Transferências de imóveis para herdeiros batem recorde em Campinas com Reforma Tributária

As pessoas têm medo do que virá depois dos 8%
Advogado especialista em sucessões explica o pânico que motiva famílias a antecipar doações de imóveis.
Mark

Por que as famílias estão com tanta pressa agora? O imposto ainda é 4%.

Mimi

Porque sabem que em 2027 muda para alíquotas progressivas que podem chegar a 8%. Mas o medo vai além disso — circulam propostas antigas de até 27,5% que assustam as pessoas.

Mark

Então é só medo do futuro?

Mimi

Não é só medo. Há também uma mudança real acontecendo agora: desde setembro, a Receita Federal começou a atualizar os valores dos imóveis nos registros usando dados dos cartórios. O imposto vai ser calculado sobre preços reais, não mais sobre valores defasados.

Mark

E se alguém esperar até 2027? Perde alguma coisa?

Mimi

Perde a chance de pagar 4%. Além disso, se o imóvel se valorizar nos próximos anos, o imposto será calculado sobre esse valor maior. Transferir agora congela o custo tributário.

Mark

A doação com reserva de usufruto resolve tudo?

Mimi

Resolve a questão de manter o controle. Os pais transferem a propriedade aos filhos mas continuam morando lá e recebendo aluguel se houver. É uma forma de organizar a sucessão sem perder nada em vida.

Mark

E se o governo aprovar algo ainda pior depois das eleições?

Mimi

É exatamente o que as pessoas temem. Por isso estão agindo agora, enquanto as regras são conhecidas. A incerteza é o maior inimigo do planejamento.

  • 3.074 transferências de imóveis registradas em Campinas em 2025, alta de 64% em cinco anos
  • Alíquota do ITCMD pode aumentar de 4% para até 8% com alíquotas progressivas em 2027
  • Arrecadação de ITCMD em São Paulo cresceu 81% em cinco anos: de R$ 3,5 bilhões (2020) para R$ 6,39 bilhões (2025)
  • Lei Complementar nº 227/2026 muda cálculo do imposto para considerar valor de mercado dos imóveis

Famílias antecipam doações de imóveis para evitar alíquotas progressivas e cálculos baseados em valores de mercado previstos na Lei Complementar nº 227/2026. Arrecadação de ITCMD em São Paulo cresceu 81% em cinco anos, passando de R$ 3,5 bilhões em 2020 para R$ 6,39 bilhões em 2025.

Cartórios de Campinas registram alta de 64% em transferências de imóveis para herdeiros em 2025, impulsionadas pela expectativa de aumento do ITCMD de 4% para até 8% com a Reforma Tributária.

Nos cartórios de Campinas, algo inusitado aconteceu em 2025: famílias passaram a correr contra o relógio para transferir imóveis aos filhos e herdeiros. O número de atos registrados bateu recorde — 3.074 transferências — marcando uma alta de 64% em apenas cinco anos. Por trás dessa pressa está um fantasma fiscal: a Reforma Tributária.

Atualmente, quem herda ou recebe um imóvel como doação em São Paulo paga o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação, o ITCMD, a uma alíquota fixa de 4%. Mas a Lei Complementar nº 227/2026 muda o jogo. O estado terá de adotar um sistema de alíquotas progressivas — quanto maior o patrimônio, maior o percentual cobrado — podendo chegar a 8%. Além disso, o cálculo deixará de usar valores de referência defasados da prefeitura e passará a considerar o preço real de mercado dos imóveis. Para muitas famílias, a conta fica pesada. E por isso estão antecipando.

Ana Paula Frontini, presidente do Colégio Notarial do Brasil na Seção São Paulo, observa que a reforma abriu uma conversa que antes era adiada. Famílias que nunca tinham pensado seriamente em planejamento sucessório agora estão avaliando com atenção os impactos tributários futuros e buscando alternativas para proteger seus herdeiros. A estratégia mais comum é a doação com reserva de usufruto: os pais transferem a propriedade aos filhos mas mantêm o direito de morar no imóvel, administrá-lo e receber aluguel enquanto viverem. É uma forma de organizar a sucessão sem perder o controle.

Mas há mais medo do que apenas os 8% anunciados. O advogado especialista em direito de sucessões Júlio Ballerini descreve o cenário como um "pânico" alimentado por receios ainda maiores. Circulam propostas assustadoras — como a antiga PEC 96/2015, que nunca foi aprovada mas previa alíquotas de até 27,5% para heranças e doações. Embora seja uma discussão antiga, o rumor persiste nas redes sociais. Ballerini aponta que há também receio de mudanças ainda mais radicais, como propostas para retirar viúvos da condição de herdeiros. Quando a informação é incerta e circula livremente, as pessoas tendem a agir pelo pior cenário.

Um fator adicional acelerou a corrida aos cartórios: desde setembro de 2025, a Receita Federal determinou que o Cadastro Imobiliário Fiscal seja atualizado com base nos dados dos cartórios. Isso significa que o imposto, que antes era calculado sobre valores venais defasados, passa a considerar valores mais próximos dos preços reais das escrituras. Para muitos, é mais um motivo para antecipar a transferência enquanto as regras atuais ainda vigoram.

Os números refletem essa movimentação. A arrecadação de ITCMD em São Paulo cresceu 81% em cinco anos, passando de R$ 3,5 bilhões em 2020 para R$ 6,39 bilhões em 2025. Mesmo enquanto o estado se prepara para adaptar sua legislação, o imposto já está arrecadando muito mais. As novas regras, porém, só entram em vigor em 2027, porque precisam respeitar os prazos constitucionais. Até lá, há uma janela de oportunidade — e as famílias estão aproveitando.

Para quem quer fazer a doação em vida, o procedimento é simples: pode ser feito diretamente no Cartório de Notas. Mas Ballerini recomenda buscar orientação profissional. Sem um advogado, a pessoa fica à mercê da interpretação do cartorário. Com orientação, consegue entender as nuances envolvidas e garantir que a transferência seja feita da forma mais segura possível. A corrida aos cartórios, portanto, não é apenas sobre evitar impostos maiores — é sobre tentar antecipar um futuro tributário que ninguém consegue prever com certeza.

Estamos observando um aumento na procura por planejamento sucessório em todo o país. A Reforma Tributária trouxe para muitas famílias uma discussão que antes costumava ser adiada.
— Ana Paula Frontini, presidente do Colégio Notarial do Brasil - Seção São Paulo
Não é o medo de pagar 8% que impulsiona isso. As pessoas têm medo do que virá depois dos 8%.
— Júlio Ballerini, advogado especialista em direito de sucessões
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