Dois miúdos no parque que não gostam um do outro
Na cimeira da NATO em Ancara, Donald Trump confundiu Volodymyr Zelensky com Vladimir Putin e atribuiu ao Japão a designação de República Islâmica — erros que, surgidos num palco diplomático de primeira grandeza, reacendem interrogações antigas sobre a lucidez do líder da maior potência ocidental. Num momento em que a guerra na Ucrânia exige precisão e clareza, os lapsos do presidente americano ecoam para além da sala de imprensa, tocando na questão mais profunda de quem, afinal, conduz o destino das nações.
- Ao lado de Zelensky, Trump perguntou à sala se alguém tinha perguntas para Putin — uma confusão que congelou a conferência por instantes antes de ser corrigida sem cerimónia.
- Minutos depois, Trump descreveu um ataque de mísseis atribuindo-o à 'República Islâmica do Japão' — um país sem religião oficial, onde o islamismo é praticado por uma minoria ínfima.
- Os dois erros aconteceram durante uma cimeira onde se discutem a guerra na Ucrânia e a segurança europeia, amplificando o peso político de cada palavra mal colocada.
- A rapidez com que Trump se corrigiu não dissipou a inquietação: comentadores e aliados voltam a questionar a capacidade cognitiva do presidente em negociações de alto risco.
Donald Trump protagonizou dois lapsos assinaláveis durante a conferência de imprensa da cimeira da NATO em Ancara, na Turquia. Enquanto discutia a guerra na Ucrânia ao lado de Volodymyr Zelensky, comparou o conflito a uma briga de crianças num parque e elogiou o presidente ucraniano — para de seguida apontar para ele e perguntar se alguém tinha questões para Putin. A reação da sala fê-lo corrigir-se de imediato, mas sem qualquer sinal de embaraço.
Poucos minutos depois, ao abordar a possibilidade de a Ucrânia produzir os seus próprios mísseis Patriot, Trump descreveu um alegado ataque ao porta-aviões Abraham Lincoln, atribuindo os 111 mísseis lançados à 'República Islâmica do Japão' — designação que pertence ao Irão, país com o qual os Estados Unidos mantêm tensões abertas desde o final de fevereiro. O Japão não tem religião oficial e o islamismo é uma das crenças com menos expressão no país.
Os dois erros, ocorridos num dos palcos diplomáticos mais sensíveis do momento, reacendem o debate sobre a acuidade cognitiva de Trump em contextos onde cada palavra carrega consequências geopolíticas.
Donald Trump cometeu uma série de lapsos durante uma conferência de imprensa na cimeira da NATO em Ankara, na Turquia, esta quarta-feira. Enquanto estava ao lado do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, o chefe de Estado norte-americano confundiu-o com Vladimir Putin, o presidente russo — e depois, minutos depois, trocou o Irão pelo Japão ao descrever um incidente militar.
Ao responder a perguntas sobre a guerra na Ucrânia, que dura há mais de quatro anos, Trump comparou o conflito a uma briga entre crianças. "Temos dois miúdos no parque e eles não gostam um do outro e começam a lutar", disse. "Às vezes, temos de os deixar lutar. Deixem-nos ver que é duro. Lutar é duro." Elogiou depois o trabalho de Zelensky, afirmando que tanto o presidente ucraniano como o russo desejam "resolver o assunto".
Foi então que Trump apontou para Zelensky e perguntou: "Alguém tem alguma pergunta para Putin?" Os jornalistas presentes e os comentários da sala fizeram-no aperceber-se do erro. Trump recuperou rapidamente, corrigindo-se sem demonstrar qualquer constrangimento. "Não, não é [uma pergunta] para Zelensky. [Para] Putin", reiterou, prosseguindo como se nada tivesse acontecido.
Mais tarde, durante a mesma conferência, Trump voltou a confundir-se. Ao ser questionado sobre a possibilidade de conceder à Ucrânia uma licença para produzir os seus próprios mísseis interceptores Patriot, respondeu que se tratava de "uma arma defensiva, que eu prefiro a uma arma ofensiva". Descreveu então um porta-aviões chamado Abraham Lincoln e um ataque que teria sofrido. "Há dois meses fomos alvo de 111 mísseis lançados pela República Islâmica do Japão. Foram disparados contra o porta-aviões durante cerca de uma hora. 111 mísseis dirigidos a um navio muito caro, e todos esses mísseis foram abatidos, na sua maioria por mísseis Patriot, mas também por outros meios."
O problema é que o Japão não é uma república islâmica. O país não tem uma religião oficial; as mais comuns entre os seus habitantes são o xintoísmo e o budismo. O islamismo está entre as religiões com menos fiéis no Japão. O Irão, por seu lado, é oficialmente designado como a República Islâmica do Irão e tem estado em conflito com os Estados Unidos desde o final de fevereiro.
Os dois lapsos ocorreram num contexto diplomático crítico, durante uma cimeira da NATO onde questões relacionadas com a guerra na Ucrânia e a segurança europeia estão em discussão. Os erros levantam questões sobre a capacidade cognitiva do presidente americano em negociações de alto nível.
Notable Quotes
Temos dois miúdos no parque e eles não gostam um do outro e começam a lutar. Às vezes, temos de os deixar lutar.— Donald Trump, durante conferência de imprensa na NATO
Há dois meses fomos alvo de 111 mísseis lançados pela República Islâmica do Japão.— Donald Trump, descrevendo um incidente militar
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que alguém confunde um presidente com outro, especialmente quando está literalmente ao lado dele?
É difícil de explicar. Trump recuperou muito rapidamente — quase como se a sala inteira tivesse visto algo que ele próprio não reconheceu como erro. Os jornalistas é que o corrigiram.
E a questão do Irão e do Japão? Isso parece mais grave.
Porque é. Não é apenas trocar nomes. É atribuir uma característica religiosa e política fundamental a um país completamente diferente, e fazê-lo enquanto descreve um incidente militar específico com números concretos.
Será que estava a improvisar, a falar de memória?
Possivelmente. Mas quando estás numa conferência de imprensa da NATO, a improvisar sobre ataques de mísseis, as consequências de um erro não são apenas constrangimento.
O que é que isto significa para as negociações sobre a Ucrânia?
Essa é a questão que fica no ar. Se há confusão sobre identidades e factos básicos num contexto público, o que acontece nas conversas privadas?
Alguém o confrontou directamente?
Não. A conferência continuou. Trump corrigiu-se rapidamente na primeira vez, e na segunda ninguém interrompeu para questionar a descrição do Japão como república islâmica.
Portanto, ficou por isso?
Ficou. Mas ficou registado. E agora está aqui.