Track&Field desafia crise do varejo com dívida zero e crescimento orgânico

Crescimento sem dívida, sem fusões, sem atalhos
A Track&Field prospera enquanto concorrentes recorrem à recuperação judicial, seguindo modelo de disciplina financeira rigorosa.
Mark

Como uma empresa consegue crescer 20% em vendas sem tomar uma única dívida, quando o setor inteiro está em recuperação judicial?

Mimi

A Track&Field faz o oposto do que a maioria das varejistas faz. Não compra outras empresas, não alavanca financeiramente para expandir rápido. Cresce com franquias, que trazem capital de terceiros sem endividar a matriz.

Luke

Mas isso é realmente uma escolha estratégica ou uma limitação? Sem dívida, a empresa não pode fazer grandes movimentos. Não sabemos se é virtude ou necessidade.

Mark

Os números de crescimento das lojas reformadas — 36% a 38% — parecem muito altos. Como isso se compara com o resto do varejo?

Mimi

É mais que o dobro do crescimento médio das lojas não reformadas. A reforma traz café, produtos de alimentação, amplia o espaço. Muda a experiência do cliente.

Luke

Mas isso é crescimento real ou é canibalisação? Clientes que já compravam na loja podem estar apenas gastando mais ali, não necessariamente trazendo novos clientes.

Mark

E quanto aos eventos? 2.373 corridas em um semestre parece um número enorme.

Mimi

É a estratégia de criar comunidade. Clientes que correm e compram têm lifetime value 50% maior. Não é só vender camiseta, é criar experiência.

Luke

Esse número de 50% vem de onde? É um cálculo interno da empresa, não foi auditado por terceiros. É uma métrica que favorece a narrativa deles.

Mark

Por que a ação desvalorizou 20% se os números são tão bons?

Mimi

O mercado pode estar precificando riscos que não vemos nos números trimestrais. Ou simplesmente não acreditando que esse modelo de crescimento orgânico é sustentável a longo prazo.

Luke

Ou o IPO de 2020 foi precificado muito alto. Não sabemos qual era a expectativa do mercado naquela época. Desvalorização de 20% pode ser correção, não fracasso.

Mark

A concorrência está crescendo. A Live está entrando no mesmo segmento. Isso não ameaça a Track&Field?

Mimi

O CEO diz que o setor cresce rápido o suficiente para absorver novos players. E a Track&Field tem 22 anos de Run Series, marca consolidada, experiência.

Luke

Mas a Live também tem circuito de corrida similar. Não sabemos se a marca da Track&Field é realmente defensável ou se é apenas primeira-mover em um mercado que está ficando commoditizado.

  • Vendas cresceram 20,7% no segundo trimestre de 2026, alcançando R$ 493,4 milhões
  • 457 lojas em operação, cerca de 10% próprias, restante em modelo de franquia
  • Lojas reformadas com cafés apresentaram crescimento de 36-38% em vendas
  • 2.373 eventos realizados no primeiro semestre de 2026, principalmente corridas de rua
  • Empresa mantém dívida zero e nunca realizou fusões ou aquisições

Vendas cresceram 20,7% no segundo trimestre de 2026; empresa mantém disciplina financeira rigorosa sem fusões ou aquisições. Reformas de lojas com cafés e produtos de alimentação saudável geraram crescimento de 36-38%; 2.373 eventos no primeiro semestre atraem clientes com maior lifetime value.

A Track&Field prospera com modelo de dívida zero e crescimento orgânico, reformando lojas e realizando eventos enquanto concorrentes recorrem à recuperação judicial.

Enquanto o varejo brasileiro se debate com endividamento crescente e recuperações judiciais, a Track&Field segue um caminho que soa quase herege no setor: nenhuma dívida, nenhuma fusão, nenhuma aquisição. Apenas crescimento construído internamente, loja por loja, evento por evento.

A empresa de moda esportiva, fundada em 1988 por Fred Wagner, Ricardo Rosset e Beto Azevedo como um negócio simples de vender camisetas em um colégio de elite de São Paulo, transformou-se em rede de 457 lojas espalhadas por todas as regiões do país e em Portugal. O ponto de virada foi 2011, quando adotou o modelo de franquias. Hoje, cerca de 90% das lojas são operadas por franqueados, enquanto a empresa mantém controle sobre o design, a produção e a estratégia de marca.

Os números do segundo trimestre de 2026 revelam o funcionamento dessa fórmula. As vendas ao consumidor cresceram 20,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando R$ 493,4 milhões. A receita líquida consolidada avançou 15,5%, para R$ 279,7 milhões, e o ebitda ajustado cresceu 15,9%. Esses resultados emergem de uma disciplina financeira que o CEO Fernando Tracanella, executivo de 54 anos vindo do mercado financeiro, descreve como a chave para o desempenho. Tracanella trabalhou como CFO e líder de expansão antes de assumir o comando da empresa, e usa a palavra "consistência" repetidamente ao explicar por que a Track&Field não cai na tentação de movimentos de fusão e aquisição que marcam o setor. "Isso poderia acarretar perda de foco e choque de culturas", afirma.

A empresa vende quase exclusivamente artigos próprios, desenvolvidos internamente: camisetas, casacos e leggings feitos com materiais que oferecem leveza, secagem rápida e proteção solar. Essa especialização permite margens de lucro que consultores do setor descrevem como "muito saudáveis". Alberto Serrentino, consultor e fundador do Instituto Retail Think Tank, observa que a Track&Field é "um exemplo de empresa muito, muito consistente" na expansão, na estrutura de capital e no crescimento orgânico, com indicadores "entre os melhores do Brasil".

Recentemente, a empresa iniciou um programa de reforma de lojas que amplia o espaço expositivo e inclui cafés onde são vendidos suplementos alimentares e produtos de nutrição esportiva. Essa incursão em alimentação saudável é talvez o movimento mais próximo de uma diversificação que a Track&Field já fez. Os resultados justificam o investimento: as lojas reformadas apresentaram crescimento de vendas de 36% a 38% no segundo trimestre de 2026 em comparação anual, mais que o dobro do crescimento médio das lojas não reformadas. Tracanella descreve a reforma como cumprindo "duplo papel": resultado financeiro imediato e proteção de marca, mantendo as lojas atuais e modernas.

Outro pilar da estratégia é o ecossistema de eventos. No primeiro semestre de 2026, a empresa realizou 2.373 eventos, a maioria corridas de rua. O circuito Run Series, com 22 anos de existência, é o destaque. A empresa calcula que clientes que compram produtos e participam dos eventos apresentam um "lifetime value" — a receita que podem gerar ao longo de todo o relacionamento com a marca — mais de 50% superior ao de um cliente que apenas compra. Fred Wagner, CEO da TFSports (a plataforma digital, de eventos e experiências da empresa) e vice-presidente de estratégia, explica que o consumidor se relaciona "talvez mais profundamente com a marca" quando participa de uma corrida ou se alimenta em um dos cafés da Track&Field. Isso expande o que ele chama de "share of closet" — o espaço dedicado à empresa no guarda-roupa dos clientes.

O contexto do mercado favorece a empresa. Segundo o ranking Top 300 do Varejo Brasileiro, as vendas do segmento de moda, calçados e artigos esportivos cresceram 8,6% em 2025, acima dos 6,4% do varejo restante medido pelo IBGE. Serrentino atribui o desempenho ao "aumento do interesse das pessoas por saúde e bem-estar" e até mesmo às canetas emagrecedoras, que "empurram mais gente para a atividade física". Tracanella vê no wellness uma oportunidade duradoura: "As pessoas estão se cuidando mais e se cuidarão ainda mais, e com isso o segmento continuará crescendo." Ele destaca também a adoção crescente do vestuário esportivo no dia a dia e no trabalho, tendência conhecida como "athleisure".

A ação da Track&Field, lançada em 2020 em uma das últimas grandes ondas de IPOs da B3, debutou abaixo da faixa esperada e acumula desvalorização de cerca de 20% em 2026, apesar dos bons números operacionais. Em fevereiro, o Banco Safra recomendou a compra, prevendo potencial de alta de 27% até o fim do ano. Enquanto isso, a empresa segue seu caminho sem pressa, expandindo com disciplina e construindo marca através de eventos e experiências que transformam clientes ocasionais em participantes de uma comunidade.

A empresa não cai em tentação de fazer movimentos de fusão e aquisição, algo muito recorrente no varejo. Isso poderia acarretar perda de foco e choque de culturas.
— Fernando Tracanella, CEO da Track&Field
É um exemplo de empresa muito, muito consistente. Na expansão, na estrutura de capital, no crescimento orgânico. Nunca fizeram fusão e aquisição, não alavancaram.
— Alberto Serrentino, consultor e fundador do Instituto Retail Think Tank
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