Toxicidade online persiste apesar da evolução das redes sociais

A toxicidade não é um acidente do design digital
Investigadores concluem que comportamento tóxico é profundamente enraizado na natureza humana, não apenas resultado das plataformas.
Mark

Então o estudo está a dizer que nada mudou em 34 anos? Isso parece impossível, considerando como as redes sociais se transformaram.

Mimi

Não é que nada tenha mudado — as plataformas evoluíram muito. Mas os padrões de como as pessoas se comportam uma com a outra, especialmente quando são tóxicas, mantêm-se consistentes.

Luke

Mas como é que se compara toxicidade na USENET dos anos 90 com o YouTube de hoje? Os contextos são completamente diferentes. Quantos comentários de cada plataforma estão realmente no dataset?

Mimi

Boa pergunta. O estudo não especifica a distribuição exata, mas analisou 500 mil comentários no total. O ponto é que, independentemente da plataforma, o padrão é o mesmo.

Mark

E as pessoas não saem das discussões tóxicas? Isso é surpreendente.

Mimi

Sim. Mesmo quando as conversas ficam hostis, as pessoas continuam a participar. Não é o comportamento tóxico que as afasta.

Luke

Mas será que o estudo diferencia entre pessoas que saem e pessoas que nunca saem? Porque se alguém é resiliente à toxicidade, isso é diferente de alguém que não se importa.

Mimi

É um ponto válido. O estudo define toxicidade como comentários que fazem alguém abandonar a discussão, mas não especifica se está a medir abandono real ou apenas potencial.

Mark

Então o que é que isto nos diz sobre o futuro? Se a toxicidade é um traço humano profundamente enraizado, como é que se resolve?

Mimi

Talvez não se resolva. Talvez seja sobre aceitar que é parte da natureza humana e gerir as expectativas sobre o que as plataformas podem fazer.

Luke

Ou talvez seja sobre compreender melhor por que razão as pessoas são tóxicas online. O estudo identifica o padrão, mas não explica a causa.

Mark

E isso importa?

Luke

Importa muito. Se não sabemos por que é que as pessoas fazem isto, não podemos saber se é realmente inevitável ou se há algo que podemos fazer.

  • Meio milhão de comentários analisados ao longo de três décadas e meia apontam para uma verdade difícil: a hostilidade digital não é nova nem acidental.
  • A toxicidade mantém-se consistente em plataformas tão distintas como a USENET dos anos 90 e o YouTube de hoje, desafiando a ideia de que o design das redes sociais é o principal culpado.
  • Quanto mais longas as discussões, maior a toxicidade e a polarização — e ainda assim os utilizadores não abandonam as conversas, mesmo quando o ambiente se torna hostil.
  • Investigadores de Londres e Roma alertam que a ciência tem focado demasiado as plataformas e pouco a natureza humana, e que este estudo representa uma correção necessária dessa perspetiva.
  • A implicação mais perturbadora é que não existe solução técnica simples: ajustar algoritmos ou redesenhar interfaces não resolve aquilo que parece ser um traço profundamente enraizado no comportamento humano.

Ao longo de 34 anos e oito plataformas digitais, investigadores descobriram que a toxicidade online não é filha do algoritmo nem do design — é reflexo de algo mais antigo e mais íntimo na natureza humana. Um estudo publicado na Nature, que examinou mais de 500 mil comentários desde a USENET até ao YouTube, revela que os padrões de comportamento hostil permanecem notavelmente constantes, independentemente da época, do tema ou do espaço digital em causa. A conclusão é simultaneamente simples e incómoda: quando a distância e o anonimato nos protegem, tendemos a comportar-nos da mesma forma — há décadas.

Trinta e quatro anos de conversas digitais — da USENET aos feeds do YouTube — e a forma como as pessoas se comportam online mal mudou. É esta a conclusão central de um estudo publicado na revista Nature, que analisou mais de 500 mil comentários em oito plataformas diferentes e encontrou um padrão perturbador na sua consistência: a toxicidade online é a mesma de hoje que era quando a internet dava os primeiros passos.

Os investigadores definiram toxicidade de forma objetiva — comentários rudes, desrespeitosos ou despropositados que levam alguém a abandonar uma discussão. E descobriram que este comportamento se repete com notável regularidade, independentemente da plataforma, do tema ou do momento histórico. As redes sociais transformaram-se profundamente em design e escala ao longo das décadas, mas a dinâmica fundamental entre utilizadores permaneceu surpreendentemente estável.

O estudo revelou ainda que discussões mais longas tendem a gerar não só mais toxicidade, mas também maior polarização. E, paradoxalmente, a presença de interações hostis não afasta os participantes — as pessoas continuam a envolver-se mesmo quando o ambiente se deteriora.

Andrea Baronchelli, da City University of London, sublinha que estudar múltiplas plataformas foi decisivo: quando o mesmo padrão se repete em oito contextos diferentes ao longo de décadas, torna-se impossível atribuir o problema apenas ao design de cada rede. Walter Quattrociocchi, da Universidade de Roma La Sapienza, vai mais longe e afirma que o comportamento tóxico não é um acidente digital — é algo enraizado na forma como as pessoas agem quando protegidas pelo anonimato e pela distância que a internet oferece.

A conclusão é desconfortável mas clara: não há botão para ajustar nem algoritmo para corrigir. A toxicidade online não é um problema das plataformas. É um problema de como nos comportamos quando temos a oportunidade de o fazer — e essa oportunidade existe desde o início.

Há três décadas e meia de conversas digitais — desde os primeiros dias da USENET até aos feeds do Facebook, Reddit e YouTube de hoje — e a forma como as pessoas se comportam online mal mudou. Um estudo publicado na revista Nature analisou mais de 500 mil comentários recolhidos ao longo de 34 anos em oito plataformas diferentes e chegou a uma conclusão perturbadora: os padrões de toxicidade que observamos agora são os mesmos que existiam quando a internet era ainda jovem.

Os investigadores definiram toxicidade de forma clara e prática — comentários rudes, desrespeitosos ou despropositados que levam alguém a abandonar uma discussão. Não é uma questão de opinião divergente ou debate acalorado. É o tipo de interação que faz as pessoas sair da conversa. E descobriram que este comportamento é notavelmente consistente, independentemente de qual plataforma se está a usar, do assunto que está em discussão ou de quando a conversa aconteceu.

O que torna este achado particularmente significativo é o que não mudou. Ao longo de décadas, as redes sociais evoluíram dramaticamente em design, funcionalidade e escala. Mas a dinâmica fundamental das conversas entre utilizadores permaneceu surpreendentemente estável. Os investigadores também descobriram que as discussões que se prolongam tendem a desenvolver não apenas mais toxicidade, mas também maior polarização — as pessoas tornam-se mais entrincheiradas nas suas posições. E no entanto, curiosamente, a presença de interações tóxicas não afasta as pessoas das discussões. Continuam a participar, mesmo quando o ambiente se torna hostil.

Andrea Baronchelli, professor na City University of London e um dos autores do estudo, sublinha por que razão analisar múltiplas plataformas foi essencial. Quando se estuda apenas uma rede social, é fácil atribuir o comportamento tóxico ao design específico dessa plataforma — aos seus algoritmos, às suas funcionalidades, à forma como incentiva a engagement. Mas quando se vê o mesmo padrão repetir-se em oito plataformas diferentes, ao longo de décadas, torna-se claro que algo mais profundo está em jogo. Baronchelli argumenta que a investigação costuma focar-se demasiado nas plataformas em si, deixando a natureza humana em segundo plano. Este estudo, diz ele, representa um passo importante para corrigir essa perspetiva.

Walter Quattrociocchi, investigador na Universidade de Roma La Sapienza e também co-autor, vai mais longe. Afirma que o estudo demonstra a importância crítica da ciência de dados para compreender o comportamento humano online, e confirma algo que talvez seja desconfortável aceitar: o comportamento tóxico não é um acidente do design digital. É algo profundamente enraizado na forma como as pessoas interagem quando estão protegidas pelo anonimato e pela distância que a internet oferece.

O que isto significa é que não há solução simples. Não é uma questão de ajustar um algoritmo ou redesenhar um botão. A toxicidade online não é um problema das plataformas — é um problema de como nos comportamos quando temos a oportunidade de o fazer. E essa oportunidade tem existido desde o início.

A análise de múltiplas plataformas é fundamental para isolar padrões comportamentais genuinamente humanos, diferenciando-os de simples reações a ambientes online idiossincráticos.
— Andrea Baronchelli, City University of London
O comportamento tóxico é um aspecto profundamente enraizado nas interações digitais.
— Walter Quattrociocchi, Universidade de Roma La Sapienza
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