A técnica transforma 50-120 folículos em quantidade maior usando cultura celular, nanotecnologia e medicina regenerativa em estruturas tridimensionais. Cirurgias convencionais de 8-10 horas poderiam reduzir para 2 horas, e folículos poderiam ser congelados antes de quimioterapia para uso futuro.
Unicamp desenvolve técnica para multiplicar folículos capilares e ampliar acesso a transplantes
Laboratório receberia amostra menor, multiplicaria células e entregaria volume maior
Por que essa técnica é tão diferente do transplante que já existe?
O transplante convencional depende de folículos que já estão no corpo do paciente — você retira da nuca e implanta na frente. Se não há folículos suficientes para retirar, a cirurgia não é possível. Aqui, você pega uma amostra pequena e a multiplica no laboratório. Muda completamente quem pode ser tratado.
E quanto ao tempo? Ouvi falar em redução de oito horas para duas.
Sim, porque o trabalho pesado acontece antes, no laboratório. O cirurgião recebe folículos já preparados e selecionados, não precisa fazer tudo durante a cirurgia. Mas isso ainda é uma projeção — ninguém fez isso em um paciente de verdade ainda.
Qual é o maior risco científico que vocês ainda precisam resolver?
Manter as características naturais do cabelo. Cor, textura, curvatura — tudo isso pode mudar quando você cultiva as células fora do corpo. Precisamos garantir que o cabelo que cresce é idêntico ao original do paciente.
E se alguém perder cabelo por quimioterapia? Essa técnica ajuda?
Potencialmente, sim. A ideia é congelar uma amostra de folículos antes do tratamento do câncer, depois descongelar e multiplicar para repor o que foi perdido. Mas o congelamento também é complexo — as células precisam sobreviver intactas.
Quanto tempo até isso estar disponível em uma clínica?
Ainda há muitos anos pela frente. Dezoito meses para terminar os testes pré-clínicos, depois ensaios clínicos com acompanhamento de dois anos, depois análise regulatória. Estamos falando de vários anos no mínimo, talvez uma década.
Quem vai oferecer isso quando estiver pronto?
Uma empresa chamada Aeter Bianco, que é uma parceria entre a spin-off da Unicamp e um cirurgião capilar. Eles vão fornecer o protocolo e o processamento para clínicas habilitadas, não vão abrir uma clínica própria.
The Pulse
- Técnica transforma 50-120 folículos em quantidade maior usando organoides capilares
- Cirurgias convencionais de 8-10 horas poderiam reduzir para aproximadamente 2 horas
- Pesquisa em fase pré-clínica; 18 meses até testes em animais, depois ensaios clínicos com 24 meses de acompanhamento
- Folículos poderiam ser congelados antes de quimioterapia e usados anos depois
- Aeter Bianco conduzirá transferência ao mercado; ainda sem data de disponibilização comercial
A técnica transforma 50-120 folículos em quantidade maior usando cultura celular, nanotecnologia e medicina regenerativa em estruturas tridimensionais. Cirurgias convencionais de 8-10 horas poderiam reduzir para 2 horas, e folículos poderiam ser congelados antes de quimioterapia para uso futuro.
Pesquisadores da Unicamp criaram método para multiplicar folículos capilares usando células do próprio paciente, visando atender pessoas com calvície extensa e vítimas de queimaduras ou quimioterapia.
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas desenvolveram um método que transforma uma pequena amostra de folículos capilares em uma quantidade muito maior de estruturas viáveis para transplante. O processo começa com a retirada de 50 a 120 folículos saudáveis do couro cabeludo do próprio paciente. Em laboratório, esses folículos são separados em seus componentes celulares — queratinócitos, células-tronco e células mesenquimais — que depois são cultivados em frascos com nutrientes e condições controladas para se multiplicarem. O material é então transferido para placas especiais que favorecem a organização das células em estruturas tridimensionais chamadas organoides capilares, que buscam reproduzir a arquitetura de um folículo natural.
A técnica reúne conhecimentos de cultura celular, nanotecnologia e medicina regenerativa desenvolvidos por pesquisadores do Instituto de Biologia e da Faculdade de Ciências Médicas da universidade. Um estudo publicado em 2023 na revista Scientific Reports demonstrou que células humanas cultivadas em estruturas tridimensionais podem formar brotos semelhantes aos encontrados durante o desenvolvimento dos folículos, embora a passagem do laboratório para um tratamento humano continue sendo uma etapa complexa. A pesquisa ainda está na fase pré-clínica e não pode ser oferecida em consultórios ou clínicas. A equipe estima que serão necessários cerca de 18 meses para concluir os testes em laboratório e os experimentos com animais antes de solicitar autorização para iniciar estudos em seres humanos.
O objetivo é atender pessoas que hoje são recusadas no transplante capilar convencional porque não têm folículos suficientes na nuca ou nas laterais da cabeça para servir como área doadora. No transplante tradicional, o médico retira unidades existentes de uma região doadora e transfere cada uma delas para a área afetada pela queda — um procedimento que pode durar entre oito e dez horas porque os folículos são retirados, preparados e implantados individualmente. A tecnologia da Unicamp tenta mudar essa relação. Em vez de depender de milhares de folículos retirados diretamente da cabeça, o laboratório receberia uma amostra menor, multiplicaria suas células e entregaria ao cirurgião um volume maior de estruturas previamente selecionadas. Os pesquisadores estimam que o período cirúrgico possa cair para cerca de duas horas, reduzindo o tempo de exposição do paciente à cirurgia e limitando os efeitos da fadiga da equipe durante procedimentos longos. Essa duração ainda não foi confirmada em pacientes, pois a pesquisa não chegou aos ensaios clínicos.
O procedimento também poderá ser estudado para pacientes que perderam cabelo após quimioterapia, queimaduras ou quadros avançados de alopecia. A equipe trabalha em um protocolo de criopreservação que permitiria armazenar uma pequena amostra de folículos em nitrogênio líquido ou em equipamentos mantidos a 80 graus Celsius negativos antes do tratamento contra o câncer. Após o tratamento, o material seria descongelado, cultivado e multiplicado para tentar recompor os cabelos perdidos. A queda causada por medicamentos contra o câncer nem sempre é permanente, mas a velocidade e o nível de recuperação variam. Em determinados casos, o cabelo cresce mais fino, muda de textura ou não retorna com a mesma densidade observada antes do tratamento.
Multiplicar células não garante, por si só, a formação de um folículo capaz de produzir cabelo durante anos. Os pesquisadores precisam verificar se as estruturas cultivadas manterão ciclos regulares de crescimento, repouso e queda depois de implantadas, e se os novos fios conservarão características como cor, espessura, curvatura e textura. Uma revisão publicada na revista Signal Transduction and Targeted Therapy mostrou que a regeneração funcional depende da interação entre células da papila dérmica, células epiteliais e o ambiente ao redor do folículo, e registra dificuldades para manter a capacidade regenerativa das células humanas após sua expansão fora do corpo. A equipe brasileira considera que o uso de células retiradas do folículo original aumenta a possibilidade de preservar as características naturais, mas essa hipótese precisará ser confirmada por análises laboratoriais e pelo acompanhamento prolongado dos primeiros participantes.
O material é autólogo, ou seja, vem do próprio paciente, o que pode diminuir o risco de rejeição, embora a segurança, a estabilidade das células e a resposta do organismo ainda precisem ser avaliadas nos estudos pré-clínicos e clínicos. Depois da fase pré-clínica, o grupo pretende submeter o projeto aos órgãos responsáveis e iniciar ensaios clínicos, com previsão de acompanhar os participantes por 24 meses, com exames mensais, fotografias padronizadas, mapeamento do couro cabeludo e avaliações hormonais. A Anvisa classifica produtos fabricados a partir de células e tecidos humanos manipulados como produtos de terapia avançada quando eles são destinados a reparar, substituir ou regenerar tecidos. No Brasil, as regras para pesquisas clínicas e registro dessa categoria estão previstas nas RDCs 506 e 505, ambas de 2021, além das normas de boas práticas de fabricação. O transplante desenvolvido na Unicamp ainda terá de demonstrar qualidade de produção, segurança biológica e benefício clínico.
A transferência da pesquisa ao mercado será conduzida pela Aeter Bianco, uma operação formada pela Aeter Biotech, spin-off acadêmica da Unicamp, e pela empresa do cirurgião capilar Thiago Bianco. O modelo previsto não é abrir uma clínica estética nem fabricar um produto para venda direta ao consumidor. A empresa pretende fornecer o protocolo, o processamento celular e o conhecimento técnico para médicos e clínicas que tenham estrutura e autorização para realizar o procedimento. Wagner José Fávaro, João Carlos Cardoso Alonso e André Lopes Ferreira receberam, em 2026, o Prêmio Inventores da Unicamp na categoria Propriedade Intelectual Licenciada. Ainda não há data para o tratamento chegar às clínicas nem estimativa pública de preço. Mesmo que os estudos avancem sem interrupções, a avaliação clínica, a análise dos resultados e o processo de autorização podem exigir vários anos.
Notable Quotes
A interação entre células epiteliais e mesenquimais é essencial porque o crescimento do cabelo depende da comunicação entre diferentes tecidos, e não apenas da multiplicação isolada de uma única célula.— Pesquisadores da Unicamp
A regeneração funcional depende da interação entre células da papila dérmica, células epiteliais e o ambiente ao redor do folículo.— Revisão publicada na revista Signal Transduction and Targeted Therapy