Para investir no Brasil, é preciso ser um herói
Taxa de juros acima de 15% ao mês torna crédito brasileiro o segundo mais caro do planeta, desestimulando investimentos produtivos. Instabilidade jurídica e mudanças frequentes em legislação laboral e tributária criam ambiente hostil para empresas em crescimento.
- Taxa de juros acima de 15% ao mês no Brasil — segunda mais cara do planeta
- Mercado automóvel caiu de 3,6 milhões de carros/ano (2012) para 2,5 milhões (atual)
- Allma fatura 200 milhões de reais mensais com 26 concessionárias em São Paulo
- Reforma fiscal aprovada pode começar a simplificar sistema em 2027
Alessandro Toniello, empresário de sucesso no mercado automóvel brasileiro, afirma que investir no Brasil exige ser um herói, apontando crédito altíssimo e instabilidade fiscal como principais obstáculos ao crescimento empresarial.
Alessandro Toniello tem 55 anos e três décadas de experiência no mercado automóvel brasileiro. Saiu da Atri, a empresa familiar onde era diretor-executivo, há nove anos para fundar a Allma com um sócio. Hoje comanda 26 concessionárias espalhadas por São Paulo e além, movimentando 200 milhões de reais mensais — algo como 430 milhões de euros por ano. Recentemente, inaugurou uma loja da Denza, a marca de luxo chinesa que é parceria entre a BYD e a Mercedes-Benz. Quando fala do Brasil, porém, sua análise é sóbria.
O país que Toniello descreve é um lugar onde o humor econômico reflete a cautela e a escassez. Em 2012, o mercado automóvel vendia 3,6 milhões de carros por ano. A pandemia derrubou esse número abaixo de dois milhões. Agora, estabilizou em 2,5 milhões. A razão dessa contração, segundo ele, é simples: falta crédito, e o crédito que existe é proibitivo. As taxas de juros no Brasil ultrapassam os 15% ao mês — o segundo maior custo de capital do planeta. "Sai mais barato pedir dinheiro à máfia italiana do que a um banco", resume com uma franqueza que não deixa espaço para interpretação.
Esse cenário de crédito caro é sintoma de um problema maior: trinta anos de governos que deixaram as taxas de juros em dois dígitos. Quando o juro é alto, quem tem dinheiro prefere aplicá-lo a investir em negócios. Para um setor como o automóvel, onde os produtos têm alto valor, a falta de crédito acessível mata as vendas. Toniello aponta o défice fiscal como raiz da questão — enquanto os governos não fizerem a lição de casa e reduzirem esse desequilíbrio, as taxas permanecerão nos patamares atuais.
Mas crédito caro é apenas metade do problema. A outra metade é a instabilidade jurídica. Toniello nota que quando Michel Temer foi presidente, entre 2016 e 2018, uma reforma laboral reduziu drasticamente o número de processos trabalhistas. Quando Lula retornou ao poder em 2022, a lei foi revertida e os processos voltaram a crescer. Empresas precisam de assessoria fiscal apenas para conseguir pagar corretamente impostos municipais, estaduais e federais. Essa volatilidade legislativa cria um ambiente onde crescer é arriscado. "Quanto mais se cresce, mais dificuldades lhe são impostas", observa. Muitos empresários preferem permanecer pequenos para evitar problemas com a lei laboral e tributos interestaduais.
Quando perguntado se a maioria dos empresários brasileiros prefere a direita, Toniello rejeita a premissa. O que os empresários precisam não é de ideologia, mas de estabilidade jurídica e impostos previsíveis. Uma reforma fiscal já aprovada pode começar a simplificar o sistema em 2027. Empresários portugueses que consideram investir no Brasil enfrentam exatamente esses obstáculos — crédito e fiscalidade. "Para investir no Brasil, é preciso ser um herói", diz Toniello. "Um empresário no Brasil tem de ser um herói."
Seu otimismo, que ele diz fazer questão de manter, repousa em algumas convicções. O Brasil tem uma das maiores agriculturas do mundo, terras raras, hidrelétricas, gás, vento, sol e álcool. Os líderes — presidente, Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal — sabem exatamente o que precisa ser feito. Mas há um obstáculo estrutural que nenhuma reforma fiscal resolve sozinha: a educação. "Sem ela nenhum país progride", afirma. A China, de onde vem a Denza que ele agora representa, explodiu graças à educação. Engenheiros chineses são importados para resolver problemas no Brasil porque faltam profissionais qualificados localmente.
Sobre o futuro do setor automóvel, Toniello é claro: carros elétricos e híbridos são inevitáveis. Nos últimos cinco anos houve mais mudanças do que nos vinte e cinco anteriores que ele passa no ramo. Mas a viabilidade do elétrico depende da autonomia das baterias — sem ela, o híbrido é a melhor opção. E tudo isso depende de energia. O Brasil, nesse aspecto, é privilegiado: tem hidrelétricas, gás, vento, sol e álcool. "Basta haver vontade", conclui.
Notable Quotes
Sai mais barato pedir dinheiro à máfia italiana do que a um banco— Alessandro Toniello, sobre as taxas de juros brasileiras
Sem educação de qualidade nenhum país progride— Alessandro Toniello, apontando educação como obstáculo estrutural
The Hearth Conversation Another angle on the story
Quando você diz que um empresário no Brasil tem de ser um herói, o que exatamente quer dizer?
Que a legislação, o crédito, os impostos — tudo conspira contra você. Você não está competindo apenas com concorrentes, está competindo contra o próprio sistema. Um herói é alguém que vence apesar dos obstáculos, não porque o caminho foi facilitado.
Mas há empresários que prosperam mesmo assim. O que os diferencia?
Resistência e conhecimento profundo do mercado. Você precisa saber exatamente como navegar cada mudança de lei, cada oscilação de taxa de juro. E precisa ter capital suficiente para absorver os golpes. Quem não tem isso desiste ou fica pequeno de propósito.
Pequeno de propósito? Isso soa contraditório.
Não é. Se você cresce, seus problemas com a lei laboral e os tributos crescem exponencialmente. Muitos empresários preferem manter-se como microempresas porque é mais simples, menos arriscado. É uma escolha racional num sistema irracional.
E a reforma fiscal que vem em 2027 — acredita mesmo que vai mudar as coisas?
Pode ajudar, sim. Mas é apenas uma peça. O Brasil tem recursos naturais extraordinários, tem gente talentosa. O que falta é educação de qualidade e vontade política de manter as regras estáveis. Sem isso, nenhuma reforma resolve.
Então o otimismo que você diz manter é mais esperança do que convicção?
É convicção baseada em potencial. Mas potencial não é resultado. O Brasil sabe o que fazer — a questão é se vai fazer.