Uma vez por ano, Washington envia ao Congresso norte-americano um mapa moral do narcotráfico global — e nesta edição, assinada por Donald Trump, o Brasil ocupa um lugar de destaque entre os acusados. O governo Lula é instado a agir com urgência contra o PCC e o Comando Vermelho, facções que o relatório descreve como ameaças à segurança mundial. O documento, porém, revela tanto pelo que critica quanto pelo que elogia: nações alinhadas a Trump recebem reconhecimento temperado, enquanto rivais geopolíticos e governos distantes de Washington colhem a linguagem mais severa.
Trump critica Brasil, China e Canadá em relatório sobre tráfico de drogas
transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína
Por que Trump escolheu criticar o Brasil tão duramente neste relatório, enquanto elogia países como Venezuela e Bolívia que também têm problemas com drogas?
O padrão é político. Trump critica rivais e países que não se alinham com ele. Brasil sob Lula não está nesse alinhamento. Venezuela, Bolívia e Colômbia têm governos que ele vê como mais próximos aos seus interesses.
Mas espera — o relatório diz que Venezuela, Bolívia e Colômbia também falharam em cumprir acordos internacionais. A diferença é que recebem elogios mesmo assim?
Exatamente. Diplomatas brasileiros chamam isso de seletividade. O mesmo documento reconhece falhas nesses países, mas a linguagem é diferente — fala de "oportunidades históricas" em vez de ameaça à segurança mundial.
E quanto às acusações específicas contra PCC e CV? Elas são precisas ou também parecem politizadas?
O documento diz que essas facções "transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína". Isso é uma avaliação dos EUA, não necessariamente consenso internacional. Não sabemos se outros países ou organismos internacionais concordam com essa caracterização.
Verdade. O que sabemos é que PCC e CV foram incluídos na lista de organizações terroristas dos EUA recentemente, e Trump está usando isso para pressionar o Brasil.
Então o relatório é mais um instrumento de política externa do que uma análise objetiva do tráfico de drogas?
Parece ser ambos. Tem dados sobre países reais com problemas reais de drogas, mas a ênfase, o tom e quem recebe crítica versus elogio seguem claramente linhas políticas.
E isso importa porque afeta como os EUA vão lidar com o Brasil em questões de segurança, cooperação e até relações comerciais nos próximos meses.
Le Pouls
- Trump assinou um relatório acusando o Brasil de permitir que seu território se tornasse um centro crítico para o fluxo global de cocaína — a linguagem mais dura reservada a qualquer país do Hemisfério Ocidental.
- O PCC e o Comando Vermelho, recentemente classificados pelos EUA como organizações terroristas, são apontados como ameaças crescentes à paz mundial que o governo brasileiro estaria falhando em conter.
- China, Canadá e México também foram pressionados, mas o padrão do documento expõe uma seletividade política: Venezuela, Bolívia e Colômbia — governadas por aliados de Trump — receberam elogios no mesmo texto.
- Diplomatas brasileiros avaliam que o relatório é menos um diagnóstico técnico do narcotráfico e mais um instrumento da política externa de Trump na América Latina, moldado por alinhamentos ideológicos.
- O Brasil, sob Lula, emerge como o alvo mais exposto do documento — colocado em posição singular entre os 24 países listados, com acusações que vão além da falha e sugerem cumplicidade territorial.
Uma vez por ano, Washington envia ao Congresso norte-americano um mapa moral do narcotráfico global — e nesta edição, assinada por Donald Trump, o Brasil ocupa um lugar de destaque entre os acusados. O governo Lula é instado a agir com urgência contra o PCC e o Comando Vermelho, facções que o relatório descreve como ameaças à segurança mundial. O documento, porém, revela tanto pelo que critica quanto pelo que elogia: nações alinhadas a Trump recebem reconhecimento temperado, enquanto rivais geopolíticos e governos distantes de Washington colhem a linguagem mais severa.
Na quarta-feira 16 de setembro, o Departamento de Estado dos EUA divulgou seu relatório anual sobre narcotráfico global, desta vez assinado por Donald Trump e encaminhado ao Congresso norte-americano. O Brasil recebeu as críticas mais contundentes do documento: o governo Lula foi acusado de falhar no combate ao PCC e ao Comando Vermelho, facções recentemente incluídas pelos EUA na lista de organizações terroristas. Segundo o texto, os dois grupos "transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína" e representam uma "ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo". Trump pediu ao governo brasileiro que adote "com urgência, medidas enérgicas" antes que essas organizações "se espalhem e cresçam".
O Brasil não foi o único alvo. China foi pressionada a reduzir o fluxo de precursores químicos usados na produção de fentanil; Canadá, a combater laboratórios clandestinos; e México, a agir contra organizações narcoterroristas. No total, 24 países foram listados como locais de trânsito ou produção de drogas, com Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia citados por descumprir acordos internacionais de combate ao narcotráfico.
O que chama atenção, porém, é o contraste interno do documento. Venezuela, Bolívia e Colômbia — países com governos hoje alinhados aos interesses de Washington — foram mencionados de forma positiva, com o relatório reconhecendo avanços e descrevendo mudanças recentes de governo como "oportunidades históricas para a cooperação dos Estados Unidos". A crítica a esses países existe, mas é temperada.
Diplomatas brasileiros, segundo apuração da GloboNews, avaliam que o documento reforça o viés político da Casa Branca na América Latina. A leitura é de que a seletividade é deliberada: rivais geopolíticos e governos distantes de Trump recebem a linguagem mais severa, enquanto aliados são tratados com ressalvas amenas. O Brasil, sob Lula, saiu do relatório na posição mais exposta — acusado não apenas de omissão, mas de ter se tornado território central no mapa global da cocaína.
Na quarta-feira 16 de setembro, o Departamento de Estado dos EUA divulgou um relatório assinado pelo presidente Donald Trump e encaminhado ao Congresso norte-americano sobre a situação do tráfico de drogas em escala global. O documento, que a Casa Branca envia anualmente ao Legislativo com um panorama da questão internacional de narcóticos, reservou críticas contundentes para o Brasil — acusando o governo de falhar no combate às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Trump pediu ao governo Lula que adote "com urgência, medidas enérgicas" contra os dois grupos, que foram incluídos recentemente pelos Estados Unidos na lista de organizações terroristas. Segundo o relatório, enquanto outros governos do Hemisfério Ocidental estão tomando "medidas corajosas" para erradicar cartéis, o Brasil não está enfrentando adequadamente essas facções. O documento afirma que o PCC e o CV "transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína" e constituem uma "ameaça à segurança mundial". A linguagem é clara: "Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo, e o governo brasileiro precisa urgentemente adotar medidas firmes para enfrentá-las e derrotá-las antes que se espalhem e cresçam".
O Brasil não foi o único alvo. Trump também criticou a China — sua principal rival geopolítica — afirmando que, apesar de conversas com o presidente Xi Jinping sobre o combate à entrada ilegal de fentanil nos EUA, Pequim precisa reduzir o fluxo de substâncias precursoras usadas na produção da droga. O Canadá, com quem o governo Trump vem travando uma guerra tarifária, foi pressionado a adotar medidas contra laboratórios clandestinos de drogas. O México recebeu exigências de ação contra organizações narcoterroristas que dominam territórios no país.
Mas o padrão do relatório revela uma seletividade notável. Nações governadas por aliados foram elogiadas no mesmo documento. Trump citou mudanças políticas em países da América do Sul com governos alinhados aos seus interesses — Venezuela, Bolívia e Colômbia foram mencionados de forma positiva, com o relatório reconhecendo avanços nesses países, ainda que ressalvando que novas medidas são necessárias. O documento afirma que mudanças recentes de governo em alguns países "criaram oportunidades históricas para a cooperação dos Estados Unidos".
Diplomatas brasileiros, conforme apurado pelos repórteres Ricardo Abreu e Guilherme Balza da GloboNews, avaliam que o documento reforça o viés da política externa de Trump na América Latina. A avaliação também é de que há seletividade clara por parte da Casa Branca — o mesmo relatório que faz acenos positivos a novos governos eleitos na América do Sul também aponta falhas desses mesmos países no combate às drogas, mas a crítica é temperada porque estão alinhados a Trump.
O relatório listou 24 países classificados pelos EUA como locais de trânsito ou produção de drogas, incluindo Afeganistão, Bahamas, Belize, Bolívia, China, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Jamaica, Laos, México, Mianmar, Nicarágua, Paquistão, Panamá, Peru e Venezuela. Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia foram especificamente citados como tendo falhado em cumprir obrigações previstas em acordos internacionais de combate ao narcotráfico.
O que emerge do documento é um padrão: críticas severas aos rivais e aos países que não se alinham com a administração Trump, enquanto elogios temperados aos aliados, mesmo quando enfrentam desafios similares no combate ao tráfico. O Brasil, sob governo Lula, recebeu a linguagem mais dura, sendo acusado de não apenas falhar, mas de permitir que seu território se tornasse um centro crítico para o fluxo global de cocaína — uma acusação que coloca o país em posição diferente da maioria dos outros citados no relatório.
Citations marquantes
Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo, e o governo brasileiro precisa urgentemente adotar medidas firmes para enfrentá-las e derrotá-las antes que se espalhem e cresçam— Relatório assinado por Donald Trump
Diplomatas brasileiros avaliam que o documento reforça o viés da política externa de Trump na América Latina— Apuração de Ricardo Abreu e Guilherme Balza, GloboNews