Em um ambiente tão volátil, todos os agentes econômicos se retraem
Quando canhões disparam no Estreito de Ormuz, os ecos chegam às bombas de gasolina do Brasil. A retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã elevou o petróleo Brent em 5,2%, forçando o governo Lula a suspender decisões sobre a retirada de subsídios aos combustíveis — um dilema que revela como a soberania econômica de um país pode ser reféns de conflitos travados a milhares de quilômetros de distância. O Brasil, preso entre pressões fiscais internas e a volatilidade geopolítica externa, aguarda para ver como o mundo se rearranja antes de agir.
- O fim do cessar-fogo entre EUA e Irã fez o barril de petróleo saltar 5,2% em um único dia, sacudindo mercados globais e acendendo alertas em Brasília.
- O governo Lula, que estava prestes a eliminar subsídios bilionários à gasolina e ao diesel, freou as discussões de última hora diante da imprevisibilidade do conflito.
- O mercado financeiro brasileiro absorveu o choque: Ibovespa recuou, juros futuros subiram e o dólar oscilou, refletindo a dificuldade de precificar ativos em meio ao caos geopolítico.
- O presidente da Câmara, Hugo Motta, aumentou a pressão interna ao ameaçar votar projeto que compensaria a perda de arrecadação caso o subsídio à gasolina não seja retirado.
- O governo avalia manter o Imposto de Exportação do petróleo em 12%, com possível redução apenas se a cotação se estabilizar abaixo de US$ 70 — sinal de que a cautela prevalece sobre qualquer movimento brusco.
O barril de petróleo Brent fechou em US$ 78,02 ontem, após uma alta de 5,2% provocada pela decisão do presidente Donald Trump de encerrar o cessar-fogo com o Irã e retomar ataques ao país. A escalada foi uma resposta a ataques iranianos contra navios comerciais no Estreito de Ormuz — passagem que concentra um quarto da produção global de petróleo e cujas perturbações se traduzem quase imediatamente em pressão sobre os preços mundiais.
No Brasil, o impacto foi sentido de forma direta. O governo Lula havia sinalizado, na semana anterior, a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis — incluindo cortes no diesel e na gasolina que representam bilhões em despesas públicas. As reuniões decisivas estavam marcadas para esta semana, mas o Executivo optou por aguardar a evolução do conflito antes de qualquer anúncio. Em um ambiente de volatilidade abrupta, retirar subsídios se torna um risco político difícil de calcular.
O mercado financeiro brasileiro sentiu o baque: o Ibovespa recuou 0,79%, os juros futuros subiram e o dólar fechou praticamente estável. Analistas apontam que conflitos geopolíticos paralisam decisões de investimento e reduzem a demanda por commodities industriais, ampliando a incerteza além do setor de energia.
A pressão sobre o governo não vem apenas de fora. O presidente da Câmara, Hugo Motta, avisou que pode pautar um projeto criando mecanismo de compensação tributária caso o subsídio à gasolina não seja eliminado — colocando o Executivo em uma posição delicada entre a volatilidade dos mercados e as exigências do Legislativo. Enquanto isso, o Imposto de Exportação do petróleo deve ser mantido em 12%, com possível revisão apenas se a cotação se estabilizar próxima a US$ 70. O Brasil, dependente de importações e com subsídios estruturais, aguarda — como tantas vezes antes — que o mundo decida por ele.
O barril de petróleo Brent disparou 5,2% ontem, fechando em US$ 78,02, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou o fim do cessar-fogo provisório com o Irã e ordenou novos ataques ao país. A escalada aconteceu após retaliação americana a ataques iranianos contra navios comerciais que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz, uma passagem crucial para o comércio mundial. A região do Oriente Médio responde por um quarto da produção global de petróleo, o que explica por que a tensão geopolítica se traduz tão rapidamente em pressão sobre os preços dos combustíveis.
No Brasil, o impacto foi imediato e forçou o governo Lula a reconsiderar seus planos. A administração havia sinalizado, na semana anterior, a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis — começando com a suspensão de R$ 0,35 por litro de diesel, seguida pela retirada de R$ 1,12 de subsídio adicional ao diesel e R$ 0,44 à gasolina. Essas discussões estavam marcadas para ontem e hoje, mas agora o Executivo decidiu esperar alguns dias para avaliar como a situação no Oriente Médio evoluirá antes de tomar qualquer decisão.
O governo tem razões fiscais claras para querer eliminar esses subsídios, que representam bilhões em despesas públicas. Mas em um ambiente de volatilidade como o atual, com o petróleo subindo abruptamente, tomar essa decisão se torna politicamente arriscado. Gustavo Bertotti, diretor de Renda Variável da Fami Capital, explicou que quando há escalada de conflito, todos os agentes econômicos se retraem, reduzindo a demanda por commodities como ferro e aço, enquanto a incerteza sobre quando o conflito terminará paralisa as decisões de investimento.
O mercado financeiro brasileiro sentiu o baque. Os juros futuros subiram, o Ibovespa recuou 0,79% para 170.653 pontos, e o dólar oscilou mas fechou praticamente estável, com queda mínima de 0,07% para R$ 5,14. A volatilidade reflete a dificuldade de precificar ativos quando o cenário geopolítico muda de hora em hora.
Há ainda uma complicação política doméstica. O presidente da Câmara, Hugo Motta, avisou aos líderes partidários que pode colocar em votação um projeto que criaria um mecanismo para compensar a perda de arrecadação caso o governo não retire o subsídio à gasolina. Isso significa que o Executivo enfrenta pressão tanto de cima — da volatilidade dos mercados — quanto de dentro — da pressão legislativa por compensações tributárias.
O governo também deve manter o Imposto de Exportação do petróleo em 12%, apesar de a medida provisória que o instituiu perder validade hoje. Segundo interlocutores, a avaliação interna é que se a cotação do petróleo se estabilizar perto de US$ 70, a alíquota pode ser reduzida. Mas acima de US$ 80, a orientação é mantê-la no patamar atual, mesmo diante das reclamações do setor petrolífero, especialmente das empresas privadas que veem seus lucros reduzidos pela tributação.
O que se desenha é um cenário de espera e incerteza. O Brasil, que depende de importações de petróleo e tem subsídios estruturais aos combustíveis, fica refém de decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância, no Estreito de Ormuz. Cada movimento no Oriente Médio reverbera nos preços que os brasileiros pagam na bomba e nas contas fiscais do governo.
Notable Quotes
Com a escalada de conflito, todos os agentes econômicos se retraem, diminuindo a demanda por ferro, aço, e há aumento da incerteza no mundo de quando isso vai cessar— Gustavo Bertotti, diretor de Renda Variável da Fami Capital
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o governo brasileiro não consegue simplesmente remover os subsídios e pronto?
Porque subsídios aos combustíveis não são apenas números em uma planilha — eles afetam diretamente o custo de vida de quem depende de carro, ônibus, caminhão. Remover R$ 0,44 de cada litro de gasolina é politicamente explosivo, especialmente quando o preço já está subindo por razões fora do controle do Brasil.
Mas o governo disse que quer eliminar esses subsídios por razões fiscais. O que mudou?
A volatilidade. Quando você está em um ambiente onde o petróleo pode saltar 5% em um dia por causa de ataques no Oriente Médio, você não sabe se os preços vão continuar subindo ou cair nos próximos meses. Tomar uma decisão permanente em um cenário tão incerto é arriscado.
E a pressão do Hugo Motta na Câmara? Isso não força a mão do governo?
Força, mas de um jeito complicado. Motta está dizendo que se o governo não remover o subsídio, ele vai votar um projeto que compensa a perda tributária de outra forma. É basicamente um ultimato: ou você tira o subsídio, ou você paga de outro jeito.
Qual é a saída que o governo está considerando?
Esperar. Deixar os dias passarem, ver se a situação no Oriente Médio se acalma, se o petróleo cai de volta para perto de US$ 70. Se isso acontecer, fica mais fácil justificar a remoção dos subsídios. Se o petróleo ficar acima de US$ 80, o governo mantém o imposto de exportação alto e adia a decisão.
Então o Brasil está apostando que a paz volta?
Não exatamente. O Brasil está apostando que consegue ganhar tempo. Tempo para ver como a geopolítica se resolve, tempo para preparar a população, tempo para negociar com o Congresso. É uma estratégia de espera em um jogo onde as peças se movem fora do tabuleiro.