Em janeiro, o mercado de títulos públicos brasileiros revelou uma verdade antiga sobre o tempo e a incerteza: quem aposta no longo prazo carrega o peso do imprevisível. Enquanto o Tesouro Selic oferecia abrigo seguro em meio à tempestade inflacionária e às turbulências fiscais, os papéis de prazo mais longo sofreram perdas de dois dígitos — lembrando que, em renda fixa como na vida, a paciência tem um preço, e a pressa, um risco.
Tesouro Selic é único no positivo em janeiro; IPCA+ de longo prazo sofre perdas de até 11,71%
Quando as taxas sobem, o preço dos títulos cai
Por que apenas o Tesouro Selic saiu positivo em janeiro se a Selic estava subindo?
Porque o Tesouro Selic é pós-fixado — ele acompanha a taxa básica de juros. Quando a Selic sobe, o retorno desses títulos sobe junto. Os outros papéis, prefixados e indexados à inflação, têm suas taxas fixadas no momento da compra, então quando as taxas de mercado sobem, o preço desses títulos cai para compensar.
Mas espera — os ganhos foram pequenos, 0,87% e 0,90%. Isso é realmente positivo ou é só nominalmente positivo sem considerar a inflação?
É nominalmente positivo. Se você considerar a inflação, que estava em alta, o ganho real foi menor. Mas ainda assim foi ganho, enquanto os outros papéis tiveram perdas reais.
E por que os papéis de longo prazo caíram tanto mais que os de curto prazo?
Porque quanto mais longe o vencimento, mais incerteza há sobre como a economia vai estar. Um título que vence em 2045 está exposto a 23 anos de possíveis mudanças. Isso gera volatilidade maior.
Mas essa volatilidade só importa se você vender antes do vencimento, certo?
Exatamente. Se você compra um título de 2045 e segura até 2045, recebe o retorno que foi acordado. A queda de 11,71% só afeta quem precisa vender agora.
Então por que os especialistas recomendam ficar fora dos papéis longos?
Porque ninguém sabe se vai precisar do dinheiro antes do vencimento. E se precisar, vai estar vendendo com prejuízo. É mais seguro ficar em títulos curtos enquanto há incerteza sobre inflação, juros e gastos do governo.
Os especialistas mencionam que o BC pode subir a Selic até 11,5%. Isso está confirmado ou é só uma projeção?
É uma projeção da Órama. O que está confirmado é que há uma reunião do Copom em fevereiro e o mercado projeta aumento de 1,5 ponto percentual. O resto é análise.
E se o BC parar em 10,75% em vez de ir até 11,5%?
Aí os títulos prefixados que você comprou agora com taxa de 11,31% ao ano estariam muito mais atraentes, e você poderia vender com ganho. Mas é especulação.
Der Puls
- Nove dos onze títulos do Tesouro Direto encerraram janeiro no vermelho, com o Tesouro IPCA+ 2045 despencando 11,71% — a maior queda do mês.
- Dois choques simultâneos sacudiram o mercado: a inflação oficial acima das expectativas e o veto presidencial à PEC dos combustíveis, que sinalizou possíveis novos gastos públicos.
- Especialistas convergem em alerta: papéis de longo prazo entre 2030 e 2055 concentram risco elevado diante da impossibilidade de prever a economia brasileira por décadas.
- A recomendação é clara — migrar para títulos curtos: Tesouro Selic 2024 e IPCA+ 2026 são os mais indicados para atravessar o período de incerteza.
- Fevereiro promete nova pressão: o Copom deve elevar a Selic a 10,75%, e o Federal Reserve americano deve sinalizar mais altas nos EUA, ampliando a volatilidade nos ativos brasileiros.
Em janeiro, o mercado de títulos públicos brasileiros revelou uma verdade antiga sobre o tempo e a incerteza: quem aposta no longo prazo carrega o peso do imprevisível. Enquanto o Tesouro Selic oferecia abrigo seguro em meio à tempestade inflacionária e às turbulências fiscais, os papéis de prazo mais longo sofreram perdas de dois dígitos — lembrando que, em renda fixa como na vida, a paciência tem um preço, e a pressa, um risco.
Janeiro terminou com um cenário raro no Tesouro Direto: apenas o Tesouro Selic saiu positivo, com ganhos de 0,87% e 0,90% nos vencimentos de 2024 e 2027, respectivamente. Os outros nove papéis — prefixados e indexados à inflação — registraram perdas, algumas delas severas.
Dois fatores dominaram o mês. A divulgação do IPCA empurrou as expectativas de inflação para 2022 de 5,15% para 5,38%, bem acima da meta de 3,5% do Banco Central. Ao mesmo tempo, o veto do presidente Bolsonaro à PEC dos combustíveis gerou volatilidade ao sinalizar possíveis gastos adicionais do governo.
As maiores perdas ficaram nos papéis de longo prazo: o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 caiu 11,71%, uma queda expressiva frente ao recuo de 1,32% registrado em dezembro. Os especialistas lembram que essa volatilidade afeta apenas quem resgata antes do vencimento — quem aguarda recebe exatamente o que foi acordado na compra.
A recomendação dos analistas é de cautela e foco no curto prazo. Sandra Blanco, da Órama, defende maior alocação em títulos pós-fixados enquanto as expectativas sobre a Selic permanecem incertas. Rodrigo Caetano, da Toro, destaca os títulos IPCA+ com juros reais acima de 5% e vencimento inferior a cinco anos como os mais atrativos para 2022.
Para fevereiro, o cenário segue desafiador. O Copom se reúne no dia 2 e o mercado projeta alta de 1,5 ponto percentual na Selic, levando-a a 10,75% ao ano. As discussões sobre a PEC dos combustíveis devem voltar ao radar com o retorno dos parlamentares, e os sinais do Federal Reserve americano sobre juros nos EUA prometem continuar pressionando os ativos brasileiros.
Janeiro terminou com um cenário raro no mercado de títulos públicos: apenas um tipo de investimento saiu positivo enquanto todos os outros dez papéis disponíveis no Tesouro Direto registraram perdas. O Tesouro Selic, atrelado à taxa básica de juros, foi a exceção, com ganhos de 0,87% para títulos com vencimento em 2024 e 0,90% para os de 2027. Tudo mais — os nove papéis prefixados e indexados à inflação — caiu, e caiu forte.
O mês foi marcado por dois grandes agitadores do mercado. Primeiro, a divulgação do resultado do IPCA, que alimentou preocupações sobre a inflação. As expectativas dos economistas para o índice em 2022 subiram de 5,15% para 5,38%, bem acima da meta de 3,5% perseguida pelo Banco Central, mesmo considerando a margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. Segundo, o veto do presidente Jair Bolsonaro à Proposta de Emenda à Constituição dos combustíveis, que havia gerado volatilidade nas negociações ao sinalizar possíveis gastos adicionais do governo.
Os papéis prefixados de curto prazo foram os que menos sofreram. Os títulos com vencimento em 2031 recuaram apenas 3,52%, oferecendo retorno de 11,31% ao ano no último dia do mês — uma recuperação notável comparada ao ganho de 5,52% registrado em dezembro. Mas foi nos papéis de longo prazo do Tesouro IPCA+ que as perdas se tornaram severas. O título com vencimento em 2045 despencou 11,71%, uma queda brutal em relação à perda de 1,32% do mês anterior. Naquele último dia de janeiro, o papel era negociado com retorno de 5,61% acima da inflação, com aplicação mínima de R$ 32,13.
Os especialistas explicam essa dinâmica por um princípio fundamental do mercado de renda fixa: quando as taxas de juros sobem, os preços dos títulos caem. Para quem compra agora, isso é bom — garante rentabilidade maior se mantiver o investimento até o vencimento. Para quem já possui os títulos na carteira, é uma perda temporária, mas real no valor de mercado. Essa volatilidade afeta apenas quem resgata antes do prazo combinado; quem aguarda até o vencimento recebe exatamente o que foi acordado no momento da compra.
Os analistas consultados convergem em uma recomendação: cautela e foco no curto prazo. Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama, defende uma alocação maior em títulos pós-fixados — aqueles atrelados à Selic — porque a relação risco-retorno é mais favorável enquanto as expectativas sobre a taxa básica de juros permanecem incertas. Rodrigo Caetano, especialista em investimentos da Toro, aponta os títulos indexados à inflação com juros reais acima de 5% e vencimento inferior a 5 anos como os mais interessantes diante de um cenário de incertezas que pode se desenrolar ao longo de 2022.
Os papéis de longo prazo — aqueles com vencimento entre 2030 e 2055 — são considerados os mais arriscados justamente porque é impossível prever com precisão como estará a economia brasileira em 2030, e ainda menos em 2055. Essa incerteza se traduz em oscilações grandes de preço ao longo do tempo. Para fevereiro, os especialistas mantêm a mesma orientação: Tesouro Selic com vencimento em 2024 e IPCA+ com vencimento em 2026 são os títulos mais indicados, com quedas de 0,22% e 2,34% respectivamente em janeiro.
O próximo mês promete ser tão ou mais turbulento. O Comitê de Política Monetária do Banco Central se reúne na quarta-feira, dia 2, e o mercado projeta um aumento de 1,5 ponto percentual na Selic, levando-a a 10,75% ao ano. Blanco acredita que o BC seguirá aumentando até 11,5% antes de pausar e reavaliar. Além disso, as incertezas fiscais devem permanecer no radar: o retorno dos parlamentares a Brasília e a provável retomada das discussões sobre a PEC dos combustíveis podem sinalizar novos gastos. Globalmente, o Federal Reserve americano deve dar mais sinais sobre o aumento de juros nos Estados Unidos, movimento que já começou a impactar os ativos brasileiros.
Bemerkenswerte Zitate
Enquanto não tiver clara de até onde vai a Taxa Selic, recomendo uma alocação maior nos pós-fixados, porque a relação risco-retorno é muito melhor— Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama
Os títulos indexados à inflação com juros reais acima de 5% e o Tesouro Selic, ambos com vencimento inferior a 5 anos, são os mais interessantes em um cenário de incertezas— Rodrigo Caetano, especialista em investimentos da Toro