Frequência sexual no Reino Unido caiu de cinco vezes por mês nos anos 1990 para três vezes em 2010, com fatores como estresse, tecnologia e sedentarismo contribuindo. Alguns pacientes relatam que testosterona transformou suas vidas e relacionamentos, enquanto outros enfrentam efeitos colaterais como raiva intensa e crescimento excessivo de pelos.
Testosterona em alta: solução milagrosa ou negócio lucrativo?
Não é uma solução mágica, é como colocar um motor de Ferrari em um carro velho
Por que a testosterona se tornou tão popular de repente? Parece que há cinco anos ninguém falava nisso.
Porque coincidiu com uma queda real na frequência sexual — dados mostram que britânicos estão fazendo menos sexo do que faziam nos anos 1990. Estresse, tecnologia, sedentarismo. As pessoas estão procurando uma explicação simples para um problema complexo.
E a testosterona é simples?
Não. Mas parece ser. Um anúncio no metrô diz "Cansado? Confuso? Pode ser testosterona baixa." É fácil de vender. É fácil de prescrever. E as clínicas privadas perceberam que há dinheiro nisso.
Mas funciona de verdade?
Para alguns, sim. Alan Reeves diz que transformou sua vida. Melissa Green diz que salvou seu casamento. Mas Cheryl O'Malley parou de tomar porque a deixou com raiva intensa. Os efeitos colaterais são reais — crescimento de pelos, acne, alterações de humor.
Então por que os médicos do NHS não prescrevem mais?
Porque os critérios são diferentes. O NHS usa um limite mais alto — abaixo de 6 a 8 nanomoles por litro. A Sociedade Britânica de Medicina diz abaixo de 12. Clínicas privadas argumentam que a questão é mais nuançada do que um número.
Isso soa como uma desculpa para vender mais.
Pode ser. Paula Briggs, consultora do NHS, chama isso de "mina de ouro". Muitas pessoas pagam muito por algo de que não precisam. Mas Jeff Foster, que trabalha em uma clínica privada, diz que estão preenchendo um vazio que o NHS deixou.
Qual é a verdade?
Provavelmente está no meio. A testosterona ajuda algumas pessoas. Mas não é a resposta para tudo. Ben Davis, terapeuta sexual, diz que existem muitos fatores por trás da baixa libido — relacionamento, autoestima, o que você está fazendo na cama. Uma injeção não resolve tudo.
The Pulse
- Prescrições de testosterona cresceram 135% no Reino Unido entre 2021 e 2024
- Frequência sexual caiu de cinco vezes por mês nos anos 1990 para três vezes em 2010
- Critérios de diagnóstico variam: NHS usa 6-8 nmol/L, Sociedade Britânica de Medicina usa 12 nmol/L
- Efeitos colaterais incluem crescimento excessivo de pelos, acne, raiva intensa e alterações de humor
Frequência sexual no Reino Unido caiu de cinco vezes por mês nos anos 1990 para três vezes em 2010, com fatores como estresse, tecnologia e sedentarismo contribuindo. Alguns pacientes relatam que testosterona transformou suas vidas e relacionamentos, enquanto outros enfrentam efeitos colaterais como raiva intensa e crescimento excessivo de pelos.
Prescrições de testosterona crescem 135% no Reino Unido entre 2021 e 2024, enquanto especialistas debatem se a terapia resolve baixa libido ou é apenas marketing lucrativo de clínicas privadas.
Alan Reeves tinha tudo — a carreira de dançarino que o levou aos palcos do Reino Unido e até a uma ponta no filme das Spice Girls. Aos 24 anos, era o que ele mesmo chama de galã. Mas quando chegou aos 30, algo mudou. A disposição desapareceu. A libido evaporou. Aos 52 anos, olhando para trás, ele reconhece que aqueles anos de desejo ausente quase destruíram seu casamento. "Ficávamos sem sexo por três, quatro meses seguidos", conta. "Esse tipo de coisa pode levar casais a romperem."
Reeves não está sozinho. Nos últimos anos, o Reino Unido viu uma queda consistente na frequência sexual. Nos anos 1990, britânicos adultos faziam sexo em média cinco vezes por mês. Em 2010, esse número havia caído para três. Os pesquisadores da Natsal — a Pesquisa Nacional de Comportamento Sexual e Estilo de Vida, realizada a cada dez anos com mais de dez mil entrevistados — apontam múltiplos culpados: o mundo digital hiperconectado do qual é difícil se desligar, níveis de estresse mais altos do que havia 30 anos, vidas mais sedentárias. Soazig Clifton, diretora acadêmica da Natsal, é clara: "Nenhum dado que temos até agora pode realmente nos dizer com segurança por que, como população, não estamos mais fazendo sexo com tanta frequência."
Mas há um fator que ganhou tração particular — e que se converteu em um grande negócio. Os níveis de testosterona nos homens estão diminuindo. Geoffrey Hackett, urologista consultor e membro da Sociedade Britânica de Medicina Sexual, aponta a obesidade crescente, o diabetes tipo 2 e o sedentarismo como culpados. Mulheres também enfrentam quedas hormonais, especialmente durante a menopausa. E enquanto ter baixa testosterona aumenta a probabilidade de baixa libido, a relação não é simples — nem todos com níveis baixos perdem o desejo sexual. Ainda assim, estações de metrô e redes sociais explodem com anúncios: "Baixa libido? Confusão mental? Cansado? Hora de verificar seus níveis de testosterona!"
Para alguns, a terapia de reposição de testosterona funciona. Reeves diz que o tratamento o transformou de um "velho rabugento" em alguém que se sente como se tivesse voltado aos 20 anos. Melissa Green, uma mulher de 43 anos na perimenopausa, afirma que a testosterona salvou seu casamento. "Isso me devolveu a vida", diz ela. "Tenho mais energia, me sinto mais alerta e meu desejo sexual voltou." Rachel Mason, uma blogueira de 37 anos que escreve sobre menopausa, descreve o hormônio como "incrível" para manter altos seus níveis de energia e concentração. No Reino Unido, as prescrições de testosterona cresceram 135% entre 2021 e 2024, segundo dados da NHS Business Authority compilados pela Care Quality Commission.
Mas nem todos têm a mesma experiência. Cheryl O'Malley fez terapia de reposição de testosterona por um ano e descobriu que, embora ajudasse a recuperar energia perdida durante a menopausa, também aumentou demais seu desejo sexual e a deixou com sentimentos de raiva intensa. "Eu estava muito excitada. Queria fazer sexo com meu marido, mas ao mesmo tempo o odiava", relata. Os efeitos colaterais são reais: para mulheres, crescimento excessivo de pelos, acne e ganho de peso são comuns — geralmente reversíveis com redução de dosagem. Para homens, podem incluir ganho de peso, ereções dolorosas e prolongadas, calvície e alterações de humor, além de diminuição na produção de espermatozoides.
O debate mais acalorado, porém, gira em torno do lucro. Paula Briggs, consultora do NHS em saúde sexual e reprodutiva, descreve as clínicas privadas como uma "mina de ouro", onde muitas pessoas pagam muito dinheiro por algo de que não precisam. "Está fora de controle", diz ela. "A indústria do bem-estar criou essa lacuna no mercado que está usando a seu favor. É abusivo." Clínicas privadas, por sua vez, argumentam que estão preenchendo um vazio deixado pelo NHS. Jeff Foster, clínico geral do NHS e diretor médico da Voy, afirma: "No momento, o NHS não está preparado para diagnosticar ou tratar os milhares de homens que podem ter baixa testosterona."
O problema está nos critérios. As diretrizes da Sociedade Britânica de Medicina sugerem que homens com menos de 12 nanomoles por litro devem ser considerados para terapia. O NHS, porém, aponta níveis abaixo de 6 a 8 nanomoles por litro. Michael Kocsis, que oferece terapia de reposição de testosterona desde 2016 por meio de sua empresa Balance My Hormones, argumenta que a questão é mais complexa. "Só porque o nível de testosterona deles pode estar um pouco acima do limite estabelecido pelo NHS, não significa que a TRT não possa ajudá-los." Reeves recebeu inicialmente tratamento pelo NHS com níveis de 10 e 12 nanomoles por litro, mas após quatro injeções foi informado de que não poderia continuar. Ele então procurou uma clínica particular.
Ben Davis, clínico geral e terapeuta sexual, alerta que a testosterona pode ter um efeito placebo, levando pacientes a tomar medicamentos dos quais não precisam. Ele também aponta que existem muitos fatores por trás da baixa libido — relacionamento com o parceiro, autoestima, falta de excitação com o sexo atual — que uma prescrição não resolve. "Para alguns, a medicação pode ser realmente transformadora", diz Davis, "mas não é uma bala de prata." Reeves concorda. Após sete anos de terapia, ele afirma que a testosterona "não é uma solução mágica" e que não faz sentido tomá-la sem fazer outras mudanças no estilo de vida. "É como colocar um motor de Ferrari em um carro velho", diz ele. Enquanto isso, Cheryl O'Malley parou de tomar testosterona e se sente aliviada. A raiva intensa diminuiu. Sua libido retornou a um nível que lhe parece confortável. O debate continua — e as clínicas privadas continuam lucrando.
Notable Quotes
Está fora de controle. A indústria do bem-estar criou essa lacuna no mercado que está usando a seu favor. É abusivo.— Paula Briggs, consultora do NHS em saúde sexual e reprodutiva
Para alguns, a medicação pode ser realmente transformadora, mas não é uma bala de prata.— Ben Davis, clínico geral e terapeuta sexual