TRF-6 pagará R$ 3,1 mi/mês de aluguel apesar de promessas de tribunal 'sem custos'

Um óbito resultante de acidente com elevador que despencou do 17º andar de um dos prédios do tribunal levou à interdição de três edifícios.
Um tribunal criado sem custos agora paga R$ 3,1 milhões por mês
As promessas iniciais de criar o TRF-6 sem alterar o orçamento da Justiça Federal se mostraram irreais.
Mark

Como um tribunal criado com a promessa de não custar nada acaba assinando um contrato de R$ 3,1 milhões por mês?

Mimi

As promessas eram sobre redistribuir recursos já existentes no orçamento. Mas o tribunal cresceu, os prédios compartilhados não funcionaram, e depois um elevador caiu e matou alguém. De repente, "sem custos" virou impossível.

Mark

E ninguém questionou isso na época? Os ex-presidentes que fizeram essas promessas não responderam?

Mimi

Eles já tinham saído. Noronha e Martins estavam focados em chegar ao Supremo. O tribunal virou um projeto político, não uma instituição pensada para funcionar.

Mark

Mas por que só uma empresa apresentou proposta?

Mimi

O tribunal fez um chamamento público, mas o edifício Beyond estava em construção. Talvez ninguém mais tivesse exatamente aquilo. Ou talvez o processo tenha sido desenhado de forma que só uma empresa pudesse oferecer.

Mark

A Caixa disse que o aluguel deveria ser R$ 1,5 milhão. Por que o tribunal aceitou R$ 3,1 milhões?

Mimi

Porque a Concreto disse que R$ 1,5 milhão não cobria as adaptações que o tribunal exigia. E o tribunal concordou. Mas R$ 906 mil em adaptações é muito. Ninguém sabe exatamente o que é.

Mark

E agora? O tribunal vai pagar isso por 15 anos?

Mimi

Sim. E é o menos produtivo do país. Então está pagando caro por um espaço que não está usando bem.

  • Contrato de R$ 3,1 milhões mensais por 15 anos para ocupar edifício Beyond em Belo Horizonte
  • R$ 906 mil em adaptações solicitadas pelo tribunal inclusos no valor mensal
  • Caixa Econômica estimou valor de mercado em R$ 1,5 milhão; Concreto propôs R$ 2,2 milhões
  • Uma morte em acidente de elevador levou à interdição de três prédios em 2024
  • TRF-6 foi o menos produtivo em 2024 e 2025

O TRF-6 assinará contrato de R$ 3,1 milhões mensais por 15 anos para ocupar 21 pavimentos do edifício Beyond, incluindo R$ 906 mil em adaptações solicitadas pelo tribunal. Ex-presidentes do STJ prometeram em 2019 um tribunal moderno criado sem alteração orçamentária, redistribuindo recursos existentes, promessas que se mostraram irreais.

O Tribunal Regional Federal da 6ª Região pagará R$ 3,1 milhões mensais por 15 anos em aluguel de nova sede em Belo Horizonte, contradizendo promessas iniciais de criação sem custos adicionais ao orçamento da Justiça Federal.

O Tribunal Regional Federal da 6ª Região vai assinar um contrato de aluguel de R$ 3,1 milhões por mês durante 15 anos para ocupar uma nova sede em Belo Horizonte. Desse montante, R$ 906 mil correspondem a adaptações do imóvel solicitadas pelo próprio tribunal. O edifício Beyond, localizado no bairro Santa Efigênia, oferecerá 21 pavimentos e 181 vagas de garagem em um prédio comercial de uso exclusivo, numa região dominada por hospitais e afastada das atuais unidades administrativas do tribunal.

Essa decisão contrasta radicalmente com as promessas feitas quando o TRF-6 foi criado. João Otávio de Noronha, ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça e autor do projeto, declarou em 2019 que o tribunal nasceria "sem alteração no orçamento da Justiça Federal", aproveitando e redistribuindo recursos já existentes. Seu sucessor, Humberto Martins, reforçou a narrativa, afirmando que a nova unidade seria "moderna, automatizada e serviria como modelo para os outros tribunais". Ambos aspiravam a uma vaga no Supremo Tribunal Federal e fizeram lobby para que o projeto fosse aprovado durante o governo Jair Bolsonaro, que utilizou a inauguração do novo tribunal como palanque no segundo maior colégio eleitoral do país.

A realidade operacional do tribunal, porém, revelou-se bem diferente das promessas. O TRF-6 foi o menos produtivo em 2024 e 2025. Quando foi instalado, funcionava em prédios compartilhados, uma solução incompatível com sua expansão. Em 2024, uma "realocação emergencial" tentou ampliar de forma paliativa os gabinetes dos desembargadores e concentrar unidades no mesmo espaço. Depois de um elevador despencar do 17º andar de um dos edifícios, causando uma morte, três prédios foram interditados, forçando a extensão do teletrabalho. Os recursos já investidos em obras para acomodar servidores e magistrados nos espaços limitados foram perdidos.

A locação foi aprovada em 6 de agosto, na última reunião administrativa sob a presidência de Vallisney Oliveira, que a descreveu como uma "solução imobiliária urgente para um tribunal deficiente de espaço". O tribunal realizou um chamamento público e procedimento de prospecção para locação e parcerias, mas recebeu apenas uma proposta: da empresa Concreto Bernardo Monteiro Ltda., que oferecia o imóvel ainda em construção. A Caixa Econômica Federal estimou o valor de mercado para aluguel mensal em R$ 1,5 milhão, enquanto a Concreto propôs R$ 2,2 milhões. O TRF-6 entendeu que a avaliação da Caixa não considerava as benfeitorias e adequações necessárias.

O contrato foi aprovado por inexigibilidade de licitação, procedimento utilizado quando a competição é considerada inviável. O tribunal argumentou que as características específicas do edifício Beyond tornavam sua escolha necessária. O Ministério Público Federal aprovou a operação, e a Advocacia-Geral da União a acompanhou. Vallisney afirmou que o prédio atual da sede apresenta "avançado estado de deterioração e limitações estruturais" e que não existem imóveis da União ou do estado em Belo Horizonte que atendam às exigências estruturais, operacionais e logísticas do tribunal.

O TRF-6 divulgou a sessão que autorizou a locação, mas não publicou os valores nem o nome da empresa vencedora. Os estudos prévios e o contrato assinado por Vallisney e Miguel Safar Filho, administrador não sócio da Concreto, estão disponíveis no site do tribunal. Um estudo técnico preliminar menciona que a possibilidade de locação foi tratada em negociação entre a presidência do TRF-6 e o Conselho da Justiça Federal. O ministro Herman Benjamin, então presidente do conselho, desconhecia a operação.

A primeira composição do TRF-6 recebeu parentes e afilhados de políticos e ministros. Humberto Martins conseguiu tornar sigilosa a eleição dessa primeira composição, contrariando a então corregedora nacional, Maria Thereza de Assis Moura. Quando eleita presidente do Superior Tribunal de Justiça, Maria Thereza recusou o convite para a solenidade de posse no TRF-6 em 2022 e também decinou de um jantar em sua homenagem oferecido pelos juízes do tribunal.

Estamos criando o TRF-6 sem alteração no orçamento da Justiça Federal, aproveitando e redistribuindo recursos dentro do orçamento em vigor
— João Otávio de Noronha, ex-presidente do STJ, em 2019
A nova unidade nascerá moderna, automatizada e servirá como modelo para os outros tribunais
— Humberto Martins, ex-presidente do STJ
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