Em Portugal, criar emprego tornou-se sinónimo de criar emprego frágil: sete em cada dez novos postos de trabalho chegam sob a forma de contratos não permanentes, e são as mulheres — sobretudo as mais jovens — quem mais carrega esse peso. Um estudo da CGTP, divulgado na semana que antecede o Dia Internacional da Mulher, revela que 569 mil trabalhadoras vivem em precariedade, colocando o país na segunda posição europeia numa estatística que ninguém deveria ambicionar liderar. A questão não é apenas económica: é sobre que tipo de dignidade uma sociedade oferece a quem a sustenta.
Uma em cada quatro mulheres tinha vínculo precário em 2024
Sete em cada dez novos empregos surgem através de contratos não permanentes
Porque é que Portugal recorre tanto a contratos precários comparado com outros países europeus?
Porque é mais barato e mais flexível para as empresas. Não há compromisso de longo prazo, não há custos de formação, não há direitos consolidados. É uma escolha deliberada de como organizar o mercado de trabalho.
E porque é que as mulheres são mais afetadas?
Porque frequentemente ocupam setores com maior rotação — comércio, hotelaria, limpeza — e porque historicamente têm menos poder de negociação. A precariedade reforça desigualdades que já existem.
Qual é o impacto real na vida de uma mulher que vive com um contrato precário?
Ela não consegue planear. Não consegue pedir um crédito para casa. Não consegue ter filhos com segurança. Vive com medo de que o contrato não seja renovado. E ganha menos porque o contrato é precário.
Mais de metade dos desempregados registados perdeu o emprego porque o contrato terminou. Isso não deveria ser considerado uma falha do sistema?
Deveria. Significa que o sistema está a criar empregos que não são empregos de verdade — são períodos de trabalho temporário que terminam sem aviso prévio.
O que é que a CGTP quer que mude?
Quer que a precariedade deixe de ser a norma. Quer contratos permanentes, salários dignos, direitos consolidados. Quer que a Constituição seja cumprida, não apenas citada.
Le Pouls
- Quase 570 mil mulheres portuguesas — um quarto da força de trabalho feminina — enfrentam diariamente a instabilidade de contratos que podem terminar sem aviso e sem escolha.
- Entre as trabalhadoras mais jovens, a precariedade ultrapassa os 50%, transformando a entrada na vida profissional numa corrida de obstáculos sem linha de chegada estável.
- A insegurança contratual não existe isolada: traduz-se em salários mais baixos, menos formação, intimidações e chantagens, e ritmos de trabalho mais exigentes para quem tem menos poder de negociação.
- Mais de metade dos desempregados registados nos centros de emprego em dezembro perderam o trabalho simplesmente porque o contrato a prazo terminou — não por escolha, mas por design.
- A CGTP lança estes dados como um chamamento público durante a semana da igualdade, exigindo que a precariedade deixe de ser o modelo dominante de criação de emprego em Portugal.
Em Portugal, criar emprego tornou-se sinónimo de criar emprego frágil: sete em cada dez novos postos de trabalho chegam sob a forma de contratos não permanentes, e são as mulheres — sobretudo as mais jovens — quem mais carrega esse peso. Um estudo da CGTP, divulgado na semana que antecede o Dia Internacional da Mulher, revela que 569 mil trabalhadoras vivem em precariedade, colocando o país na segunda posição europeia numa estatística que ninguém deveria ambicionar liderar. A questão não é apenas económica: é sobre que tipo de dignidade uma sociedade oferece a quem a sustenta.
Portugal está a criar emprego — mas a maioria desse emprego nasce frágil. Sete em cada dez novos postos de trabalho surgem sob contratos não permanentes, e são as mulheres quem mais absorve essa instabilidade. Em 2024, quase 570 mil trabalhadoras — 25,6% da força de trabalho feminina — tinham vínculos precários. Entre as mais jovens, essa taxa ultrapassa os 50%.
Os dados, cruzados a partir do Ministério do Trabalho, da Direção-Geral da Administração Pública e do INE, mostram que a maioria dessas mulheres — 449 mil — trabalha sob contratos a termo no setor privado ou no setor empresarial do Estado. Outras 50 mil estão na Administração Pública nas mesmas condições, e quase 70 mil vivem numa zona ainda mais opaca: falsas prestações de serviço e formas híbridas de contratação.
A precariedade não é apenas um número. A CGTP alerta que ela se traduz em salários mais baixos, menor acesso a formação, intimidações e chantagens, e ritmos de trabalho mais intensos. Um estudo paralelo da central sindical revelou que quase 60% das trabalhadoras recebia até 1.000 euros brutos em novembro de 2025, e uma em cada cinco auferia apenas o salário mínimo. A precariedade amplifica todas as outras desigualdades.
Portugal ocupa a segunda posição europeia no recurso a vínculos precários — uma posição que reflete escolhas estruturais, não fatalidade. As mulheres representam 45% de todos os trabalhadores precários no país, carregando uma parte desproporcional de um problema que é coletivo.
Estes estudos foram divulgados pela CGTP no contexto da semana da igualdade, que decorre entre 2 e 8 de março sob o lema "A Igualdade que Abril abriu. Reforçar Direitos. Cumprir a Constituição". Mais do que diagnósticos, são um apelo: para que criar emprego volte a significar criar futuro.
Portugal está a criar emprego, mas a maioria desse emprego é precário. Sete em cada dez novos postos de trabalho surgem através de contratos não permanentes — uma realidade que afeta desproporcionalmente as mulheres e que coloca o país na segunda posição europeia em recurso a este tipo de vínculos.
Os números são claros. Em 2024, quase 570 mil mulheres trabalhadoras em Portugal — o equivalente a 25,6% da força de trabalho feminina total de 2,2 milhões — tinham contratos precários. Mas a situação agrava-se significativamente quando se olha para as trabalhadoras mais jovens, cuja taxa de precariedade ultrapassa os 50%. Este é o retrato que emerge de um estudo da Comissão para a Igualdade entre Mulheres e Homens da CGTP, divulgado para assinalar a semana da igualdade e o Dia Internacional da Mulher.
Da massa de mulheres em situação precária, a maioria — 449,3 mil — trabalha sob contratos a termo no setor privado e no setor empresarial do Estado. Outras 50,5 mil estão vinculadas através de contratos a termo na Administração Pública. Os restantes 69,3 mil encontram-se numa zona ainda mais cinzenta: falsas prestações de serviço e outras formas de contratação que atravessam todos os setores. Estes dados resultam do cruzamento de informações do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, da Direção-Geral da Administração e do Emprego Público e do Instituto Nacional de Estatística.
O impacto desta precariedade não é meramente estatístico. A CGTP alerta que a instabilidade contratual traduz-se em menores salários, insegurança permanente, menor investimento das empresas em formação profissional, intimidações e chantagens, e ritmos de trabalho mais intensos. Um outro estudo recente da central sindical revelou que quase 60% das mulheres trabalhadoras em Portugal recebia uma remuneração base até 1.000 euros brutos em novembro de 2025, e que uma em cada cinco ganhava apenas o salário mínimo nacional. A precariedade, portanto, não existe isolada — ela reforça outras desigualdades.
O desemprego que daí resulta é também revelador. Segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional referentes a dezembro, mais de metade dos desempregados que se registaram nos centros de emprego fizeram-no porque o seu contrato a prazo tinha terminado. Não se trata de escolha ou de transição voluntária — é o fim abrupto de um vínculo que nunca foi pensado para durar.
Portugal ocupa a segunda posição na União Europeia em recurso a vínculos precários, uma posição que reflete escolhas estruturais sobre como o mercado de trabalho se organiza. As mulheres representam 45% de todos os trabalhadores com contratos precários no país, o que significa que a precariedade não é um problema exclusivamente feminino, mas que as mulheres carregam uma proporção desproporcional do seu peso.
A CGTP realiza a semana da igualdade entre 2 e 8 de março, sob o lema "A Igualdade que Abril abriu. Reforçar Direitos. Cumprir a Constituição", com iniciativas espalhadas pelo país. O Dia Internacional da Mulher comemora-se a 8 de março. Estes estudos, divulgados neste contexto, não são apenas diagnósticos — são um chamamento para que a precariedade deixe de ser a forma dominante de criação de emprego.
Citations marquantes
A precariedade tem consequências profundamente negativas na vida das trabalhadoras e trabalhadores, traduzindo-se em menores salários, insegurança, menor investimento em formação profissional, intimidações e chantagens, maiores ritmos de trabalho— CGTP