No primeiro semestre de 2025, o Rio Grande do Sul revelou mais do que um crescimento nas vendas de automóveis: revelou um retrato de si mesmo. Com sete dos dez modelos mais vendidos sendo SUVs, os gaúchos expressam, por meio de suas escolhas de consumo, uma identidade moldada pelo campo, pela busca de segurança e por um poder aquisitivo que os distingue de outras regiões do país. O que parece ser uma tendência de mercado é, na verdade, um espelho cultural.
SUVs dominam vendas no RS com sete dos dez carros mais comercializados
O SUV sempre te passa mais segurança e acaba custando um pouco mais
Por que o Rio Grande do Sul está tão diferente da média nacional quando o assunto é SUV?
Tem a ver com quem somos. O gaúcho tem um poder aquisitivo um pouco mais alto, e o agro está no DNA da economia daqui. Quando você precisa rodar em estrada de terra, quando você trabalha com propriedade rural, um SUV faz mais sentido.
Mas SUVs são caros. Como isso se encaixa com a ideia de que carros populares desapareceram?
Exatamente. Os carros populares sumiram do mercado. Quem tinha crédito e condições agora não tem opção de entrada barata — tem que pular para um SUV. É um salto, mas é o que existe.
Isso é uma tendência global ou coisa do Brasil?
Global. Mas aqui no Brasil, e especialmente no Rio Grande do Sul, é mais intenso. As peruas desapareceram. Não há concorrente real para o SUV. Ele é moderno, tem tecnologia, e a indústria inteira empurra nessa direção.
E os comerciais leves? Por que picapes vendem tanto?
Porque fazem tudo. Você roça fora de estrada, transporta carga, leva a família. No agro, isso é ouro. A Strada, a Saveiro, a Toro — elas são práticas demais.
Junho teve uma queda grande nas vendas. Isso muda a história?
Muda o ritmo, não a direção. Choveu muito em junho, as pessoas não saem para comprar carro quando está chovendo. Mas a tendência dos SUVs segue firme.
The Pulse
- O RS registrou 55.694 emplacamentos no semestre, crescimento de 8,70% sobre 2024 — mas o dado mais revelador está na composição: 70% do top 10 são SUVs, contra 50% na média nacional.
- A ausência de carros populares acessíveis e o desaparecimento das peruas do mercado de massa criaram um vácuo que os SUVs preencheram, empurrando consumidores a um salto qualitativo nem sempre planejado.
- A ligação histórica do Estado com o agronegócio amplifica essa preferência: veículos altos, robustos e com tração são funcionais tanto na lavoura quanto na percepção urbana de segurança.
- Junho trouxe um sinal de alerta — queda de 14,41% nas vendas em relação a maio, atribuída em parte ao excesso de chuvas, lembrando que mesmo tendências sólidas não são imunes ao clima e à sazonalidade.
No primeiro semestre de 2025, o Rio Grande do Sul revelou mais do que um crescimento nas vendas de automóveis: revelou um retrato de si mesmo. Com sete dos dez modelos mais vendidos sendo SUVs, os gaúchos expressam, por meio de suas escolhas de consumo, uma identidade moldada pelo campo, pela busca de segurança e por um poder aquisitivo que os distingue de outras regiões do país. O que parece ser uma tendência de mercado é, na verdade, um espelho cultural.
O Rio Grande do Sul abriu 2025 com crescimento expressivo nas vendas de veículos: 55.694 emplacamentos no primeiro semestre, alta de 8,70% sobre o mesmo período de 2024. Mas o número que mais chama atenção não é o volume — é a composição. Sete dos dez automóveis mais vendidos no Estado são SUVs, com o Volkswagen T-Cross na liderança, seguido pelo Chevrolet Tracker e pelo Jeep Compass. O percentual gaúcho de 70% supera com folga a média nacional de 50%.
Jefferson Fürstenau, presidente do Sincodiv-RS/Fenabrave, explica que a preferência não é coincidência. O poder aquisitivo relativamente mais alto do gaúcho permite acesso a veículos de maior valor, e a percepção de segurança que os SUVs transmitem — pela altura e robustez — é um fator decisivo para os compradores. A isso se soma a forte ligação do Estado com o agronegócio: veículos com maior altura e capacidade de tração são simplesmente mais adequados para a realidade rural de boa parte da população.
O consultor automotivo Milad Kalume Neto aponta ainda um fator estrutural: os SUVs não têm concorrentes reais. As peruas, que ofereciam espaço e versatilidade, desapareceram do mercado de massa e hoje sobrevivem apenas em segmentos premium. O SUV preencheu esse vazio — e a indústria tratou de cultivar seu apelo com design moderno e tecnologia. O sumiço dos carros populares mais baratos também empurrou consumidores para cima na escala de valor.
No segmento de comerciais leves, a lógica é parecida: Fiat Strada, Volkswagen Saveiro e Fiat Toro lideraram, reforçando a vocação do Estado para veículos versáteis e capazes fora do asfalto. Uma nota de cautela, porém: junho registrou queda de 14,41% em relação a maio, com o excesso de chuvas apontado como um dos fatores. A tendência parece consolidada, mas o mercado, como o clima gaúcho, reserva surpresas.
O Rio Grande do Sul começou 2025 com o pé acelerado. Nos primeiros seis meses do ano, o Estado registrou 55.694 emplacamentos de automóveis e veículos comerciais leves — um crescimento de 8,70% em relação ao mesmo período de 2024, quando havia sido registrado 51.235 unidades. Dentro desse movimento de expansão, porém, há uma tendência muito clara: os gaúchos estão comprando SUVs como nunca antes.
Dos dez modelos de automóvel mais vendidos no primeiro semestre, sete são utilitários esportivos. O Volkswagen T-Cross lidera a lista, seguido pelo Chevrolet Tracker e pelo Jeep Compass. Mais abaixo, ainda entre os mais comercializados, aparecem o Volkswagen Polo, o Chevrolet Onix e o sedan Onix Plus — estes últimos representando a resistência dos hatches e sedãs menores. Mas os números falam por si: 70% do top 10 gaúcho é composto por SUVs. Na média nacional, esse percentual cai para 50%. O Rio Grande do Sul, portanto, está numa trajetória própria.
Jefferson Fürstenau, presidente do Sincodiv-RS/Fenabrave — a entidade que representa concessionárias e distribuidoras no Estado — aponta que essa preferência não é acidental. O poder aquisitivo do gaúcho é um pouco mais elevado do que o de outras regiões, particularmente em comparação com Estados do Nordeste. Isso permite que mais pessoas tenham acesso a veículos de maior valor. Além disso, há a questão da percepção de segurança: um SUV, por estar mais alto do solo e ter estrutura mais robusta, transmite uma sensação de proteção que atrai compradores. "O SUV sempre te passa mais segurança. Ele é um veículo mais seguro do que um veículo mais baixo", resume Fürstenau.
Mas há outro fator que explica essa preferência regional: a ligação forte com o agro. O Rio Grande do Sul tem uma economia profundamente enraizada na agricultura e na pecuária. Veículos mais altos do solo e com maior capacidade de tração — tanto SUVs quanto comerciais leves — são mais adequados para propriedades rurais e estradas de terra. Fürstenau destaca que essa característica regional amplifica a demanda por esses modelos. Além disso, o desaparecimento dos carros populares do mercado também contribui. Quem antes compraria um veículo de entrada mais barato agora, diante de preços mais altos, opta por um SUV — um salto qualitativo que reflete tanto a inflação quanto a mudança nas preferências.
Milad Kalume Neto, consultor automotivo, oferece uma perspectiva mais ampla. Os SUVs, diz ele, são os veículos da moda não apenas no Brasil, mas globalmente. Eles combinam design moderno, tecnologia e um apelo que a indústria automóvel cultiva ativamente. Mas há algo mais estrutural: não existem concorrentes reais para essa categoria. As peruas — aqueles carros alongados que ofereciam espaço e versatilidade — desapareceram do mercado de massa. Hoje, só existem em segmentos extremamente premium. O SUV, portanto, preencheu um vazio.
No segmento de comerciais leves — picapes e veículos de carga e passageiros — a história é semelhante. A Fiat Strada, a Volkswagen Saveiro e a Fiat Toro foram as campeãs de venda. Esses veículos oferecem versatilidade: podem rodar fora de estrada, servem para escoar pequenas produções agrícolas e ainda funcionam como transporte familiar. No primeiro semestre, foram emplacados 12.577 comerciais leves, enquanto os automóveis somaram 43.117 unidades.
Há, porém, um sinal de alerta. Embora o acumulado do semestre mostre crescimento, junho trouxe uma queda acentuada. As vendas caíram 14,41% na comparação entre junho e maio. Fürstenau aponta o excesso de chuva em junho como um dos fatores explicativos — um lembrete de que, mesmo em tendências robustas, fatores climáticos e sazonais ainda importam. O que vem pela frente é incerto, mas a preferência dos gaúchos por SUVs parece estar consolidada.
Notable Quotes
O SUV sempre te passa mais segurança. Ele é um veículo mais seguro do que um veículo mais baixo.— Jefferson Fürstenau, presidente do Sincodiv-RS/Fenabrave
Nós temos um apelo agro muito forte. Quando tu tem o apelo agro mais forte, tu tem uma tendência maior a usar os comerciais leves e os veículos SUVs por serem mais altos do solo.— Jefferson Fürstenau