, operava às cegas quando o assunto era trombose venosa. Ninguém sabia quantas pessoas desenvolviam a doença a cada ano. Ninguém tinha números sobre quantas delas sofriam complicações. Ninguém podia responder perguntas básicas: qual era a taxa de recorrência? Quantos pacientes com câncer desenvolviam trombose? Essas lacunas — aparentemente técnicas — tinham consequências reais para a saúde pública de um país de mais de 200 milhões de pessoas.
Em 2026, o Centro de Doenças Tromboembólicas (CDT), sediado no Laboratório de Hemostasia do Hemocentro da Unicamp, começou a preencher esse vazio. A pesquisa epidemiológica, a primeira do tipo no Brasil, nasceu de uma constatação simples mas urgente: sem dados, não há política pública informada. Joyce Maria Annichino, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e coordenadora do CDT, resumiu o problema com clareza. "Se você procurar dados brasileiros sobre síndrome pós-trombótica em pacientes com trombose na perna, não vai encontrar", disse. "Quantos tiveram um novo episódio em dois anos? Qual a porcentagem de pacientes com câncer que desenvolvem trombose? Ninguém sabe." A pesquisa foi desenhada para mudar isso.
O trabalho se organiza em três frentes. A primeira acompanha adultos com câncer — a meta é reunir cinco mil casos, monitorados por um ano, registrando a ocorrência de trombose ou morte. A segunda segue pacientes com trombose venosa aguda nos braços ou pernas por dois anos, avaliando se desenvolvem síndrome pós-trombótica ou sofrem recorrência. A terceira examina crianças que receberam cateteres venosos durante hospitalização, rastreando tromboses associadas e sua evolução. Nesta última frente, os pesquisadores já finalizaram a inclusão de participantes: quase 250 tromboses foram diagnosticadas em mais de mil casos pediátricos, com acompanhamento de seis meses após a alta.
A rede de pesquisa se estende por onze hospitais do Sistema Único de Saúde em seis cidades paulistas — Campinas, São Paulo, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Barretos e Botucatu. Os dados demográficos e clínicos são inseridos na plataforma REDCap, um sistema de captura eletrônica de dados de pesquisa. Amostras de sangue são coletadas e armazenadas no Biobanco do Hemocentro da Unicamp, criando um repositório que poderá alimentar futuras investigações. O projeto conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp.
O contexto global torna a urgência evidente. De acordo com a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia (ISTH), cerca de dez milhões de casos de trombose venosa são registrados no mundo a cada ano — uma incidência de um a dois casos para cada mil indivíduos. Desses, aproximadamente cem mil resultam em morte. No Brasil, o Ministério da Saúde contabilizou mais de 36 mil diagnósticos nos primeiros seis meses de 2025, uma média de 200 internações por dia. Annichino observa que esse número provavelmente fica abaixo da realidade, em parte porque a trombose não é uma doença de notificação compulsória — muitos casos simplesmente não são registrados.
Mas há movimento. Em 2026, foi sancionada a lei 15.448, resultado de três anos de tramitação e dos esforços do CDT e da Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia, da qual Annichino é presidente. A lei obriga todos os hospitais e serviços de saúde que ofereçam internação a criar, em 180 dias, uma comissão com programas permanentes de prevenção de trombose. Qualquer paciente hospitalizado passará por avaliação de risco e receberá medidas profiláticas apropriadas, como medicamentos anticoagulantes. "Isso é um marco em nosso país, pois muitos casos de trombose poderão ser evitados", celebrou Annichino.
Paralelamente, o CDT lançou uma estratégia de comunicação pública. Há cerca de um ano, criou Maria Clot, uma personagem que leva informações sobre trombose à população, especialmente crianças, através de redes sociais, ações presenciais e programas na Educa TV, emissora vinculada à prefeitura de Campinas. O apelido Clot vem do inglês "clot" (coágulo) e também da história de Maria: sua mãe, médica, a chamava assim na infância porque era uma pessoa agregadora. Na adolescência, Maria desenvolveu trombose pelo uso de anticoncepcionais, dando ao apelido um significado ainda mais profundo. Nos últimos meses, a personagem ganhou uma família — pai, mãe, irmão, namorado (Bled, palavra inglesa para sangramento) e um cachorro (Trombito). Com ajuda de inteligência artificial, o CDT produz dois episódios semanais publicados no Instagram e TikTok, transformando a ciência em narrativa acessível.
O que emerge dessa pesquisa — os números, os padrões, as histórias — será o alicerce para decisões que afetarão milhões de brasileiros. Pela primeira vez, o país terá dados próprios sobre uma doença que mata silenciosamente, que complica vidas, que pode ser prevenida. Annichino deixou claro: "Vamos apresentar dados inéditos ao país, que vão poder auxiliar na tomada de decisão e dar sustentação para o estabelecimento de políticas públicas de saúde." O trabalho está em andamento. Os hospitais estão coletando. O Biobanco está crescendo. E em breve, o Brasil saberá, finalmente, o tamanho real do problema que enfrentava.
Citações Notáveis
Se você procurar dados brasileiros sobre síndrome pós-trombótica em pacientes com trombose na perna, não vai encontrar— Joyce Maria Annichino, coordenadora do Centro de Doenças Tromboembólicas
Isso é um marco em nosso país, pois muitos casos de trombose poderão ser evitados— Joyce Maria Annichino, sobre a sanção da lei 15.448/2026