Uma estrutura pesada encontrada em jardim paulistano foi identificada por especialistas da USP como madeira fossilizada de 300 milhões de anos, preservada através de petrificação por sílica. O fóssil, que poderia ter sido perdido durante a obra, foi transportado para a universidade com recursos de um edital do CNPq destinado à revitalização de espaços científico-culturais.
Tronco fossilizado de 300 milhões de anos é descoberto em jardim perto do Ibirapuera
Na casa da pessoa, a amostra estava calada; aqui ela se comunica
Como é que uma coisa dessas fica 300 milhões de anos enterrada em um jardim de São Paulo sem ninguém saber o que é?
Provavelmente não ficou lá o tempo todo. Os especialistas acham que pode ter vindo do Rio Grande do Sul, transportada para cá em algum momento depois que já era fóssil. Mas a documentação não diz quando chegou, quem trouxe ou quanto tempo ficou lá.
Então a gente não sabe mesmo a origem? Porque a reportagem diz "hipótese que ainda dependia de análises especializadas". Essas análises foram feitas?
Não está claro. O que a USP confirmou foi o tamanho, o peso, a idade aproximada e o processo de fossilização. A origem precisa e a identificação botânica ainda eram pontos a aprofundar quando a história foi publicada.
E se não tivesse aquela arquiteta percebendo que era algo incomum? Teria virado entulho?
Exatamente. A empreiteira precisava continuar a obra, e duas toneladas é muito peso para deixar ali. Sem a verba do CNPq para contratar a empresa de transporte, teria sido perdido.
Mas a gente sabe se está realmente em exposição agora no museu? A reportagem diz que o museu foi reinaugurado, mas não confirma se o tronco está lá.
Não. A reportagem deixa isso em aberto. O museu tem coleções de fósseis e está aberto, mas não há atualização institucional que detalhe a posição atual daquele tronco específico.
Qual é a importância científica disso? É só um tronco velho?
É um registro de um ambiente que existiu 300 milhões de anos atrás. Ajuda a contar a história da Terra, a entender como as plantas evoluíram, que tipo de ecossistema havia naquela época.
E quanto à identificação? Qual era a árvore? De que período geológico?
Isso não foi divulgado. Dependia de análises paleobotânicas especializadas que ainda não tinham sido completadas quando a história saiu.
Il Polso
- Tronco fossilizado de quase 2 metros e 2 toneladas encontrado em jardim perto do Ibirapuera em julho de 2024
- Idade estimada em 300 milhões de anos, preservado através de petrificação por sílica
- Fóssil transportado para USP com recursos de edital do CNPq para revitalização de espaços científico-culturais
- Museu de Geociências reinaugurado em 29 de maio de 2025 após reformas iniciadas em 2023
Uma estrutura pesada encontrada em jardim paulistano foi identificada por especialistas da USP como madeira fossilizada de 300 milhões de anos, preservada através de petrificação por sílica. O fóssil, que poderia ter sido perdido durante a obra, foi transportado para a universidade com recursos de um edital do CNPq destinado à revitalização de espaços científico-culturais.
Trabalhadores em obra residencial perto do Ibirapuera encontram tronco fossilizado de quase 2 metros e 2 toneladas, com idade estimada em 300 milhões de anos, que é incorporado ao acervo do Museu de Geociências da USP.
Uma arquiteta acompanhando uma obra residencial em São Paulo, perto do Parque Ibirapuera, notou algo fora do lugar no terreno. Enquanto os trabalhadores removiam terra e detritos, duas estruturas surgiram — fragmentos que lembravam partes de um tronco. A maior media quase dois metros de altura e pesava aproximadamente duas toneladas, um obstáculo pesado demais para simplesmente descartar. Em vez de permitir que o material fosse removido como entulho comum, a arquiteta contatou o Museu de Geociências da Universidade de São Paulo.
Especialistas do Instituto de Geociências foram até a residência em julho de 2024 e confirmaram o que a intuição havia sugerido: aquelas peças eram madeira fossilizada, preservada ao longo de aproximadamente 300 milhões de anos. O que havia permanecido silenciosamente enterrado em um jardim particular estava prestes a ganhar uma nova vida como parte de um acervo científico. Mas primeiro era preciso resolver um problema prático. O tamanho e o peso tornavam a remoção uma operação delicada, e a empreiteira precisava continuar a obra no imóvel. Sem uma solução rápida, o fóssil poderia ter sido perdido para sempre.
A salvação veio de uma fonte inesperada. O Museu de Geociências havia recebido recursos de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destinado à revitalização de espaços científico-culturais. Como a incorporação do fóssil estava relacionada ao projeto de exposição do museu, parte desses recursos pôde ser utilizada para contratar uma empresa especializada em remoção e transporte. Cerca de duas semanas após o primeiro contato, tanto a peça maior quanto o fragmento menor estavam sendo transportados para a universidade. Miriam Della Posta de Azevedo, chefe técnica do Museu de Geociências, foi clara sobre o que estava em jogo: sem essa verba, um patrimônio desse porte teria sido perdido.
O processo que transformou madeira em pedra é conhecido pela ciência como petrificação. Segundo Ideval Souza Costa, geólogo e coordenador do setor educativo do museu, a matéria original do tronco foi gradualmente substituída por minerais — especificamente sílica. Essa substância penetrou na estrutura do vegetal ao longo de milhões de anos, substituindo seus componentes enquanto preservava características do tronco antigo. O resultado é uma estrutura que ainda lembra madeira, mas é essencialmente pedra. Não é um processo rápido. Para que uma estrutura vegetal atravesse uma escala de tempo medida em centenas de milhões de anos, são necessárias condições muito específicas que dificultem sua decomposição e favoreçam sua mineralização.
A origem precisa do fóssil permanece em aberto. Os especialistas da USP trabalhavam com a hipótese de que a peça era originária da região de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, mas essa conclusão dependia de análises especializadas ainda não finalizadas. Encontrar um fóssil desse tamanho em um jardim paulistano não significa que a árvore tenha vivido onde hoje está o bairro próximo ao Ibirapuera. O material pode ter sido transportado para São Paulo em algum momento muito posterior à sua formação e colocado na propriedade antes que seu valor científico fosse reconhecido. A documentação disponível não informa com segurança quando a peça chegou à residência, quem a levou para São Paulo ou quanto tempo permaneceu naquele jardim. Também não havia uma identificação paleobotânica definitiva capaz de apontar com precisão a espécie ou o grupo vegetal ao qual o tronco pertenceu.
Quando o fóssil chegou à universidade em 2024, o Museu de Geociências estava fechado para reformas. As visitas haviam sido suspensas em setembro de 2023 para renovação do prédio, construído na década de 1970 e afetado por infiltrações e outros problemas estruturais. O museu foi oficialmente reinaugurado em 29 de maio de 2025, após uma transformação que ampliou a estrutura e reorganizou a apresentação do acervo. A nova exposição foi concebida para explicar a história da Terra ao público geral, apresentando coleções de minerais, rochas, meteoritos e fósseis. O espaço está novamente aberto para visitação gratuita, de terça-feira a sábado. Embora as informações públicas consultadas não permitam confirmar se o tronco de duas toneladas já ocupa uma posição definitiva na mostra, a instituição mantém coleções de fósseis vegetais que ajudam a explicar a evolução das plantas e os ambientes que existiram milhões de anos antes dos ecossistemas atuais.
Para Ideval Souza Costa, levar a peça para uma instituição pública muda fundamentalmente sua função. Na casa da pessoa, a amostra estava calada; aqui ela se comunica com a sociedade. Essa frase resume uma diferença importante entre um objeto preservado em uma propriedade particular e uma peça incorporada a um acervo científico. No museu, o material pode ser documentado, comparado com outros fósseis, analisado por pesquisadores e utilizado em atividades de divulgação científica. O que começou como um obstáculo em uma obra residencial tornou-se parte de um patrimônio público, capaz de contar histórias sobre o planeta em uma escala de tempo que desafia a compreensão humana.
Citazioni salienti
Se não houvesse essa verba a gente teria perdido um patrimônio desse— Miriam Della Posta de Azevedo, chefe técnica do Museu de Geociências
Na casa da pessoa, a amostra estava calada; aqui ela se comunica com a sociedade— Ideval Souza Costa, geólogo e coordenador do setor educativo do Museu de Geociências