Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035 oferecia 6,29% acima da inflação, patamar não visto há mais de um ano, antes de recuar para 6,16%. Especialistas recomendam diversificação entre títulos prefixados, pós-fixados e indexados à inflação, com distribuição entre prazos curto, médio e longo.
Tesouro IPCA+ segue atrativo mesmo após queda recente de taxas
Mais renda tende a elevar o consumo, o que gera inflação
Por que as taxas do Tesouro IPCA+ caíram se os especialistas ainda acham atrativo?
Porque a queda foi causada por mudanças nas expectativas de juros americanos, não por uma deterioração dos fundamentos brasileiros. Os prêmios reais continuam altos.
Mas quanto dessa queda é reversível? Se o Fed não cortar juros como o mercado agora espera, as taxas brasileiras podem voltar a subir rapidamente.
E por que o governo brasileiro não consegue cortar juros mais agressivamente?
Porque o mercado de trabalho está muito forte, salários crescem acima da produtividade, e o governo aumentou transferências de renda. Mais dinheiro nas mãos das pessoas tende a elevar o consumo e a inflação.
Isso é verdade, mas também depende de quanto dessa inflação é transitória versus estrutural. Os dados ainda não são conclusivos.
Os especialistas recomendam diversificação. Mas qual é a melhor alocação agora?
Distribuir entre prazos curtos, médios e longos no IPCA+, combinado com alguns títulos prefixados de curto prazo. Assim você aproveita as altas taxas reais sem ficar totalmente exposto a um único cenário.
A recomendação de diversificação é segura, mas também é genérica. O que funciona depende muito de quanto tempo você pode deixar o dinheiro investido e qual é sua tolerância a volatilidade.
E a questão fiscal? O governo mudou as metas para 2025.
Isso abalou a confiança. O mercado interpretou como uma admissão de que o governo não fará ajustes importantes nas despesas.
Mas é importante notar que a meta ainda é déficit zero, não um superávit. Não é tão ruim quanto parece à primeira vista, embora claramente seja pior do que o prometido.
El Pulso
- Tesouro IPCA+ 2035 oferecia 6,29% acima da inflação, recuando para 6,16%
- IMA-B entregou retorno de 200% em dez anos, superando IRF-M (172%) e Ibovespa (148%)
- Desemprego no Brasil está no menor patamar em dez anos
- Governo mudou meta fiscal para 2025 de superávit para déficit zero
Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035 oferecia 6,29% acima da inflação, patamar não visto há mais de um ano, antes de recuar para 6,16%. Especialistas recomendam diversificação entre títulos prefixados, pós-fixados e indexados à inflação, com distribuição entre prazos curto, médio e longo.
Taxas do Tesouro IPCA+ recuaram após alívio nos dados de emprego americano, mas especialistas mantêm visão construtiva sobre os títulos de inflação, que oferecem prêmios reais elevados em ambiente de corte de juros.
As taxas oferecidas pelos títulos do Tesouro Direto indexados à inflação tocaram patamares não vistos há mais de um ano na semana passada, antes de recuarem ligeiramente nos últimos dias. O Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035 chegou a oferecer 6,29% acima da inflação — um nível que não era alcançado desde março de 2023. Seu equivalente de prazo mais longo, com vencimento em 2045, também atingiu 6,22% no mesmo período. Essa alta foi impulsionada por uma conjuntura de fatores externos e internos que criaram um ambiente de volatilidade nos mercados de juros, câmbio e bolsa.
O gatilho inicial veio dos Estados Unidos. Em abril, dados resilientes de inflação e mercado de trabalho americano inverteram as expectativas de corte de juros pela Federal Reserve em 2024. O mercado chegou a precificar a possibilidade de as taxas americanas não caírem neste ano. Mas na última semana, números de criação de vagas significativamente abaixo do esperado trouxeram alívio. Jerome Powell, presidente do Fed, reforçou a mudança de cenário ao praticamente descartar a possibilidade de novos aumentos de juros. Com isso, o mercado voltou a acreditar em pelo menos dois cortes até o fim do ano, com o primeiro esperado em setembro. Essa perspectiva de queda nos juros americanos provocou uma retomada do apetite ao risco e um fluxo de capital de volta para mercados emergentes, derrubando as taxas dos títulos públicos brasileiros. Na última sexta-feira, o Tesouro IPCA+ 2035 oferecia 6,16%, e o de 2045 havia recuado para 6,11%.
Mas o cenário brasileiro complica a história. O país desfruta de um mercado de trabalho robusto, com desemprego no menor patamar em dez anos. Salários reais crescem acima da produtividade, e o governo ampliou transferências de renda, reduziu impostos para faixas de menor renda e lançou o programa Desenrola para refinanciar dívidas. Esse ambiente de forte consumo e crédito em expansão torna difícil para o Banco Central acelerar cortes de juros sem risco de inflação. Simultaneamente, a credibilidade das metas fiscais foi abalada quando o governo anunciou mudanças para 2025, reduzindo a previsão de superávit para um déficit zero. Especialistas interpretam isso como uma admissão de que o governo não fará ajustes importantes nas despesas para cumprir os compromissos fiscais estabelecidos.
Apesar da queda recente nas taxas, economistas mantêm uma visão construtiva sobre o Tesouro IPCA+. Victor Beyruti, da Guide Investimentos, destaca que a combinação de inflação historicamente elevada no Brasil com juros reais acima da média dos emergentes torna esses títulos atraentes. Olhando para o histórico de dez anos, o IMA-B, índice que acompanha títulos públicos indexados à inflação, entregou retorno de 200%, superando o IRF-M, que acompanha títulos prefixados e registrou 172%, e até o Ibovespa, com 148%.
Os especialistas, porém, não recomendam apostar tudo em um único tipo de ativo. Álvaro Frasson, do BTG Pactual, defende que a melhor estratégia é diversificar entre títulos prefixados, pós-fixados e indexados à inflação. Para o Tesouro IPCA+, a recomendação é distribuir o investimento entre prazos curto, médio e longo. Quando as taxas de juros estão altas e o mercado enxerga melhora de cenário, títulos com prazos mais curtos tendem a recuar mais do que os de longo prazo, reduzindo perdas. Beyruti sugere uma abordagem em três frentes: uma pequena parte em título de longo prazo indexado à inflação, outra em IPCA+ de curto prazo para aproveitar o juro real de 6%, e um terceiro pedaço em título prefixado com prazo intermediário para garantir o rendimento oferecido hoje.
O risco que paira sobre o mercado é que os juros permaneçam elevados por mais tempo do que o esperado. O Federal Reserve continua dependente de dados para confirmar que a inflação americana está de fato recuando em direção à meta de 2%. Um único relatório de emprego abaixo do esperado não é suficiente para garantir cortes. No Brasil, a combinação de mercado de trabalho forte, consumo aquecido e incerteza fiscal mantém a pressão sobre as taxas de juros reais. Enquanto isso, o Tesouro IPCA+ segue oferecendo prêmios elevados que compensam o investidor pelo risco de inflação surpresa, tornando-o uma proteção relevante em carteiras diversificadas.
Citas Notables
A combinação de inflação elevada no Brasil com juros reais acima da média dos emergentes torna esses títulos atraentes— Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos
O investidor deve ter prefixado, pós-fixado e inflação na carteira, distribuindo o Tesouro IPCA+ entre prazos curto, médio e longo— Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual