A compra da Meteoric Resources pela Lynas por R$ 3,5 bilhões marca o pico de interesse estrangeiro em minerais críticos brasileiros, com 11 das 18 empresas sendo australianas. Terras raras são essenciais para motores de carros elétricos e turbinas eólicas; o Brasil busca avançar além da exportação de minério bruto para etapas de industrialização e agregação de valor.
Terras raras atraem 18 empresas estrangeiras com mais de R$ 17 bi em investimentos
O Brasil extrai e exporta; o processamento acontece em outro lugar.
Por que agora? Por que essas 18 empresas aparecem todas ao mesmo tempo?
A China controla a maior parte da produção global de terras raras. Depois de anos de dependência, empresas e governos estão buscando alternativas. O Brasil tem o minério, e agora tem também uma política que promete industrialização local.
Mas a Lynas ainda está apenas "avaliando o potencial" de separação no Brasil. Não há contrato assinado. Como sabemos que isso vai acontecer?
Verdade. O anúncio foi feito, mas a formalização de um processo de industrialização nacional ainda não existe. Existe a intenção.
E quanto aos outros projetos? Serra Verde já está produzindo?
Serra Verde é o mais avançado. Começou a produzir comercialmente em 2024 em Goiás. Mas mesmo lá, a separação dos elementos — a etapa que agrega mais valor — pode acontecer nos Estados Unidos.
Então o Brasil extrai, concentra, e depois exporta para separação? Isso não é tão diferente do que faz com ferro.
Exatamente. Por isso a nova política existe. O governo quer mudar esse padrão. Mas depende de regulamentação que ainda não saiu.
Quanto desse R$ 17,5 bilhões já foi gasto de verdade?
Boa pergunta. A maioria ainda está em estimativas iniciais. Muitos projetos ainda estão em fase de pesquisa, coletando amostras. Nenhuma garantia de que viram minas.
E há críticas ambientais e sociais em praticamente todos esses empreendimentos.
Então o Brasil está apostando em uma indústria que pode não sair do papel, com empresas que já têm histórico de problemas?
Não é bem assim. Serra Verde já está operando. Mas sim, há muita incerteza. E sim, há preocupações legítimas.
Le Pouls
- 18 empresas estrangeiras com processos minerários para terras raras no Brasil
- R$ 17,5 bilhões em investimentos já realizados e estimativas iniciais
- 11 das 18 empresas são australianas
- Lynas compra Meteoric Resources por R$ 3,5 bilhões em setembro de 2026
- Serra Verde, em Goiás, é a primeira mina comercial de terras raras do país
A compra da Meteoric Resources pela Lynas por R$ 3,5 bilhões marca o pico de interesse estrangeiro em minerais críticos brasileiros, com 11 das 18 empresas sendo australianas. Terras raras são essenciais para motores de carros elétricos e turbinas eólicas; o Brasil busca avançar além da exportação de minério bruto para etapas de industrialização e agregação de valor.
Ao menos 18 empresas estrangeiras disputam exploração de terras raras no Brasil com investimentos superiores a R$ 17,5 bilhões, buscando alternativas à liderança chinesa e oportunidades de industrialização local.
No fim de setembro, a empresa australiana Lynas anunciou a compra da Meteoric Resources por R$ 3,5 bilhões para explorar terras raras no sul de Minas Gerais. O negócio é apenas o episódio mais recente de uma disputa internacional acirrada pelos minerais críticos brasileiros, que até pouco tempo atrás permaneciam largamente ignorados pelos investidores globais.
Ao menos 18 empresas estrangeiras possuem hoje processos minerários em andamento no Brasil para pesquisar ou explorar terras raras. Juntas, elas somam mais de US$ 3,5 bilhões — ou R$ 17,5 bilhões — em investimentos já realizados e estimativas iniciais para implantação. Como muitos desses projetos ainda estão em fase de pesquisa, esse montante tende a crescer rapidamente. A Austrália concentra pelo menos 11 dessas 18 empresas mapeadas. Canadá e Estados Unidos têm três cada. Há ainda uma companhia constituída nas Ilhas Marshall. Todos esses grupos, em maior ou menor medida, acumulam críticas sobre seus impactos ambientais e sociais.
O interesse internacional responde a uma realidade geopolítica simples: a China domina a extração e o beneficiamento global de terras raras, e empresas em todo o mundo buscam alternativas. Esses minerais são essenciais para fabricar ímãs de alto desempenho usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa. A operação entre Meteoric e Lynas foi anunciada menos de um mês após a americana USA Rare Earth concluir a aquisição da mina Serra Verde, em Goiás — a primeira a explorar terras raras comercialmente no país.
O que torna o momento brasileiro particularmente atrativo não é apenas a abundância de minério bruto. O governo federal vê nessa corrida uma oportunidade para transformar o país de um simples vendedor de commodities em um produtor de bens industrializados. Depois que o minério é extraído e concentrado, é necessário separar os elementos e transformá-los em metais, ligas e produtos finais. Essas etapas exigem tecnologia pesada e concentram a maior parte do valor da cadeia. Historicamente, o Brasil extrai e exporta; o processamento acontece em outro lugar. O objetivo agora é mudar isso.
Em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Quinze dias depois, o Ministério de Minas e Energia anunciou que o Brasil receberia a primeira grande planta industrial de separação e processamento de minerais críticos e estratégicos — uma referência ao projeto da Lynas. Porém, até agora, a empresa apenas pretende "avaliar o potencial" para desenvolver atividades de separação no Brasil. Não há compromisso formalizado. O ministério informou que representantes da Meteoric expuseram ao ministro Alexandre Silveira o objetivo de implantar uma indústria de separação aplicando a tecnologia que a Lynas utiliza na Malásia, mas isso permanece no campo das intenções.
O projeto mais avançado na exploração de terras raras no país é o Serra Verde, em Minaçu, Goiás. A mina recebeu licença ambiental de operação em 2023 e começou a produzir comercialmente em 2024. Já recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos e produz concentrado de terras raras usado na indústria de ímãs. A empresa declara que já agrega valor no Brasil porque não exporta minério bruto e opera uma planta integrada de processamento que produz Carbonato Misto de Terras Raras. Outras operações combinam processamento inicial no Brasil com planos industriais no exterior. A canadense Aclara estima US$ 781 milhões para seu projeto em Nova Roma, Goiás, e mantém uma planta-piloto em Aparecida de Goiânia, com unidades próprias nos Estados Unidos para separação. A australiana Brazilian Rare Earths prevê US$ 969 milhões para um empreendimento integrado na Bahia e anunciou em setembro que sua planta-piloto em Camaçari entrou em funcionamento.
Para que esses investimentos se concretizem como promessas de industrialização, a regulamentação da nova política de minerais críticos será decisiva. Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos, observa que a lei traz promessas de novos instrumentos e medidas para que o minério não seja apenas extraído e exportado, mas realmente estimule o adensamento da cadeia de valor. A legislação autoriza a criação de um fundo garantidor com participação da União de até R$ 2 bilhões para facilitar financiamento de projetos prioritários, além de até R$ 1 bilhão por ano em créditos fiscais entre 2030 e 2034 para atividades de processamento e transformação. Mas Cardoso ressalva que a lei deve se voltar mais a estímulos para ampliar a industrialização nacional do que a intervenções estatais diretas. A mineração já é um setor altamente internacionalizado, e isso não vai mudar. O que a legislação oferece são instrumentos para indicar quais caminhos favorecem esses projetos.
Boa parte dos R$ 17,5 bilhões mapeados até agora ainda depende de licenças, financiamento e viabilidade técnica. Muitas empresas ainda precisam demonstrar que os depósitos justificam uma mina, coletando amostras, fazendo sondagens e testes em áreas de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Amazonas, Tocantins e Piauí. O Ministério de Minas e Energia afirmou que o avanço dos projetos deve ser estimulado por uma combinação de incentivos e instrumentos regulatórios, e que o Conselho Nacional dos Minerais Críticos terá papel importante nessa estratégia. O objetivo não é que cada mineradora realize sozinha todas as etapas, mas criar condições para que os projetos avancem na cadeia de valor, seja diretamente ou por meio de parcerias com empresas que detenham tecnologia e capacidade industrial. O que acontecerá dependerá agora das regras que virão.
Citations marquantes
A nova política de minerais críticos vem com a promessa de que serão acionados novos instrumentos, governança e medidas para que esse minério não seja apenas extraído e exportado, mas realmente sirva para estimular o adensamento da cadeia de valor.— Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos
O objetivo é criar condições para que os projetos avancem na cadeia de valor, seja diretamente, seja por meio de parcerias com empresas que detenham tecnologia e capacidade industrial.— Ministério de Minas e Energia