Tarcísio divulga fake sobre droga enquanto ignora morte de jovem com 27 tiros da PM

Gustavo Munis de Santana, 20 anos, foi morto com 27 dos 45 disparos feitos por policiais durante abordagem em Moema, deixando família enlutada.
Os 27 tiros foram reais. O velório foi real.
Contraste entre a falsidade do vídeo compartilhado pelo governador e a realidade concreta da morte de Gustavo.
Mark

Por que o governador compartilhou um vídeo falso? Qual era o objetivo?

Mimi

Ele estava tentando deslegitimar a manifestação pró-Lula na Paulista. Se conseguisse convencer as pessoas de que havia crime em massa, poderia transformar um protesto pacífico em uma ameaça à ordem.

Luke

Mas o vídeo era falso. Como isso funciona politicamente? Quem acredita?

Mimi

Muita gente. Especialmente quem já estava predisposto a desconfiar do protesto. A falsidade é secundária — o que importa é o efeito.

Mark

E enquanto isso, Gustavo Munis de Santana foi morto. Como a família está?

Mimi

Enterrando um filho. Gustavo tinha 20 anos, era negro, não tinha antecedentes criminais. A polícia disparou 45 vezes. Ele foi atingido 27 vezes.

Luke

A polícia diz que ele apontou algo para eles. Isso é verdade?

Mimi

Segundo a versão oficial, sim. Mas o único objeto encontrado junto ao corpo era um telefone celular. A família contesta a narrativa de que ele estivesse em surto.

Mark

Então há uma disputa sobre o que aconteceu?

Mimi

Há. A polícia diz uma coisa. A família diz outra. Um inquérito foi aberto, mas isso não traz Gustavo de volta.

Luke

E Tarcísio? Ele comentou sobre a morte?

Mimi

Não. Ele estava ocupado compartilhando um vídeo falso sobre drogas. Nenhuma palavra sobre os 27 tiros.

Mark

Isso não é contraditório? Ele fala sobre segurança pública, mas ignora a morte causada pela polícia?

Mimi

Exatamente. É a contradição que o texto está tentando expor.

  • Gustavo Munis de Santana, 20 anos, atingido por 27 dos 45 disparos feitos por policiais em Moema
  • Vídeo falso compartilhado por Tarcísio de Freitas para deslegitimar protesto pró-Lula na Avenida Paulista
  • Manifestação pacífica com dezenas ou centenas de milhares de pessoas; apenas 10 pessoas picharam estrutura de metrô
  • Gustavo era negro, sem antecedentes criminais, tomava antidepressivos; único objeto encontrado junto ao corpo era telefone celular

Governador do estado mais populoso do Brasil amplifica conteúdo falso sobre segurança pública para atacar manifestação pacífica na Avenida Paulista. Gustavo Munis de Santana, 20 anos, foi morto com 27 disparos durante abordagem policial após chamado sobre possível surto psicológico; família contesta narrativa oficial.

Tarcísio de Freitas compartilha vídeo falso para deslegitimar protesto pró-Lula, enquanto ignora morte de jovem negro atingido por 27 tiros de policiais em abordagem em São Paulo.

No domingo 11 de outubro, dezenas ou centenas de milhares de pessoas ocuparam a Avenida Paulista em São Paulo para manifestar apoio ao presidente Lula. Foi um ato pacífico. Naquele mesmo fim de semana, o governador Tarcísio de Freitas compartilhou um vídeo que supostamente mostrava drogas sendo usadas durante a manifestação. O vídeo era falso — produzido em outro país, descontextualizado, apresentado como evidência de crime onde não havia crime. Flávio Bolsonaro, senador pelo PL, compartilhou o mesmo material. A intenção era clara: deslegitimar o protesto, transformar uma multidão pacífica em uma turba criminosa.

Mas os números não sustentam essa narrativa. Dez pessoas subiram sobre uma estrutura de metrô para pichar. Dez. Se apenas dez por cento dos presentes tivessem decidido depredar a avenida, a Paulista estaria em ruínas. Não estava. Usar uma minoria para rotular o evento inteiro é desonestidade intelectual — seria como dizer que toda a Polícia Militar de São Paulo está vendida ao PCC porque alguns policiais cometem crimes, ou que o próprio governador fraudou bilhões em créditos de ICMS porque servidores operavam criminosamente sob seu comando. A lógica não funciona quando aplicada aos que têm poder, apenas quando aplicada aos que protestam.

Enquanto Tarcísio gastava tempo amplificando um vídeo falso sobre segurança pública, a família de Gustavo Munis de Santana enterrava o jovem no Cemitério Congonhas, na zona sul de São Paulo. Gustavo tinha 20 anos. Era negro. Não tinha antecedentes criminais. Tomava antidepressivos. A Polícia Militar havia sido acionada após um chamado sobre um homem supostamente em surto, ameaçando tirar a própria vida. Era uma ocorrência que, pela sua própria natureza, exigia cuidado extremo, preparação e procedimentos voltados à preservação de uma vida.

O que aconteceu foi diferente. Durante a abordagem em Moema, policiais dispararam 45 vezes. Gustavo foi atingido por 27 desses disparos. A versão registrada pelos agentes sustenta que ele correu ao perceber a chegada da equipe, se refugiou em um imóvel e apontou um objeto escuro na direção dos policiais. Mas o único objeto encontrado junto ao corpo era um telefone celular. A família contesta a narrativa de que o jovem estivesse em surto ou apresentasse comportamento suicida. Segundo a advogada dos familiares, o tratamento para depressão não envolvia episódios de tentativa de suicídio ou automutilação. A Secretaria da Segurança Pública anunciou a abertura de um inquérito e afirmou que não tolera desvios de conduta. Mesmo assim, eles continuam acontecendo.

O contraste é brutal. Um vídeo falso produzido em outro país merecia a atenção do governador. Uma família paulista obrigada a reconhecer o corpo do filho executado com 27 tiros não merecia nem uma palavra de indignação. Governar não é subir o tom nas redes sociais contra quem pensa diferente. É responder pelo funcionamento das instituições que estão sob sua responsabilidade, sobretudo quando agentes armados do Estado protagonizam uma ocorrência tão devastadora. Não se trata de atribuir a Tarcísio responsabilidade pessoal pelos disparos, mas de exigir do chefe do Executivo a mesma energia que demonstra para denunciar supostos delitos de manifestantes quando o assunto é a atuação da polícia que comanda. O vídeo apresentado como prova era falso em seu contexto. Os 27 tiros foram reais. O velório foi real. O enterro foi real. A dor dos parentes e amigos foi real. O problema de segurança pública que exige explicações de Tarcísio não está em um vídeo de fora do país. Está no corpo de Gustavo.

Governar não é subir o tom nas redes sociais contra quem pensa diferente, mas responder pelo funcionamento das instituições que estão sob sua responsabilidade, sobretudo quando agentes armados do Estado protagonizam uma ocorrência tão devastadora.
— Leonardo Sakamoto, colunista
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