Transplante de células-tronco mostra eficácia no tratamento da esclerose sistêmica

A esclerose sistêmica causa debilitação severa em pacientes, com mortalidade de 30% a 50% em cinco anos nos casos graves, afetando principalmente mulheres em idade produtiva.
O sistema imunológico esquece como atacar a si mesmo
Após o transplante de células-tronco, as células B reguladoras aumentam e restauram o equilíbrio do sistema imunológico.
Mark

Por que essa descoberta sobre as células B reguladoras muda algo? O transplante já funcionava, certo?

Mimi

Funcionava, sim, mas era como usar uma chave sem entender como ela abre a porta. Agora sabemos o mecanismo. Isso permite desenhar terapias futuras muito mais precisas — talvez não precisemos destruir todo o sistema imunológico, só corrigir o defeito específico.

Mark

E quanto aos pacientes que já foram transplantados? Essa descoberta muda algo para eles?

Mimi

Não muda o que já foi feito. Mas muda como os médicos vão pensar em novos pacientes. E muda como a gente pode desenvolver medicamentos que façam o que o transplante faz, mas sem tanta agressividade.

Mark

Você mencionou que a doença é rara. Por que tão pouca gente sabe disso?

Mimi

Porque afeta uma em vinte mil pessoas. Não é como diabetes ou hipertensão. Poucos reumatologistas têm experiência real com ela. E quando aparece, os sintomas se parecem com outras doenças autoimunes. O diagnóstico demora.

Mark

O transplante é de verdade uma reinicialização do sistema imunológico?

Mimi

É exatamente isso. Você colhe as células saudáveis do paciente, congela, depois destrói quase tudo com quimioterapia e imunoterapia, e reintroduz as células. O sistema reconstrói do zero, desta vez sem o defeito.

Mark

E por que o Brasil não oferece isso pelo SUS se não é caro?

Mimi

Essa é a pergunta que os pesquisadores estão fazendo há anos. Não é questão de custo. É questão de reconhecimento, de pressão política, de mudança de protocolos. Enquanto isso, pacientes que poderiam se beneficiar não têm acesso.

  • Esclerose sistêmica afeta uma em cada vinte mil pessoas, principalmente mulheres entre 30 e 50 anos
  • Mortalidade de 30% a 50% em cinco anos nos casos graves
  • Centro de Terapia Celular da USP transplantou cerca de 120 pacientes desde 2004
  • Transplante não é coberto pelo SUS ou planos de saúde privados no Brasil

O transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas reconstrói o sistema imunológico, permitindo que pacientes retomem atividades do dia a dia e ganhem qualidade de vida. Estudo publicado na revista Rheumatology revela que células B reguladoras aumentam após o transplante, controlando a autoimunidade e promovendo remissão da doença.

Pesquisadores da USP descobrem novo mecanismo de ação do transplante de células-tronco no tratamento da esclerose sistêmica, doença rara que afeta principalmente mulheres entre 30 e 50 anos.

A esclerose sistêmica é uma doença que chega silenciosamente e depois não sai. Afeta uma em cada vinte mil pessoas — na maioria mulheres entre trinta e cinquenta anos — e o que faz é substituir tecido saudável por cicatriz, endurecendo a pele, os órgãos, a vida. Nos casos mais graves, metade dos pacientes não sobrevive cinco anos. Há décadas, médicos e pesquisadores buscam formas de frear essa agressão do corpo contra si mesmo. Agora, cientistas da Universidade de São Paulo descobriram como um tratamento já conhecido — o transplante de células-tronco — consegue fazer isso, abrindo caminho para terapias ainda mais precisas no futuro.

O transplante de células-tronco hematopoiéticas funciona de forma radical: colhe-se células saudáveis do próprio paciente, congela-se, depois destrói-se quase todo o sistema imunológico com uma combinação de quimioterapia e imunoterapia, e então reintroduz-se as células congeladas. É como reiniciar um computador travado. O sistema imunológico reconstrói-se do zero, desta vez sem o defeito que o fazia atacar os tecidos do corpo. Desde 2004, o Centro de Terapia Celular da USP, em Ribeirão Preto, transplantou cerca de cento e vinte pessoas com esclerose sistêmica grave. Os resultados foram considerados muito bons: pacientes voltaram a trabalhar, a dirigir, a cozinhar, a cuidar da família. A respiração estabilizou. A qualidade de vida melhorou. Mas ninguém sabia exatamente por quê.

O novo estudo, publicado na revista Rheumatology, responde essa pergunta focando em um tipo específico de célula: as células B reguladoras. Pesquisadores coletaram sangue de vinte e dois pacientes antes do transplante e depois nos dias trinta, sessenta, cento e vinte, cento e oitenta e trezentos e sessenta. O que descobriram foi que a esclerose sistêmica desequilibra o compartimento de células B — há muitas células de memória, que produzem os anticorpos que atacam os tecidos, e poucas células jovens, ainda inocentes dos antígenos. Mas após o transplante, a proporção se inverte. As células B reguladoras, aquelas que funcionam como freio nas respostas imunes destrutivas, aumentam em número e em capacidade supressora. As células de memória diminuem. O sistema imunológico esquece como atacar a si mesmo.

Kelen Malmegrim de Farias, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, explica que essa descoberta é promissora porque revela um mecanismo específico. "Conseguimos descobrir um novo mecanismo de ação do transplante: as células B reguladoras são importantes para o controle da autoimunidade e remissão da doença logo após o tratamento." Isso importa porque, no futuro, talvez os médicos consigam ser mais pontuais — em vez de destruir todo o sistema imunológico, poderiam focar apenas nas células problemáticas. Isso valeria tanto para pacientes que recebem transplante quanto para aqueles tratados com imunossupressores convencionais.

Maria Carolina de Oliveira, reumatologista e livre-docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, não minimiza o que a doença faz. "A pessoa acometida pela doença não consegue se movimentar, em muitos casos não consegue sair da cama, é muito debilitante. A pele do rosto e das mãos engrossa, às vezes até a do tórax e do abdômen. Além de atingir a pele, pode endurecer ou paralisar órgãos internos como esôfago, estômago, intestino, rins, pulmões e coração." Mas ela também deixa claro que nem todos os pacientes são candidatos ao transplante. Aqueles com doença muito leve correm risco desnecessário; aqueles já muito graves podem não se beneficiar. A seleção é delicada. E há outro problema: muitos reumatologistas ainda veem o transplante como último recurso, quando deveria ser considerado mais cedo. O diagnóstico também se confunde com lúpus e artrite reumatoide, atrasando o encaminhamento.

O transplante é autólogo — não precisa de doador — e o procedimento todo é feito no Hemocentro Regional de Ribeirão Preto. Após a infusão das células-tronco, o sistema imunológico leva dois anos e meio a três anos para se reconstruir completamente. Os pacientes precisam refazer todas as vacinas e são acompanhados por cinco anos. Há limite de idade: sessenta anos.

Mas há um obstáculo prático e político. O transplante de células-tronco hematopoiéticas para esclerose sistêmica não é oferecido pelo Sistema Único de Saúde, nem coberto pelos planos de saúde privados no Brasil. Europa e Estados Unidos já o reconhecem como tratamento-padrão. Oliveira argumenta que não é caro — talvez até seja barato comparado ao custo de manter um paciente com esclerose sistêmica grave internado, dependendo de oxigênio, pelo resto da vida. Mas a inclusão no SUS é uma batalha que ainda está sendo travada.

Conseguimos descobrir um novo mecanismo de ação do transplante: as células B reguladoras são importantes para o controle da autoimunidade e remissão da doença logo após o tratamento
— Kelen Malmegrim de Farias, professora da FCFRP-USP
A pessoa acometida pela doença não consegue se movimentar, em muitos casos não consegue sair da cama, é muito debilitante
— Maria Carolina de Oliveira, reumatologista da FMRP-USP
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